Considerações finais: Não haverá democracia enquanto houver capitalismo.
"Mas em história não se fazem nunca grandes coisas sem pequenas coisas. Mais exatamente: as pequenas coisas, numa grande época, quando integradas numa grande obra, deixam de ser 'pequenas coisas'" (Lenin, 1923).
Uma tragédia, que poderia ser apenas isso, uma tragédia, marcou o final de nossa estadia no Egito. O final do jogo entre Al Ahly e Al Masry que terminou com uma ocupação violenta do gramado e um saldo de 73 mortos, segundo o governo do Egito, além de ter repercutido amplamente na mídia internacional trouxe à tona grandes discussões. Afinal, uma Revolução está em curso neste país e, por isso, um fato como esse toma proporções maiores do que si mesmo.
Se por um lado a Junta Militar tentará se aproveitar do ocorrido, criando uma tese de que o povo egípcio precisa de controle rígido, pois “não sabem se comportar”, a exemplo deste jogo de futebol, por outro lado a população presenciou uma escandalosa e consciente demora das mesmas forças armadas em socorrer as vítimas para justamente facilitar a sua tese. São mais centenas ou milhares de familiares e amigos que perdem seus próximos em uma tragédia social. As denúncias contra a polícia e o SCAF (Supremo Conselho das Forças Armadas) começam a aumentar nas redes sociais. O hospital próximo ao estádio, em Port Said, está superlotado de parentes dos feridos. O clima é tenso. A experiência com o governo provisório, no mínimo, se acentua.
Durante estes dias, percebemos e ouvimos dos jovens acampados na Praça Tahrir que a população não apoia massivamente esta segunda revolução em curso, como apoiou a primeira onda que derrubou Mubarak. Em fevereiro de 2011, o Egito inteiro gritava ‘Fora Mubarak’. Hoje, existe um setor mais acomodado, mais velho ou conservador, que prefere esperar mais 5 meses para que a promessa de eleições presidenciais seja cumprida.
Para jovens e mulheres da Praça, que tiveram neste um ano sem Mubarak mais dezenas de milhares presos ou mortos pelo SCAF, não se pode esperar mais nem um dia. As barracas da praça trazem as fotos dos mortos e presos. Esta memória está viva e fervilhante nas mentes dos revolucionários egípcios. Eles já não têm mais nada a perder. A sede de justiça toma proporções difíceis de entender para nós que não vivemos uma revolução.
Assim, precisamos analisar e caracterizar a realidade. Não existe nenhuma chance de a massa vir a apoiar e aceitar a continuidade de um regime militar no Egito. E para a reação democrática, um novo governo e parlamento democrático-burguês, aos moldes dos regimes ocidentais, ser consolidada no Egito, ela terá que derrotar na força os jovens revolucionários que se multiplicam a cada dia.
Um exemplo ajuda a entender o que falamos. Logo da queda de Mubarak, várias pichações de grupos e organizações políticas diziam ‘Yes, SCAF’. Ou seja, tinha-se uma ilusão de que a junta militar, sem o ditador, seria um governo que daria certo, ou que faria uma transição gradual e que as coisas melhorariam. Vale destacar que o exército egípcio tem um peso cultural superior ao que compreendemos no Brasil. Ocorre que meses depois, os mesmos grupos estavam pichando ‘NO, SCAF’, nos mesmos muros. Apagavam-se as pichações antigas e iniciava-se a segunda onda revolucionária.
Isso significa, que a experiência com as alternativas que surgem é muito acelerada numa revolução. A população quando lança mão de sua própria vida para melhorar sua condição humana e social é porque já não tem mais paciência. Entender isso é determinante para chegarmos a seguinte conclusão: Mesmo que o SCAF consiga manter as eleições apenas para daqui a 5 meses (a Praça pede antecipação), quando o novo presidente for eleito, a experiência da população com este será igualmente acelerada.
Estamos dizendo de antemão que o novo governo civil e parlamento egípcio não serão diferente? Exatamente! O capitalismo egípcio e mundial não pode fazer nada para atender as reivindicações que levaram milhões às ruas. A massa insurreta pede o fim da miséria, emprego digno e salário decente. E isso, com toda certeza, o capitalismo não será capaz de atender, nem a curto, nem a médio e muito menos a longo prazo.
Por isso, não existe solução pacífica e gradual para a situação no Egito. E o mesmo serve para o mundo. Ou o povo avança sua revolução até tomar as riquezas por ele produzidas e o controle da economia e da política, através de seus organismos, conselhos e assembleias democráticas, construindo o socialismo, ou o regime burguês partirá para uma ofensiva violenta contra as massas com o propósito de desmoralizá-las.
Em todas as revoluções, existem os girondinos, mencheviques, socialdemocratas e traidores. No Brasil, guardadas as proporções, este papel foi cumprido pelo PT, antes mesmo de estourar uma revolução. No Egito, existe a Irmandade Muçulmana, que domina o atual parlamento e a cada dia se aproxima mais do SCAF, distanciando-se da Tahrir. A Irmandade foi linha de frente para derrubar Mubarak. Assim como os mencheviques foram para derrubar o Czar na Russia. Mas hoje, a Irmandade sabota as manifestações que exigem do parlamento a antecipação das eleições por exemplo. Usa a religiosidade dos muçulmanos para dizer que devem seguir o seu programa político, traidor.
Entretanto, para sorte da revolução, os jovens e as organizações revolucionárias da Tahrir estão se enfrentando com a Irmandade. Cantando contra eles. Dizendo que eles venderam a revolução. Que se acomodaram com suas cadeiras no novo parlamento. Isso é fantástico, pois abre caminho para que as organizações que defendem a continuidade da revolução se construam como alternativa diante do SCAF e do novo parlamento fantoche.
Assim, a sorte e o triunfo da revolução, isto é, a possibilidade do fim da exploração e da fome generalizada, a libertação do povo, depende de que as organizações comprometidas com os trabalhadores, jovens e mulheres, derrotem politicamente a Irmandade Muçulmana, apresentando um programa de independência de classe, anticapitalista, laico e socialista.
Por fim, gostaríamos de agradecer profundamente a hospitalidade que recebemos dos egípcios, especialmente na praça Tahrir. Notamos como um povo em luta se enche de forças quando recebe uma solidariedade e um apoio internacional, por menor que este seja. E percebemos como a esquerda mundial, apesar de todas as dificuldades, poderia estar cumprindo um papel muito diferente na Primavera Árabe. Em especial a Trotskysta, que apesar de pequena, é a única capaz de se opor ao Castro-chavismo e exercer o internacionalismo proletário na prática, enviando apoio militante aonde existe revolução.
Nós, em nome do Movimento Relucionário, da CRI- Corrente Revolucionária Internacional que buscamos desenvolver o Comitê de Apoio às revoluções árabes, fizemos um grande esforço para dar este pequeno apoio. Mas estamos certos de que é um pontapé fundamental rumo à construção de um grande movimento revolucionário mundial, capaz de organizar a resistência anti-imperialista e a luta pelo socialismo em todos os cantos do mundo. Começando, obviamente, por onde é mais urgente e decisivo. No Norte da África.
Cairo, Egito, 02 de fevereiro de 2012.
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