Publicada em 10/08/2007


O PAPEL DA CONLUTAS NA LUTA DOS TRABALHADORES

Introdução.

            Os trabalhadores no mundo todo vêm sofrendo profundos ataques às suas conquistas históricas. Na primeira fase do capitalismo os assalariados conquistaram inúmeros direitos, mediante muitas lutas: jornada de 8 horas, férias, 13º salário, proibição ao trabalho de menores, aposentadoria, etc. Criaram sindicatos, partidos operários e outras formas de organização. Entretanto, o capitalismo, a partir do início do século XX, entrou  na sua fase monopolista, e  deixou de crescer, deixando também de ter condições de conceder o mínimo que seja aos trabalhadores. Nessa fase as vitórias econômicas e sociais tornam-se mais difíceis. As conquistas materiais, mais ou menos importantes e duradouras, passaram a ser impossíveis. Essas lutas tendem a se contrapor ao próprio capitalismo. Isso significa que essas reivindicações, levantadas com suficiente força e conseqüência, colocam em crise o sistema capitalista. Quer dizer, o que historicamente pôde ser conquistado por dentro do capitalismo, hoje faz parte do conteúdo que só uma revolução socialista pode conquistar. A época da hegemonia dos monopólios é, por isso, também das crises, guerras e revoluções.
            A restauração capitalista nos ex-estados operários, implementada a partir da própria burocracia stalinista, possibilitou à burguesia monopolista a intensificação da ofensiva pela retirada dos direitos sociais. Os planos de “reformas” (leia-se: precarização do trabalho e retirada de direitos) passaram a ser uma constante no mundo todo. Ao mesmo tempo em que isso acontecia, houve uma brutal privatização de empresas estatais, dos recursos naturais, que passaram ao controle das multinacionais. Isso se soma às guerras de rapina levadas a efeito pelo imperialismo, (como é o caso do Iraque) pelo controle econômico e geopolítico dos recursos naturais do planeta.
            No Brasil, esse processo começou com o Governo Collor, passando por Fernando Henrique, e agora continua com Lula. A economia brasileira foi privatizada e internacionalizada na maior parte e, principalmente, nos seus ramos mais dinâmicos. As reformas liberais estão em curso: reforma da previdência, sindical, trabalhista, universitária. O governo Lula, portador de enormes ilusões e esperanças populares, revelou-se como o mais servil agente do imperialismo. Da mesma forma a CUT, construída como alternativa ao peleguismo da ditadura militar, transformou-se numa agência do governo, e, por isso mesmo, num braço da burguesia imperialista, inimiga dos trabalhadores e um dos pilares da ofensiva contra os direitos populares.
            Como reação a essa traição da CUT surge a Conlutas, que assume a bandeira da luta contra as reformas.  Agrupou, em torno de si, o melhor da vanguarda nacional. Sobre ela recai uma enorme responsabilidade. A nossa luta é para transformá-la em  uma alternativa independente do proletariado brasileiro. É por isso que os seus militantes devem discutir com profundidade os seus rumos. Devemos dota-la de uma política correta, definir as palavras de ordem e os métodos capazes de impedir os ataques aos nossos direitos, realizar novas conquistas e, derrotar o poder da burguesia e lutar pela tomada do poder por meio dos trabalhadores, em direção ao socialismo. Única forma de garantir  que as nossa conquistas sejam permanentes e não sejam novamente retiradas.
            A Conlutas nasce numa conjuntura onde os trabalhadores de diversos países começam a reagir e, muitas vezes, protagonizam insurreições. Nos últimos anos, verificaram-se lutas radicalizadas na França, Argentina, Bolívia, Equador, Venezuela, entre outros países. Ao mesmo tempo, é muito forte a resistência antiimperialista no Iraque e na Palestina. Os trabalhadores brasileiros não devem ser indiferentes a essas lutas, e devem dedicar a elas a sua solidariedade, da mesma forma que delas recebem os seus ensinamentos. A luta de classes é internacional. A burguesia está unificada internacionalmente, sob a direção do capital monopolista. Por isso, mais do que nunca, os trabalhadores também precisam unificar-se.

As origens e o caráter dos sindicatos.

