Publicado em 28/01/2012

Com otimismo, alegria e longe da polícia, a Tahrir vive a “sexta-feira da dignidade”.

Hoje, “sexta-feira da dignidade”, data que marca o início da repressão em 2011, foi mais um dia de protestos na Tahrir. Centenas de milhares de pessoas seguem exigindo sem parar a saída dos militares e o justiçamento dos assassinos do povo.

Percebemos que existem muitas divisões dentro da própria Praça. Hoje, inclusive, houve enfrentamento entre os revolucionários e a irmandade muçulmana, que insistia em colocar hinos e orações sagradas nos alto-falantes, tentando usar a religiosidade das pessoas para calar suas vozes, o que irritou profundamente a massa que estava protestando.  Há posições divergentes, principalmente no que diz respeito ao atual momento vivido pelo país. Se, de um lado, há aqueles que dizem “se esperamos 30 anos pela queda de Mubarak, podemos esperar mais 5 meses pelas eleições!”, há os que  não aceitam esperar mais um dia sequer, pois avaliam que a queda do governo, com a manutenção do regime, são insuficientes para a transformação do Egito.  

Um manifestante nos falou um pouco sobre isso, dizendo que alguns muçulmanos, quando fazem críticas ao governo, tem o seu comprometimento com a religião posto em dúvida, algo como, ‘se pensas assim, não és seguidor do islã’. Além disso, colocou que 1% dos egípcios controlam 99% da riqueza do país –o que, em nossa democracia ocidental, não é muito diferente-, e que, a democracia, diante da miséria, do desemprego e da falta de moradia, deixa de ser o ponto principal na pauta de reivindicações.

É importante destacar isso, pois para aqueles que acreditam ser apenas uma revolução democrática, estamos diante de uma pauta muito mais profunda, que questiona as condições de o sistema capitalista prover plenamente as necessidades humanas.

Por fim, vale observar que em meio a tantos protestos, a polícia simplesmente não se faz presente, havendo um ambiente de muito respeito e solidariedade entre todos que aqui estão. Acreditamos que, não fosse assim, não haveria tantas famílias presentes –casais com seu filhos, muitas vezes crianças de colo, acampando e/ou em meio às manifestações-.

Há um sentimento de otimismo muito grande, e os manifestantes protagonizam cânticos e agitações em homenagem ao fato de que a Tahrir segue ocupada e de que a massa não abandonou a causa. Um dos hinos bem humorados dizia mais ou menos assim: “toda noite, toda noite, o Egito cresce, a revolução continua, toda noite...”. 

 

Cairo, Egito, 27 de fevereiro de 2012.

 

 

 

 

 

 

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