Anorexia: padrão de beleza?
O Parlamento francês vota na próxima semana uma lei de punição à sites e meios de comunicação que façam incitação à anorexia. A punição vai de multas de 30 mil euros a 2 anos de prisão.
A anorexia é um distúrbio, mais comumente surgido na adolescência, em que a pessoa, ao considerar-se gorda, pára de se alimentar. Muitas vezes a pessoa, mesmo abaixo do seu peso, segue vendo-se como gorda e rejeita cada vez mais a alimentação.
A idéia da lei vem desde 2006, quando o mundo da moda foi abalado pela notícia de modelos que haviam morrido devido à anorexia. O caso mais comentado foi o da brasileira Ana Carolina Reston, de 21 anos, que, com 1,74m de altura, pesava 40Kg. Morreu de infecção urinária, pois seu organismo estava tão desnutrido que não conseguia combater a doença.
Os movimentos pró-anorexia (conhecidos também como pró-ana) iniciaram nos EUA e vêm ganhando força na França há cerca de 2 anos. Segundo seus “adeptos”, a anorexia não é uma doença, e sim um modo de vida. Possuem até lista de mandamentos, entre os quais se encontra uma afirmação de que “se você não é magra (o), você não é atraente”.
A maioria das vítimas da anorexia é mulher, e aqui queremos debater o momento sócio-econômico no qual os distúrbios alimentares como esses surgem, e o seu caráter principalmente machista.
O capitalismo, enquanto modo de produção, cria além de determinadas condições econômicas, ideologias que justifiquem essas condições. Nesse sentido, a padronização de uma beleza branca e magra corresponde a uma ideologia racista e excludente, cruel principalmente com as mulheres. Elas, enquanto setor super explorado e permanentemente exposto enquanto objeto sexual, acabam assim sendo as maiores vítimas dos padrões de beleza impostos, que desrespeitam características genéticas, biológicas, étnicas, independente de qualquer diversidade regional.
Assim, entendemos a anorexia, assim como outros distúrbios alimentares (bulimia e obesidade) enquanto uma conseqüência do atribulado ritmo de vida, em que tudo é trabalho, a busca por um emprego melhor, mais dinheiro, e o descuido com a alimentação, exercícios físicos e a saúde em geral. Distúrbios nos quais a pessoa passa a deixar de comer (anorexia) ou provoca o vômito do que ingeriu (bulimia), além do já citado, estão também ligadas a uma exigência da magreza enquanto sinônimo de beleza e elegância, ou seja, um padrão de beleza que dificilmente corresponde à realidade das pessoas comuns.
A França possui entre 30 e 40 milhões de anoréxicos, dentre os quais, 10% são homens. Essas estatísticas tendem a aumentar cada vez mais, principalmente entre mulheres. A Espanha, só no fim de 2007, fechou 4 blogs que ensinavam e estimulavam pessoas a serem anoréxicas, dando dicas de laxantes, diuréticos, como jejuar ou estimular o vômito, e por aí vai.
Entretanto, assim como aumentam os casos de distúrbios alimentares, crescem também as agências especializadas em retoques digitais (iWANEX Studio e The Shoemakers Elves), exigidos principalmente em modelos muito magras. A agência faz alterações para dar uma aparência mais saudável aos modelos. Ou seja, os padrões de beleza chegaram a extremos.
A lei francesa com certeza não impedirá o aumento nos casos de distúrbios alimentares, mas inibirá a sua divulgação explícita. A questão é que, justamente por isso, a lei é extremamente limitada. Novelas, comerciais e propagandas seguirão sendo feitos por pessoas magras, brancas e bonitas, sem refletir a diversidade da população mundial. E isso raramente é reconhecido: o preconceito em relação a outros grupos raciais e em relação a padrões estéticos não-europeus. Não é a toa que, assim como muitas mulheres tentam ser magras a qualquer custo, também tingem seu cabelo de loiro, colocam silicone nos seios, fazem plástica para afinar o nariz...
Logo, dentro do capitalismo, os padrões de beleza tendem a refletir o que é a própria essência do sistema: racista, machista, excludente, Pregando objetivos cada vez mais distantes da realidade e construindo uma população cada vez mais doente.