            O movimento sindical surgiu com o capitalismo. Mais propriamente com a revolução industrial que criou o proletariado moderno. Portanto, foi a Inglaterra o berço do sindicalismo. No Brasil, no fim do século XIX, nasceu o movimento mutualista, as caixas de socorro mútuo, precursor do movimento sindical. O movimento propriamente sindical gestou-se no início do século XX, com um forte movimento grevista por melhores salários e melhores condições de trabalho. Pode-se dizer, então, que o sindicalismo é filho das greves, principalmente das greves gerais. Houve greves gerais em 1907, 1917 e 1919. Já em 1906 o governo Afonso Penna, sob pressão do movimento operário, viu-se obrigado a reconhecer o direito de livre associação, admitindo a legitimidade dos sindicatos construídos independentemente pelo proletariado. Nesse mesmo ano, aconteceu o primeiro Congresso Operário Brasileiro que criou a Confederação Operária Brasileira. Em 1912 realizou-se o segundo Congresso e em 1920 o terceiro. Desconsideram-se dois congressos anteriores, por serem considerados pré-sindicais.
            Os sindicatos, que surgiram nas duas primeiras décadas do século XX, foram criados a revelia do Estado, e, portanto, eram independentes deste. As direções desse movimento foram os anarquistas, socialistas, comunistas e sindicalistas autônomos. Rapidamente os chamados comunistas, ou seja, o PCB, criado em 1922, passou a preponderar sobre os anarquistas e outras tendências sindicais. Esse partido surgiu  sob a influência da revolução russa e desde o início alinhou-se com a política da fração dominante na Rússia, o estalinismo. Caracterizou-se por uma política de conciliação de classe, de respaldo ao estado burguês.
            Após a revolução de 30, a ditadura Vargas destruiu esses sindicatos independentes. Instituiu, no seu lugar, os sindicatos corporativos, atrelados ao Estado, que subsistem até hoje. Esse longo período de sindicalismo atrelado ao Estado somente tem sido possível pela ausência de uma direção política independente dos trabalhadores. Isso significa dizer que esse sindicalismo pró-burguês apenas foi possível  pelo apoio recebido das direções sindicais majoritárias, sendo a principal delas o PCB. 
            O Estado Novo estimulou o crescimento de uma aristocracia operária arrivista, dependente do aparelho sindical, que veio a ser a base social para a criação do Partido Trabalhista Brasileiro, principal correia de transmissão do varguismo no movimento sindical.
            Nos primeiros anos, seguintes à revolução de 30, o movimento operário conheceu um novo pico de mobilização, cujo ponto culminante foi a grande greve geral de São Paulo de 1932, que durou 30 dias. A destruição desse movimento e dos sindicatos independentes contou com a colaboração da política do PCB, que combinava conciliação com aventureirismo. Nesse sentido, foi decisiva a derrota de 1935, ou seja, a aventura que passou para a história  como a “Intentona Comunista”. Esta se caracterizou por uma quartelada em Natal, Recife e Rio de Janeiro, realizada sem a participação e conhecimento da classe trabalhadora e nem mesmo dos próprios militantes do PCB.  Essa aventura irresponsável deu margem e pretexto ao governo Vargas para continuar e aprofundar qualitativamente uma violenta repressão sobre o conjunto do proletariado, prendendo, matando, torturando e exilando dezenas de milhares de sindicalistas e militantes. Esse foi o toque de finados dos sindicatos independentes.
            Essa brutal repressão representou uma contundente derrota dos assalariados, que veio a tornar efetivas as legislações trabalhistas de Vargas, baseadas na legislação fascista italiana, subordinando os sindicatos ao Estado, coisa que até então não lograva êxito entre estes. A criação do Imposto Sindical, pelo decreto-lei 2377, de 08.07.40, por sua vez, deu sustentação material aos sindicatos corporativos e assistencialistas, alimentando o carreirismo da burocracia sindical.
            O proletariado brasileiro voltou novamente à cena em diversos momentos: nos anos 46/47, 53, 57, 63/64. Nessas oportunidades colocou em cheque a estrutura sindical corporativa. Mas jamais a derrotou completamente, em razão do obstáculo das suas direções. Nesses anos foi criado o Pacto de Unidade e Ação, espécie de central sindical que mais tarde deu origem à CGT, no Governo Jango. O golpe militar de 1964 impôs novo e profundo golpe ao movimento sindical. Este se recompôs no fim dos anos 70, com as greves metalúrgicas do ABC, dos bancários e outras categorias. Um novo sindicalismo se consolidou com a criação da CUT em 1983. Mas este, infelizmente, com o tempo, transformou-se na imagem e semelhança do antigo.

