Publicado em 24/05/2010

Paraguai: Lugo persegue lutadores, demonizando EPP. Frente Popular completa 2 anos governando para o capitalismo.

Eleito em 20 de abril de 2008 com 40,83% dos votos, o bispo Fernando Lugo, líder da Aliança Patriótica pela Mudança (APC, em espanhol), expressava a esperança de milhões de paraguaios de mudar completamente sua realidade.

        Assim como a eleição de Lula no Brasil, em 2002, ou a vitória de Tabaré Vasquez no Uruguai em 2004, a eleição de Lugo representou para muitos, finalmente, a “chegada da esquerda e dos trabalhadores ao poder”.

        Porém, assim como seus colegas e vizinhos políticos, representantes do que se chamam de governos de Frente Popular, Lugo logo em seguida demonstrou que era apenas uma mudança de forma, para manter o mesmo conteúdo de sempre.

        As Frentes Populares se multiplicaram pelo mundo, em especial na América Latina, em função das lutas cada vez mais massivas e radicalizadas dos trabalhadores, que derrotaram nas ruas a continuidade dos planos neoliberais, os interrompendo, e, nas urnas, de modo distorcido, derrotaram os candidatos claramente identificados com este modelo de privatização, ataques trabalhistas e pró-imperialista.

A realidade, porém, é que estes governos, já de início, assumiram todos os compromissos mantidos por seus antecessores, como os pagamentos das dívidas públicas, os arrochos ao funcionalismo, a corrupção generalizada e o poder intacto das instituições capitalistas burguesas, como o Parlamento e especialmente a Justiça. Em razão desta conservação de toda a ordem e estrutura anterior, os “governos da mudança” passaram a ser os maiores inimigos dos trabalhadores hoje em dia, sendo os responsáveis pelos lucros históricos dos banqueiros e empresários e pela perseguição e exploração à classe trabalhadora.

Fernando Lugo, depois de pouco mais de 2 anos de governo, não trouxe nada do que prometeu ao povo paraguaio. Em troca, renovou a submissão do país ao Brasil, Estados Unidos e todos os outros países que exploram o Paraguai; manteve a pobreza alastrada; e boicotou e freou como pôde a luta pela reforma agrária no campo, um dos problemas mais sérios do Paraguai, dado ser esta uma das economias mais rurais do continente.

A esperança se transforma em enfrentamento

        Diante da posse iminente do governo Lugo, em 2008, centenas de trabalhadores avançaram em suas ações de luta pelo direito à terra, e, sentindo-se fortalecidos pela vitória de seu candidato, iniciaram uma onda de protestos e ocupações de terra, exigindo a reforma agrária, a expulsão dos estrangeiros com terras em áreas de fronteira (o que é ilegal), a devolução de terras roubadas de agricultores desde a década de 70, pela ditadura de Alfredo Stroessner, etc.

Mas esta onda de luta, que enfrentava os fazendeiros ricos paraguaios, mas principalmente os “brasiguaios”, brasileiros ou descendentes de brasileiros, donos de terras tomadas de paraguaios em área de fronteira, logo recebeu um banho de água fria do novo governo. Lugo não apenas não assumiu a bandeira da reforma agrária, que prometera na campanha e foi um dos motivos de ter sido eleito, como passou a reprimir e perseguir os lutadores do campo e da cidade.

Assim, antes mesmo de assumir, pediu, e conseguiu, uma trégua nas ocupações, prometendo resolver a questão pela negociação e não pela pressão. Com essa medida, ele apenas ganhou tempo para não fazer nada, enquanto fortalecia os latifundiários e comprava lideranças populares. Esta política, porém, não impediu totalmente que seguissem enfrentamentos rurais e lutas contra os ocupantes brasiguaios e os latifundiários nacionais.

