Publicado em 29/01/2012

Autodefesa na Tahrir

O cuidado com a autodefesa envolve muita disciplina e divisão de tarefas. Os manifestantes afirmam permanentemente que não querem a violência, porém a memória recente envolvendo as prisões e mortes de amigos e familiares, bem como a realidade de que o Egito segue comandado por um regime militar, não deixa outra escolha a eles que não a permanência de um estado de alerta.

Conversando com alguns manifestantes, a avaliação é de que o exército não se faz presente neste momento por contar com apoio de certa parcela da população que entende que a revolução está concluída, que o parlamento está constituído e que deve se dar tempo para que o governo militar trabalhe a transição. Assim, se houvesse um banho de sangue na Tahrir, a junta militar perderia este apoio. Entretanto, acreditam que a tendência é o fortalecimento da revolução, a fragilização da junta e, por consequência, o retorno da repressão contra o povo.

É importante uma reflexão breve sobre a violência em uma revolução. Ao contrário do senso comum, que diz que “se um não quer, dois não brigam”, a violência revolucionária é responsabilidade exclusiva do Estado e seu aparato repressor, o exército e a polícia. Para os trabalhadores e o povo, que são maioria numérica na sociedade, além de serem quem produz a riqueza a partir de seu trabalho, não seria preciso o uso da violência por parte dos manifestantes. Ocorre que simplesmente por levantarem sua voz e exigir democracia, emprego e o fim da miséria extrema são recebidos com bombas, cassetetes e tiros. Assim, a autodefesa torna-se um dos elementos fundamentais para a libertação dos povos. No Cairo, assim como em todas as revoluções da história, inclusive as que levaram a burguesia ao poder há séculos, isto se faz presente com muita clareza.

 

Cairo, Egito, 28 de janeiro de 2012.

 

 

 

 

 

 

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