            Faz parte da propaganda ideológica da burguesia a idéia de que os direitos que desfrutam os trabalhadores formam concedidos pela bondade do Estado. Principalmente, atribuiu-se isso ao Estado varguista. Mas isso não é verdade. O proletariado brasileiro do início do século XX, durante três décadas, protagonizou inumeráveis greves, onde essas reivindicações estiveram alternadamente na ordem do dia. Muitas delas foram conquistadas por determinadas categorias  profissionais nesse período. Mais tarde o Estado regulamentou e estendeu essas conquistas. Em grande medida o fez antes de 1930. A Lei 3724 de fevereiro de 1919 trata de acidentes de trabalho;  a Lei Elói Chaves de 1923 concede aposentadoria aos ferroviários; a Lei de Férias consta do Dec. 17496 de 30.l0.26; o Código de Menores é objeto do Dec. 5083 de 01.12.26.
            Durante o governo Vargas consolidaram-se, efetivamente, as mais importantes conquistas dos trabalhadores brasileiros: salário mínimo, férias, descanso semanal, jornada de 8 horas, aposentadoria, proteção ao trabalho das mulheres e dos menores, etc. Mas não foram benesses. Em grande parte, refletiam e ampliavam legislações já existentes. Em todos os casos, respondiam às  lutas em curso ou passadas. Particularmente, o início dos anos 30 testemunhou inúmeras lutas. Vargas “concedia” aquilo que não poderia evitar que os trabalhadores conquistassem ou que já haviam conquistado. Mesmo porque, sendo a luta de classes internacional, o próprio Tratado de Versalhes de 1919 previa a concessão de certos direitos como forma de melhor disciplinar a concorrência intercapitalista. Getúlio Vargas precisava frear as lutas operárias do início do seu governo e, ao mesmo tempo, conquistar  apoio à sua política de criação das bases do parque industrial nacional, que se convencionou chamar de “substituição de importações”, aproveitando a crise imperialista. Para isso era necessário domesticar o movimento sindical, destruir a sua independência, o que logrou conseguir em 35, não sem a colaboração do Partido Comunista, como já vimos.
As conquistas dos trabalhadores foram apresentadas como concessões, tendo como contrapartida a completa submissão dos sindicatos. A essa dupla finalidade serviram as suas diversas legislações sindicais e trabalhistas: os decretos de 1931, 1934 e 1939; as Constituições de 1934 e 1937, a lei do salário mínimo de 1936. Todas elas confluíram para a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) de 1943.

A CUT e a burocratização dos sindicatos.

            A época da ditadura militar foi também de derrota dos trabalhadores, sendo os sindicatos comandados pelo velho peleguismo. O movimento ressurgiu no fim dos anos 70 a partir das greves do ABC e durou mais de uma década. Estas lutas, protagonizadas por setores chave do proletariado, como os operários metalúrgicos do ABC, propiciou o surgimento de importantes ferramentas de luta, como sindicatos de base e a própria CUT. Mas esta, em seu gérmen, já possuía elementos oportunistas. Na medida em que conseguia contornar e canalizar a luta dos trabalhadores para adaptá-las à institucionalidade, a direção pelega da CUT foi derrotando a luta da base.
Neste período, a maior parte da chamada esquerda marxista aderiu a unidades oportunistas com o grosso da burocracia, que se organizou sindicalmente com o nome de “articulação sindical” e politicamente, dentro do PT, como “Articulação dos 113”.  Nas convenções do PT, na sua maioria, apoiavam as chapas da Articulação contra as eventuais chapas de esquerda. Nos sindicatos, faziam da Articulação sua principal aliada. Estes grupos, como os lambertistas, por exemplo, justificavam sua capitulação com o argumento de dialogar e disputar a base de massas da Articulação.
            Hoje a CUT mostra as suas garras de fiel serviçal da burguesia, da mesma forma que antigos pelegos da ditadura. Os sindicatos, sob sua direção, foram burocratizados, sob o disfarce dos chamados “sindicatos orgânicos” ou “sindicatos cidadãos”.  Nos sindicatos que dirigem, atualmente, não existe mais democracia sindical: as assembléias passaram a ser manipuladas, foram eliminados os comandos de negociação de base. A organização e participação de base, nominalmente existente, nalguns casos, tornaram-se uma farsa. Não apostam na mobilização das categorias, as assembléias são sistematicamente esvaziadas. Como agência do governo Lula, sabota, principalmente, as greves do funcionalismo público e das estatais federais. Quando são forçados a chamar uma greve a transformam numa espécie de provocação aos trabalhadores, porque não mobilizam as categorias. Com isso, atingem dois objetivos da sua conveniência: primeiro, derrotar a greve e desmoralizar a categoria e a sua vanguarda; segundo, promoverem-se como seus legítimos e combativos representantes.  Esse é um dos seus métodos preferidos para perpetuar-se nos sindicatos. Uma categoria desmobilizada e uma oposição enfraquecida não têm condições de questionar a burocracia dirigente. As eleições sindicais, sob sua direção, são, via de regra, fraudulentas.
            No plano político mais geral, a CUT transformou-se num dos principais apoios da política de ataque aos trabalhadores. Apoiou a primeira reforma da previdência do governo Lula. E hoje ajuda a patrocinar as novas reformas: o supersimples, o PAC, a Super-receita, a nova reforma da previdência, a reforma sindical, trabalhista e universitária. Esse novo programa de miséria e extorsão seria impossível sem o seu apoio e das demais centrais de trabalhadores pró-burguesas, bem como,  de todos os partidos patronais, incluídos o PT e o PC do B.

