Publicada em 26/03/2008


PV com PSDB + PV com PSOL + PSOLcom PSTU = Eleições 2008

O vale tudo para conseguir votos:
É possível apresentar um programa dos trabalhadores aliado com a burguesia?

Esse ano irão acontecer as eleições para prefeito e vereadores em todos os municípios brasileiros. Tanto os partidos da Burguesia como dos trabalhadores fazem acordos de todo tipo em busca de tempo na TV e chance de eleger seus candidatos. O programa que será defendido e os temas que são importantes à maioria da população são o que menos interessa a essas organizações, numa disputa em que estão em jogo milhões de reais, milhares de cargos e privilégios.

Tem coligação de todo o tipo: PT com PV e PCdoB, PT e PSDB, PMDB e PT, PV e PSDB e por aí vai. Fica claro que não há nenhum escrúpulo para transformar o inimigo de um local no maior aliado na cidade vizinha. Mas as mais absurdas alianças deste ano são as dos partidos que, em princípio, são de esquerda e contra o governo Lula.

PSOL e PV: uma aliança que não é por acaso.

O deputado federal Fernando Gabeira (PV-RJ) oficializou, em 11 de março, sua pré-candidatura a prefeito do Rio de Janeiro na chamada "Frente Carioca" - formada por PV, PSDB e PPS. Gabeira é o mesmo que foi tropa de choque na defesa de FHC (PSDB) e de sua reeleição. Também é o mesmo que se arrepende de ter "defendido" o socialismo e vota a favor dos ataques aos trabalhadores. Em entrevista, ao lado do ex-governador Marcello Alencar (PSDB), Gabeira disse querer desenvolver o Rio "de forma capitalista" e garantiu que pretende ter boa relação com as administrações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do governador Sérgio Cabral Filho (PMDB). Nenhuma novidade quanto a esta personalidade!

O PV também é o mesmo que faz parte do governo Lula e que votou para aumentar a idade de quem se aposenta, bem como das privatizações e medidas que retiram direitos trabalhistas, como as contidas no Super Simples. Este último projeto, aliás, também foi aprovado pelo PSOL, através da então senadora Heloísa Helena e do então deputado Babá. Mais uma vez: nada de surpreendente, portanto, na coligação com o que tem de pior na política brasileira, expressa pelo PV. 

Mas, então, surge a pergunta: o que tem a ver o PV, que é um partido que defende os empresários, de direita, com as coligações dos partidos de esquerda? Em 1º lugar, é preciso ter o cuidado de que, apesar de sua prática, muitas pessoas têm a ilusão de que o PV também é de esquerda, por supostamente defender o meio ambiente. Isso é uma farsa, que é revelada pela simples análise de que apóiam o governo Lula, que privatiza terras na Amazônia, libera os transgênicos sob controle das multinacionais e quer destruir o São Francisco. Por essa ilusão, partidos de "esquerda", ansiosos por aliados a qualquer custo, costumam ter, no PV, a oportunidade ideal.

Vemos a unidade do PV e do PSOL, por exemplo, em muitas campanhas por "ética", por instalação de CPIs e, por outro lado, votando contra a classe trabalhadora, como demonstrou o caso do Super Simples, ou quando foram a favor da mamata de os congressistas não trabalharem nas 2as-feiras. Nestes casos, a esquerda esteve unida, realmente. Unida com o DEM (ex-PFL) e o PT.

E essa unidade da "esquerda" que nunca defende alguma solução verdadeira para os trabalhadores, de ruptura com a exploração atual, só deve aumentar: Em Porto Alegre (RS), a Conferência Municipal PSOL aprovou a coligação com o PV. A proposta foi elaborada e defendida pela direção do PSOL, e nela o PV terá o direito de apresentar o candidato a vice-prefeito na chapa com Luciana Genro (deputada federal do PSOL), candidata a prefeita.