Como parte desta luta, os movimentos que permaneceram fora da orientação governista de conciliação, se radicalizaram cada vez mais e hoje são a maior dor de cabeça para Lugo, fazendo oposição a seu governo reacionário e, no caso do EPP, chamando a que se derrube seu governo,o que inclui uma série de ações aramadas.

Perseguição aos lutadores e omissão diante dos traficantes

É numa situação de frustração popular com seu mandato, crise econômica e lutas crescentes, que Lugo se encontra. Por isso, cada vez mais ele tenta identificar em seus inimigos a imagem de inimigos do país inteiro. O principal alvo escolhido foi o EPP (Exército do Povo Paraguaio). Este grupo é apresentado como sendo composto por perigosos agentes subsersivos que lutam contra a débil democracia paraguaia. Seu objetivo seria instaurar uma ditadura marxista-leninista, inspirada no chavismo e nas FARC, a guerrilha colombiana.

Com uma propaganda típica da “Escola das Américas”, que instruía e divulgava o “medo aos comunistas” desde a década de 60, Lugo mandou imprimir e colar cartazes por todo o país, com dezessete rostos mal encarados ao lado do titulo "Enemigos del Pueblo Paraguaio", numa variação provocativa do nome do EPP.

O governo do bispo Lugo chegou ao ponto de oferecer uma recompensa de 500 milhões de guaranis, equivalente a US$ 100 mil, por "información útil que lleve a la captura". Com esta propaganda do medo, Lugo tenta tirar o foco dos problemas do país e de seu governo fracassado, envolvido em escândalos que vão desde a paternidade de filhos que ele não reconhece e não paga pensão, até a corrupção e atentados políticos. Por isso, o EPP virou o bode expiatório.

O ataque mais brutal contra os lutadores e à maioria da população, contudo, veio após justamente mais um atentado, organizado pela direita armada e seus capangas, ligada ao narcotráfico, contra o senador Robert Acevedo, do Partido Liberal e da base do governo, que vinha denunciando os traficantes da região de Pedro Juan Caballero. Após este atentado da direita, o que fez Lugo? Decretou “estado de exceção” nos estados do norte do Paraguai, agredindo e aterrorizando toda a população, que pode ser presa sem acusação, morta e perseguida, sem maiores explicações. Tudo para, supostamente, “defender o Paraguai do EPP”.   

O resultado disso é que o Paraguai hoje está, com um governo de “esquerda”, implementando uma política semelhante a de Bush ou Uribe (Colômbia), de “caça às bruxas”, perseguindo os lutadores enquanto se cala ou financia os paramilitares e narcotraficantes.  

EPP: origem nacionalista burguesa e presente guerrilheiro reformista

        O Exército do Povo Paraguaio tem sua origem essencialmente ligada ao Movimento Pátria Libre. No passado, o MPL se opôs à ditadura de Alfredo Stroessner, que por 30 anos governou o Paraguai com mão de ferro. Era um movimento composto principalmente por jovens urbanos, com um conteúdo diletante e pequeno burguês, mas que ficou bastante conhecido durante o processo da redemocratização paraguaia.

O MPL, ou PPL (depois, virou partido), se definia como marxista-leninista, mas fazia isso como o MR-8 e tantos outros faziam no Brasil: apenas da boca para fora. Na teoria, defendiam Cuba e a URSS, mas, na prática, sua luta era por democracia burguesa mais ampla, liberdades civis e independência nacional, num programa limitado, de fato, às bandeiras de reformas no capitalismo.

        No início, Pátria Livre era um setor interno do Movimento Democrático Popular (MDP), e participou das eleições em Assunção, em 91, recebendo 0,1% dos votos. Depois, em 92, virou o MPL, unindo-se a outros jovens e membros da Teologia da Libertação (ala de esquerda da Igreja Católica), ao mesmo tempo em que era acusado de planejar e executar um sequestro político, pelo qual foi angariada uma grande quantia pelo resgate. Neste momento, inicia-se uma perseguição ao grupo, com o indiciamento de seus líderes e o anúncio, pela polícia, de armas encontradas que seriam do grupo.