O papel da Conlutas.

            A Conlutas surge como uma necessidade de organização independente dos trabalhadores, diante da burocratização da CUT. Representa um setor minoritário do sindicalismo, mas conta, no seu interior, com o melhor da vanguarda brasileira. A proposta da Conlutas não abarca apenas o movimento sindical, mas pretende organizar todos os setores populares: os trabalhadores, os estudantes, a luta pela moradia, os camponeses. De qualquer forma, o movimento sindical representa a sua grande maioria.
            O rompimento com a CUT deve-se não só ao seu papel de agente do Estado burguês, mas também à completa ausência de democracia interna. O determinante, entre estes aspectos, como sempre, é o conteúdo. A CUT deixou de ser uma Frente Única, ainda que com organizações operárias pelegas e de programa burguês. E passou a ser diretamente uma secretaria do governo burguês. Mas este conteúdo vem sozinho, nem está dissociado da forma correspondente que assume.
Os seus congressos são os reflexos da casta burocrática. Não existe verdadeira participação de base para a tirada de delegados. As minorias de oposição que conseguissem se eleger seriam amordaçadas pelo regimento autoritário. A necessidade imperiosa de implementação da política governamental é incompatível com qualquer resquício democrático. A política de rompimento dos sindicatos com a CUT se justifica pela necessidade da construção de uma política independente e para não continuar fortalecendo o seu aparelho burocrático sem nenhuma contrapartida.
            Sem desconsiderar o seu papel progressivo, cumprido na fundação da entidade, e no enfrentamento à CUT e aos setores que vacilavam e não se definiam politicamente, como a Intersindical, a política do setor majoritário da Conlutas tem muitos problemas. Do ponto de visto organizativo, ela é uma organização de superestrutura. Quase não existe organização de base nos seus  fóruns. As reuniões das coordenações regional e nacional são abertas, e isso é positivo. E nisso resume-se a participação da base. Também não existem, no geral, organismos de base nos sindicatos que dirige, que também não são organizados pela base.
            As oposições sindicais não são organismos abertos a todas as correntes e independentes, com reuniões regulares e intervenção nas categorias. Quando existem, são organismos circunstanciais e, principalmente, voltados às eleições sindicais.
            A política geral da direção da Conlutas praticamente não toca na luta contra o regime como um todo e contra o governo Lula. Muito menos levanta nas mobilizações a necessidade da luta contra o capitalismo e as palavras de ordem correspondentes. Assumiu como eixo a luta contra as reformas liberais. Mas tem levado essa luta de forma contraditória e inconseqüente. Em primeiro lugar, porque desvincula essa luta da luta diretamente contra o governo. Em segundo lugar, porque a tem levado em aliança com os setores governistas reunidos na Coordenação dos Movimentos Sociais, que reúne a CUT, o MST e a UNE.  Dessa frente também participam as demais centrais pelegas e a Intersindical.
            Essa unidade não seria um erro, considerada genericamente. Ou seja, desde que a unidade se realizasse em torno de uma luta efetiva contra as reformas, sendo considerados os seus métodos e os seus objetivos. Ainda assim, isto não seria o suficiente, pois seria uma obrigação também nos enfrentarmos com os setores com os quais estivéssemos em unidade.