O PSOL é um partido pequeno-burguês, do ponto de vista social, o que significa, na prática, que sua composição dirigente é expressa em intelectuais, setores da classe média e estudantes. Sua estrutura é totalmente submissa às vontades e decisões de seus parlamentares que, mesmo cada vez em menor número, são quem mandam no partido. O PSOL é um partido de caciques, onde quem tem voto, mesmo que não tenha mandato, como Heloísa Helena, decide o que bem entender. Do ponto de vista programático, é um partido que compõe o atual estado de coisas, sendo, na prática, a favor do capitalismo, em uma versão mais justa e "ética", apenas. Isso ficou claro na eleição a presidente de 2006, quando defenderam os capitalistas bons, os empresários produtivos e assim por diante. Resumindo: o PSOL é o que o PT levou mais de 10 anos para se transformar: um partido eleitoreiro, sem democracia e disposto a alianças com a direita. A diferença é que sequer elegem alguém e não tem base operária nenhuma.

Luciana Genro, além de integrar a direção do PSOL, é o retrato desta mesma postura. Foi eleita deputada federal em 2002 pelo PT, na campanha paga com mensalão do Marcos Valério em todo o país. Sua campanha era baseada no lema "coerência e ética", o que não era nem coerente (pois estava dentro do PT) nem ético (pois iludia os trabalhadores de que sua vida ia melhorar com Lula). Sua campanha era das mais entusiasmadas defensoras de Lula presidente, o que iria servir para "romper com a dívida externa" e demais engodos do tipo. Ao longo de seus mandatos, não votou contra o Super Simples, prestou homenagem aos 50 anos da RBS/Globo, afirmando que "expressava a diversidade de opiniões" e agora cometeu mais um crime contra os trabalhadores.

Diante da iniciativa do governo Lula de dar dinheiro aos empresários, diminuindo a contribuição patronal ao INSS, o que pretende quebrar a previdência social dos trabalhadores, Luciana foi a favor. Alegou que era uma boa medida, desde que se aumentassem os impostos aos especuladores. Mais uma vez, ataca um setor da burguesia (no caso a financeira), não para defender o povo trabalhador, mas para salvar outra parte da própria burguesia (a chamada "produtiva"). Este é o PSOL, e esta é Luciana Genro.

O patrão é sempre patrão. O burguês é sempre burguês e o oportunista é sempre oportunista.

O Partido Verde é um partido que existe em todo Brasil, participa de diversos governos: de prefeituras, governos estaduais e do governo de Lula (PT), através do ministro da cultura Gilberto Gil. Em muitos estados do Brasil, o PV aluga sua legenda para candidatos que defendem a burguesia, vendendo sua "marca" para quem quiser ser candidato. Se há diferenças entre o PV de um lugar e o de outro, é em função do que lhe pagam em um ou outro local.

O PV, na cidade de Porto Alegre, fez parte, da atual administração de José Fogaça (ex-PPS, atual PMDB). Nas últimas eleições, em 2004, o PV foi vice na chapa do PP (sucessor da Arena, o partido da ditadura militar). O mais cogitado para ser o vice de Luciana Genro, Edson Pereira, foi vice-prefeito nesta candidatura, liderada por Jair Soares, ex-governador do Estado e um dos membros da ditadura. Nestas eleições, o PV defendeu o "Estado mínimo", gerenciado como uma empresa. DE lá prá cá o PV ainda é o mesmo e segue defendendo Lula, os empresários e os banqueiros.

O PSTU que, ao contrário do PSOL, é um partido dos trabalhadores, e formado por eles, em sua composição majoritária, quer coligar com o PSOL. Também ao contrário do PSOL, o PSTU é um partido de esquerda que admite que os partidos são nacionais, e que não é possível formar chapa com o PV em Porto Alegre, mesmo que nesta cidade o PV fosse "diferente".

Em sua critica à coligação do PSOL com o PV, o PSTU afirma "O PV é uma sigla nacional, tem política nacional, direção, programa, estatutos, etc.(...)", é preciso concordar com isso. De fato, os partidos políticos são a expressão de um programa e de uma classe. O PV representa a Burguesia e defende os interesses dela, e faz isso em todos os estados brasileiros, com formas diferentes, mas sempre com o mesmo conteúdo.

