Uma revolução, também, feminista!
O protagonismo das mulheres foi das primeiras coisas a nos chamar a atenção nesse processo.
As mulheres, jovens, velhas, mães, participavam ativamente das manifestações na Tahrir. Não apenas seguindo as palavras de ordem puxadas por algum homem. Muitas vezes, eram elas que iam no chão, em meio a multidões, puxando os gritos e liderando. Isso quando não subiam nos palanques, pegavam o microfone e, de lá, gritavam por liberdade, chamavam a queda da junta militar e exigiam o fim da violência policial! E, nisso, mais uma vez eram seguidas e aplaudidas por multidões!Emocionante, e contagiante!
Nós, vindas de uma cultura que nos ensina a andarmos seminuas, acreditamos, muitas vezes sem qualquer reflexão, que isso é a liberdade! Que liberdade é essa que exige a exposição máxima do corpo para nos sentirmos bonitas, valorizadas e desejadas? É a liberdade da “democracia” ocidental! É papo furado!Se no oriente há machismo, no ocidente também há! Não fechemos os olhos para isso!
As mulheres que lá estavam, lutando e reivindicando o fim de uma ditadura militar, estudam, trabalham, cuidam de suas famílias, tal qual no nosso mundo. Atravessavam as passeatas com o filho no colo. Cobriam, ou não, a cabeça e o rosto com o hijab (véu tradicional). Vimos muitas com a cabeça e o rosto descobertos, andando tranquilamente, sem serem “atacadas” por ninguém. Da mesma forma que vimos muitas andando sozinhas nas ruas, em grupo apenas de mulheres! Justamente pela carga do machismo histórico que sofrem, é uma necessidade objetiva das mulheres serem vanguarda nesse processo de transformação.
Assim, juntamente com a revolução democrática em curso, que só pode ser vitoriosa na medida em que se converta em revolução social, existe uma revolução sexual, feminista, de libertação e emancipação das mulheres, que passam a ser junto aos jovens as maiores interessadas e necessitadas da transformação em curso no Egito.
Observações assim são importantes, principalmente para quem prefere acreditar que as mulheres do oriente não passam de “apêndices” de seus maridos!
Entre os jovens na Praça Tahrir, o ambiente é ainda mais parecido com o que vemos no Brasil. Jovens, meninos e meninas, sentados juntos, em rodas. Amigos, namorados de mãos dadas, conversando, comendo, bebendo (qualquer coisa, menos álcool que, pelas tradições daqui, é extremamente vergonhoso consumir). Jovens, como os brasileiros...
Num país de esmagadora maioria muçulmana, os cristãos são pouco mais de 10% da população. E estão todos juntos nos protesto: homens e mulheres, muçulmanos e cristãos!
Para a maioria de nós, que conhece o oriente através da imprensa e dos governos do ocidente, é fundamental destacar isso!
O machismo, assim como a intolerância religiosa, não são exclusividade do oriente muçulmano! Que religião foi mais autoritária e “colonialista”, no mundo inteiro, que a cristã? E o que dizer do judaísmo do “laico” estado de Israel, que promove um genocídio diário contra os palestinos?
Assim, sobre as revoluções no mundo árabe e as novas sociedades que se constroem, assim como uma revolução também cultural, cabe a nossa humildade para aprendermos juntos. Aprender com aqueles que hoje, saem de suas casas, deixam de lado suas aspirações individuais, para coletivamente buscarem um mundo melhor, sem preconceito de gênero, de raça, de religião, mas também sem miséria, sem exploração, sem um exército armado nas ruas, pronto para atacar covardemente a juventude e as mulheres que se levantam para transformar essa sociedade!
Cairo, Egito, 1 de fevereiro de 2012.

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