            Esse movimento unitário concretizou-se, principalmente, nas jornadas de 23 de abril e de 23 de maio. No primeiro caso, o eixo assumido pelo movimento, inclusive a Conlutas, foi a luta contra a Emenda 3. Essa emenda é apenas uma parte do projeto da Super-receita. O veto à Emenda 3, foi um ato demagógico de Lula. Portanto, o movimento de apoio ao veto de Lula ou apoio acrítico às mobilizações que apoiaram a medida de Lula, obviamente, acabou servindo para alimentar as ilusões no governo. Isso porque esta postura atua na lógica da “medida progressiva” dos governos de Frente Popular, pretensas medidas de esquerda no meio de um governo de direita, o que obviamente é falso.
            Para os atos de 23 de maio, a Conlutas assinou um manifesto conjunto com todas essas centrais pelegas. Esse documento é um verdadeiro programa político cujo eixo é: “por uma nova política econômica”. Um eixo desenvolvimentista burguês. Isso representou uma capitulação programática da direção da Conlutas ao governismo, porque não se pode assinar programa político comum com setores do governo. E muito menos se tratando de um programa com eixo desenvolvimentista. É verdade que a CUT, descumpriu até mesmo esse acordo, porque nem a isso se dispunha, por medo das mobilizações, voltando à bandeira contra a Emenda 3 e aos atos próprios. No entanto, esse fato não diminui a capitulação da Conlutas. Não por acaso, esta voltou a reivindicar o manifesto conjunto de 23 de maio como plataforma para as mobilizações do segundo semestre, até a marcha à Brasília.
            A nosso ver, a falta de organização e participação de base da Conlutas restringe a sua democracia interna. Esse fato, por sua vez, tem relação com a política de capitulação mencionada. Uma organização de cúpula adecua-se a uma política conciliadora. Por isso, defendemos as seguintes propostas para a Conlutas: - a sua organização em núcleos por categoria profissional, por bairro, vila, em oposições sindicais, (com funcionamento regular, abertas a todas as correntes e independentes, de intervenção nas lutas gerais e sindicais); uma campanha de agitação em nível nacional, em torno de palavras de ordem populares contra os ataques governamentais e pelas reivindicações dos trabalhadores; a vinculação dessas palavras de ordem com a denúncia do governo Lula, como o principal agente da burguesia, e denúncia do próprio capitalismo, como responsável pela miséria social, preparando a sua derrubada através de palavras de ordem de expropriação da burguesia, de controle operário e da luta antiimperialista em todos os seus aspectos; fazer a propaganda do poder proletário, da democracia direta, dos conselhos populares; trabalhar sempre pela unificação de todas as lutas, campanhas salariais e dos organismos populares de base.  Essa política é oposta a atual política de conciliação levada a cabo atualmente pela sua direção, bem como, o método proposto de privilegiar a luta direta também se opõe ao método preferido da direção representado pelas marchas à Brasília para pressionar o parlamento e exigir do governo Lula uma nova política econômica.
           