No entanto, o que o PSTU parece fazer questão de não entender é quer o PSOL também é um partido nacional. Pois o PSOL também possui um programa nacional, uma direção nacional, estatuto, etc...

Da mesma maneira que o PSOL mostra que é um PT em pequena escala quando se dispõe a coligar com qualquer um em nome de seu projeto, o PSTU também mostra que as eleições são sua principal preocupação, desde a ruptura política que teve com seu próprio passado revolucionário, nos últimos 2 anos. O PSTU, inaceitavelmente, critica a coligação com o PV em Porto Alegre, mas mantém a disposição de coligar com o PSOL nas demais cidades.

Qual é a diferença do PSOL, que diz "com a Gabeira não coligamos, mas com o fulano de tal do PV pode" e do PSTU, que diz "com a Luciana Genro não coligamos, mas com os demais candidatos tão oportunistas quanto ela do PSOL pode"? Nenhuma! Isso lembra aquelas decisões dos partidos de direita que liberam seus diretórios para fazer alianças "caso a caso". Não lembra em nada nem a política historicamente revolucionária, nem a crítica do próprio PSTU ao PSOL neste ano.

Infelizmente, a verdade é dura e precisa ser dita: um patrão é sempre um patrão, não importa onde esteja. E um oportunista é sempre um oportunista, não importa que argumentos utilizem para tentar se justificar.

PSTU: aprender com os erros, e não repeti-los!

O PSOL nas eleições de 2006 formou a "Frente de Esquerda" com PSTU e PCB. Essa coligação tinha Heloísa Helena como candidata a Presidente, assim como cabeças de chapa do PSOL também nos estados. O PSOL decidiu sozinho como seriam as candidaturas, o programa e os tempos na TV. Os outros dois partidos serviram de apêndice a suas candidaturas, tudo aceitando e a tudo aderindo.

Durante toda a campanha eleitoral, a Frente, por meio de Heloísa (nos programas eleitorais, entrevistas para a TV e músicas de campanha) defendeu que os trabalhadores não precisariam mais lutar, caso fosse eleita. Falou este absurdo quando perguntada sobre as ocupações de terra, que disse que não aconteceriam mais, em seu governo. Da mesma forma, era contra atacar os latifundiários, caso estes produzissem, ou seja, fossem lucrativos à base da exploração de empregados com salários de fome. Heloísa Helena tentou encarnar a defesa intransigente da lei e das normas vigentes, dizendo que respeitaria cada uma delas. As mesmas leis que encarceram sem-terras e grevistas e deixam livres os senadores corruptos, colegas de Heloísa.

Além disso, a Frente do PSOL/PCB/PSTU foi contra os trabalhadores da Bolívia, ao exigir que Lula fosse mais enérgico na defesa da Petrobrás, com propriedades ocupadas. Entra o "país" defendido pelos empresários donos dele, e o povo pobre, mesmo que estrangeiro, Heloísa escolheu o lado mais forte. A Frente defendeu a multinacional Volkswagen, que tentava demitir 1800 metalúrgicos, enquanto ganhava dinheiro público via BNDES. Heloísa Helena foi a favor de manter a "doação" de recursos mesmo assim. Para coroar, Heloísa foi contra as mulheres e o direito ao aborto, que mutila 150 mil mulheres por ano, com argumentos religiosos, que poderiam até ser usados pela Igreja Católica na campanha da "fraternidade" que faz este ano.

No Rio Grande do Sul, Roberto Robaina, candidato a governador por PSOL/PSTU, defendeu que o estado deveria fazer parcerias e estimular os Burgueses donos de empresas do setor coureiro, calçadista e moveleiro, num programa nacional desenvolvimentista, em aliança com os empresários "progressistas" do RS.