        Desde esta data, o MPL se converteu em PPL, sempre se definindo como marxista e anti-imperialista, mas vinculado ao cristianismo “progressivo” e a ideias nacionalistas como a de figuras como José Gaspar Rodríguez de Francia, líder da independência nacional-burguesa do país.

Num caso ainda mais rumoroso, o PPL negou sua participação no sequestro e assassinato de Cecilia Cubas, filha do ex-presidente Raúl Cubas Grau, notório corrupto do país. Apesar de tudo, porém, o PPL conseguiu, em 2002, seu registro eleitoral, tornando-se legalizado. Na sequencia, impulsionou, em 2003, a chamada “Izquierda Unida”, que incluía o “Partido de los Trabajadores” (PT – sessão da LIT), "Corriente Gremial Campesina" (CGC), "Movimiento por la Igualdad y la Libertad", "Movimiento indígena 19 de Abril" (M19), "Movimiento de Recuperación Democrática" do Partido Comunista Paraguaio (PCP), "Corriente Sindical y Social" (CSS) y "Corriente Vecinal Popular" (CVP – ligado ao trabalho de bairros).

Com a eleição de Lugo, para dar resposta à realidade de ocupações e de uma situação revolucionária no Paraguai, que iniciou a partir das lutas da própria massa de trabalhadores, surge o EPP, que passa a atuar nos departamentos (estados) de San Pedro, Concepción e Amambay, no noroeste do país. O grupo teria assumido este nome em março de 2008, como principal herdeiro do PPL.

Analisando esta trajetória aparentemente errante, entre o eleitoralismo e o guerrilheirismo, alternando ações armadas com oportunismo eleitoral, o PPL, e o seu sucessor, EPP, não é um caso tão raro. Na verdade, a lista de organizações pequeno burguesas, com um programa de capitalismo democrático e nacionalista, o chamado “projeto democrático e popular”, é enorme. São partidos ou movimentos que defendem um programa vagamente socialista, com frases de efeito revolucionárias e algumas ações espetaculares, mas com um programa que não é de fato revolucionário nem marxista.

O objetivo deles, em última análise, é a “radicalização da democracia” e a eliminação dos males do capitalismo, e não dele mesmo. Diante da impossibilidade histórica e material de reformar e corrigir o capitalismo, o governo possível a ser construído ou apoiado por estes grupos são as Frentes Populares ou presidentes nacionalistas. Por isso, o EPP e as FARC, por exemplo, defendem o venezuelano Hugo Chávez e por isso não representam uma alternativa séria aos revolucionários.

Lugo sabe disso, mas prefere fazer retumbar as ações do EPP, atribuindo a ele feitos que nem lhe caberia, e superdivulgando os outros, com o intuito exatamente de criar um “inimigo” comum ao povo paraguaio, que o faça ter medo e esqueça a realidade muito mais assustadora em que vive.  É o caso do atual estado de exceção, que usa o EPP para perseguir todos os lutadores.

Os revolucionários devem estar na linha de frente contra a supressão de qualquer liberdade democrática no Paraguai, repudiando qualquer perseguição política e criminalização do EPP e de qualquer outro grupo que lute contra o governo.

Mas, além de tudo, o mais importante é fortalecer a luta de massas no Paraguai, a partir de organismos unitários dos trabalhadores populares, do campo e da cidade. É fundamental incorporar os operários e setores que possam paralisar o país, para que, nas ruas, se possa derrubar Lugo e a velha direita, construindo um governo socialista dos trabalhadores, que ponha abaixo o Congresso e a Justiça, o que, para ir em frente, precisa de uma nova direção, que seja revolucionária, e que supere os erros e limites de direções como a do EPP, que não é capaz de realmente lutar pelo fim do capitalismo como um todo.

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