O caráter dos sindicatos.

            Os sindicatos surgiram como organismos para a defesa dos interesses imediatos dos trabalhadores: para a defesa dos salários e por melhores condições de trabalho. Isso significa defender a valorização do salário pago pelo patrão pela força de trabalho, ou seja, a sobrevivência do trabalhador e sua família. O capitalismo tende a rebaixar o salário ao mínimo socialmente necessário à sua sobrevivência. E, muitas vezes, a rebaixá-los a níveis abaixo desse mínimo.
            Portanto, os sindicatos surgem da luta de classes elementar, da concentração dos trabalhadores nas fábricas e escritórios, da identidade dos seus interesses, opostos aos dos patrões. Para isso, precisam vencer a concorrência natural entre eles que lhes impõe o capitalismo. Principalmente a concorrência fruto do desemprego. Em geral, são organizações compostas pela maioria dos trabalhadores somente em alguns momentos, e que têm uma grande influência da aristocracia operária. Surgiram na fase de desenvolvimento do capitalismo, quando este representava um progresso social em função do crescimento das forças produtivas. Mas, a partir do início do século XX, o capitalismo entrou na sua fase de decadência, sua fase monopolista, de domínio e supremacia dos monopólios e cartéis. A livre concorrência não foi extinta, mas severamente abalada. Os preços dos produtos essenciais foram cartelizados. Os monopólios privados entraram em frontal contradição com as necessidades da sociedade.
            Os sindicatos, nessa situação, não mais enfrentam proprietários isolados, mas o conjunto monolítico da burguesia nacional e internacional e seu Estado. Não existe mais a possibilidade de conquistas parciais de forma duradoura, como acontecia nos primórdios do capitalismo. Assim, os sindicatos estão submetidos a uma terrível pressão estatal e patronal. Essa pressão se traduz, entre outras formas, no cooptação das direções sindicais através de benesses estatais. Os sindicatos são constrangidos a transformarem-se em agências estatais. Essa caracterização consta de um dos últimos escritos de Trotsky “Os sindicatos na época da decadência imperialista”, nos seguintes termos: “Há uma característica comum no desenvolvimento ou, para sermos mais exatos, na degeneração das modernas organizações sindicais de todo o mundo: sua aproximação e sua vinculação cada vez mais estreita com o poder estatal”. “Os sindicatos dos ramos mais importantes da indústria, nessas condições, vêem-se privados da possibilidade de aproveitar a concorrência entre as diversas empresas. Devem enfrentar um adversário capitalista centralizado, intimamente ligado ao poder estatal”.
            Essa nova realidade não significa que os sindicatos tornaram-se definitivamente inviáveis. Significa que os sindicatos reformistas, estes sim, não são mais viáveis como organismos reivindicatórios. O capitalismo tornou-se para sempre retrógrado e anti-social. Não pode mais ser reformado. As lutas por salário e melhores condições de trabalho não perderam atualidade. Mas essas lutas não podem mais serem levadas desvinculadas da  luta pelo fim do capitalismo. Todos os movimentos reformistas, sem exceção, são induzidos a trair os seus objetivos e a transformarem-se em defensores dos interesses do capital. Nos dias de hoje, isso se traduz no abandono da luta por melhores condições de vida e, conseqüentemente, essas direções reformistas  passam a defender o oposto das reformas, a retirada dos direitos adquiridos. Mas essa traição não se dá de forma explícita. Mas de maneira velada e traiçoeira. Os atuais pelegos sindicais assumem as lutas das suas categorias, apenas para melhor trai-las.
            Opomos-nos decididamente às correntes que, desse caráter autoritário dos sindicatos atuais, concluem pela não participação nos sindicatos. Ou restringem essa participação aos organismos de base, tais como as assembléias e se negam, por exemplo, a disputar a direção sindical. Em oposição a isso, entendemos que não é possível escolher as condições da luta de classes. Da mesma forma que se deve lutar contra uma ditadura, por exemplo, usando para isso  de todos os métodos disponíveis, inclusive, a clandestinidade, deve-se enfrentar a burocracia sindical em todos os terrenos. É verdade que, muitas vezes, se torna impossível desbancar uma burocracia incrustada no sindicato através dos métodos normais da democracia sindical. Nesses casos, os métodos preferenciais de luta contra ela deslocam-se para aqueles de conteúdo insurrecional, não se descartando, inclusive, a luta armada.
            Podemos dizer que apenas um sindicato revolucionário é viável e pode colocar-se realmente a serviço dos trabalhadores. Esse sindicato deve lutar por salários e, ao mesmo tempo, pelo fim do capitalismo. Os velhos sindicatos corporativos, reformistas, devem dar lugar a sindicatos com conteúdo revolucionário, dirigidos não somente às lutas econômicas, mas também às políticas, através de uma direção revolucionária. Ainda segundo Trotsky: “A primeira palavra de ordem dessa luta é: independência total e incondicional dos sindicatos em relação ao Estado capitalista”. “Isso significa lutar para transformar os sindicatos em organismos das grandes massas exploradas e não da aristocracia operária”.  “Em outras palavras, os sindicatos atualmente não podem ser simplesmente os órgãos da democracia como na época do capitalismo concorrencial e já não podem ser politicamente neutros, ou seja, limitar-se a servir às necessidades cotidianas da classe operária. Já não podem ignorar a influência decisiva do estado na vida dos povos e das classes. Já não podem ser reformistas, porque as condições objetivas não dão espaço a nenhuma reforma séria e duradoura. Os sindicatos de nosso tempo podem ou servir como ferramentas secundárias do capitalismo imperialista para subordinar e disciplinar os operários e para impedir a revolução ou, ao contrário, transformar-se nas ferramentas do movimento revolucionário do proletariado. A neutralidade dos sindicatos é total e irreversivelmente coisa do passado. Desapareceu com a livre concorrência burguesa”.