As drogas e as celebridades
O mundo do entretenimento, do esporte e dos "famosos" em geral volta e meia se confunde e mistura com o dos escândalos, não raramente envolvendo uso de drogas. Figuras da música como Janis Joplin, Jimmy Hendrix, Kurt Kobain e brasileiras como Cássia Eller e Elis Regina; ou da TV e cinema, como Chico Anysio considerado maior humorista da rede globo, galas de novelas como Marcelo Antony e Fabio Assunção e o mais novo caso, em que morreu o ator Heath Ledger, de O Segredo de Brookeback Mountain.
A morte destas celebridades é apenas o lado mais visível de uma realidade chocante, em que milhões de trabalhadores consomem drogas e entorpecentes ao redor do mundo. As drogas ilegais movimentam um dos negócios mais lucrativos de hoje em dia, responsável também pela alienação e controle social sobre uma grande parte da população, em especial da juventude.
Casagrande, Jardel e Maradona: a cocaína, a imprensa e o futebol
Recentemente foi divulgado que o ex-jogador do Corinthians e da seleção brasileira, Carlos Casagrande, hoje comentarista da TV Globo, estava internado em função da dependência de cocaína. A Globo tentou esconder o assunto e divulgou notas falsas, mentindo sobre o que estava se passando.
Nós entendemos que a vida particular de uma pessoa não pode ser objeto de exposição, mas chama a atenção o cuidado que a imprensa teve ao tratar do caso. Essa atitude poderia ser interpretada como uma boa notícia, de que se passou a pensar nos familiares dos dependentes de drogas, e na própria pessoa, já deprimida por sua condição e que não precisaria passar pelo tormento de ter sua vida devassada por repórteres querendo ganhar dinheiro com sua desgraça.
No entanto, o que levou a mídia até a ultrapassar a discrição, chegando a mentir, não foi a "ética" que devia possuir, mas o fato de Casagrande ser pago pela Globo. Do outro lado da história, está o também ex-jogador de futebol e eleito melhor do mundo em votação popular da FIFA, Diego Maradona. Ele é outro caso de um ex-atleta que teve a vida destruída pelas drogas, em seu caso de maneira ainda mais avassaladora.
Maradona perdeu a família, os amigos e quase todo seu dinheiro. Esteve à beira da morte muitas vezes, foi internado à força, e até hoje luta para se recuperar. A imprensa nunca quis saber de suas dificuldades, de seu drama e do sofrimento por que passou. Muito disso foi por ser argentino (e rivalizar com Pelé), e o resultado é que a mídia fez de seu vício uma chacota e piadas constantes. Por que não fazem isso com Casagrande?
A resposta é que a imprensa faz parte da sociedade preconceituosa, xenófoba e moralista que sustenta o capitalismo. De um lado condena as drogas, como um mau terrível. De outro, humilha quem é vítima desta mesma doença social. A imprensa, na sua maioria, não tem moral, ética ou escrúpulos. Muda sua posição para vender jornal ou atrair telespectadores. Em nenhum momento se preocupa em fazer uma discussão séria, onde se possa defender a legalização das drogas, sem que se considere isso um crime de opinião; tampouco ajuda a fazer com que se amparem os dependentes, assim como desestimular o consumo.
Outro aspecto muito importante para levarmos em questão, é a relação das drogas com os esportes. Assim como Casagrande e Maradona, outro grande jogador, ex-Grêmio e seleção do Brasil, também se disse viciado em cocaína. Jardel, que estaria se livrando das drogas, é o último de uma série de atletas que se tornam dependentes químicos.
Quando as celebridades envolvidas com drogas são esportistas, a situação é ainda mais dramática, pois as drogas, além de danos cognitivos, à memória, ao raciocínio lógico, e outros efeitos psicológicos e cerebrais, é devastadora com a capacidade atlética. Um esportista dependente de drogas é um desempregado, praticamente.
O aumento de casos assim demonstra o quanto a sociedade, no capitalismo, é doente. Mesmo pessoas famosas, aparentemente despreocupadas e bem sucedidas, sofrem uma pressão às vezes insuportável, para aparentar felicidade, comportar-se segundo os padrões esperados, manter seu desempenho, etc. No capitalismo não se pode falhar. O ser humano, ainda mais se for uma pessoa pública, é cobrado e angustiado para se portar, não como alguém com problemas, mas como uma "marca" que esbanje confiança, atitude e que possa vender todos os produtos que anuncia.
Por isso, não há realização plena no esporte, nem como eliminar casos tristes de ídolos abandonando suas profissões, sem acabar com a lógica capitalista e mercadológica que move o esporte. Sem isso, só aumentarão casos de doping, compra de resultados, violência nas competições e desfechos prematuros de carreiras brilhantes.
O capitalismo entorpece e aliena os trabalhadores
Quem controla o comércio das drogas ilícitas, não é nenhum "Estado paralelo", ou um ramo marginal da economia, clandestino e à margem da sociedade. Os grandes financiadores do tráfico são empresários que também atuam em outros setores, são homens "respeitáveis", políticos e juízes. O traficante armado, muitas vezes foragido, é o braço final de um esquema que é comandado pelas polícias, grandes empresários e banqueiros. O dinheiro do tráfico é "lavado" e usado como moeda em bancos e lojas legais. Quer dizer, as drogas postas na ilegalidade são um excelente negócio, que não paga imposto, não é fiscalizado, e que gera violência e destruição.
Os revolucionários são a favor da legalização das drogas, como forma de destruir este negócio privado e o ciclo de violência, mortes e prisões que ele desencadeia. Defendemos o tratamento público e gratuito aos dependentes de drogas, a libertação e suspensão de penas de usuários, aviõezinhos e demais apenados em função das drogas, na maioria negros e pobres que nunca tiveram uma chance de emprego.
Por outro lado, denunciamos a política consciente do próprio Estado, e da classe dominante (a burguesia), que na verdade glamourizam e estimulam o consumo de drogas. As drogas como crack e cocaína, principalmente, mas também a própria maconha, são uma arma de alienação contra os trabalhadores. Sob o efeito de drogas, o trabalhador fica "anestesiado" de sua vida explorada e limitada. Tem sua percepção do mundo alterada e distorcida, de modo a aceitar ou "se esquecer" de seus problemas, ao invés de lutar e enfrentá-los.
No capitalismo, a vida miserável que a maioria das pessoas leva, junto de uma sociedade reprimida sexualmente, sem acesso ao lazer e aos esportes; sem perspectiva nem futuro, fazem com que os trabalhadores fiquem à mercê de subterfúgios que o façam suportar sua existência. Na ausência da felicidade real, que o capitalismo impede, a droga aparece como a "felicidade" em mercadoria.
Para os revolucionários, ao mesmo tempo em que é preciso acabar com a hipocrisia social, legalizar e estatizar todo o processo de fabricação das drogas, é preciso defender a redução e a libertação da humanidade da dependência destes entorpecentes.
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