O resultado desta adesão desastrosa a candidaturas que expressavam um programa típico de Frentes Populares (de conteúdo burguês, ainda que respaldada por trabalhadores), foi que o PSTU fez menos votos que nas últimas eleições. Conseguiram reduzir o que já era pouco, não elegeram ninguém e fecharam o ano com menos de 2000 militantes, quando este número já tinha sido de mais de 3000 alguns anos antes. Um erro pode ensinar muita coisa. Mas a direção do PSTU transformou o erro em exemplo: mudou o programa do partido, rejeitou seu passado, mudou seus princípios e teoria, expulsou os divergentes e, com isso abandonou a revolução. Este ano, seus apelos constrangedores a uma aliança com o PSOL, mais uma vez sem estabelecer programa nenhum, nem ao menos o mínimo que o classismo representa, mostram a que ponto chegou o PSTU e que destino lhe reserva, caso não haja uma revolução interna.

Em 2008, o PSTU volta a defender a formação da Frente de Esquerda com o PSOL, com um programa que se mantém nos marcos do de 2006. E faz pior ainda: retrocede de sua definição de não apoiar Heloísa Helena caso o PSOL saísse com a burguesia em algum lugar. Em 2006, esta foi a única "condição" que sobreviveu, parcialmente. Mesmo que setores burgueses, como César mais (PFL-RJ) e Pedro Simon (PMDB-RS) tenham declarado voto nela e que ela tenha feito campanha abertamente para João Fontes (PDT-SE), no papel, as coligações, oficialmente, não existiram. Desta vez, o PSTU vai mais longe, e pode aceitar coligar com a burguesia, por tabela! Por que o PSTU mudou o que dizia em 2006? Se aceitar coligar com o PSOL em um município que seja, ao mesmo tempo em que o PSOL também se coligar com a burguesia, o PSTU terá dado um passo vergonhoso em sua história, que tem tantas lutas.

A direção do PSTU deixa claro o rumo que quer dar ao partido: o oportunismo. Isso é parte da nova política do PSTU, onde se transformou a unidade, muito importante nas lutas, tanto quanto o enfrentamento aos reformistas, em princípio. Pior que isso: abandonou o básico da política revolucionária, ao rebaixar o programa e abrir mão das exigências e denúncias, combinadas. Com as coligações com o PSOL, esse partido dilui seu programa num todo nacional desenvolvimentista, alimentando ilusões no sistema e no regime, contribuindo para fortalecer aparatos contra-revolucionários e um programa regressivo, como foi a última Frente de Esquerda, encabeçada por Heloísa Helena.

Se, além de um programa burguês expresso por candidaturas do tipo "Frente Popular", o PSTU, aceitar coligar com a burguesia, por tabela, este partido deixará a classe trabalhadora sem opção eleitoral. Significará que os trabalhadores não terão nenhuma candidatura que defenda seus interesses, mesmo que limitados.

É por isso que o Movimento Revolucionário faz um chamado a todos que lutam, que defendem a classe trabalhadora e o socialismo, para que construam uma Frente de fato classista. Mesmo sem que isso não se expresse numa candidatura revolucionária, que deveria ser a saída dos trabalhadores, e é o que defende o Movimento Revolucionário, os trabalhadores precisam ter, no mínimo, uma candidatura dentro da composição e dos interesses gerais de sua classe. Um programa que expressasse estes interesses passa, pelo menos, pelo não pagamento da dívida externa e interna; a ruptura com o imperialismo; a reforma urbana e agrária radicais, controladas pelos trabalhadores; a reestatização das empresas privatizadas; estatização do sistema financeiro; a luta contra a super-exploração e opressão a mulheres, negros e homossexuais; o direito ao aborto; e o posicionamento contra a democracia dos ricos. 

De qualquer forma, com ou sem uma candidatura nestes marcos, o Movimento Revolucionário chama, principalmente, a que a classe trabalhadora lute! Só a luta pode mudar a vida e o mundo em que vivemos. Uma luta com independência de classe, de massas, e pela defesa da revolução socialista!

 

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