O que defendem as FARC-EP?
As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia - Exército Popular (FARC-EP) libertaram 2 seqüestradas que mantinham em seu poder há cerca de 5anos, a ex-deputada Consuelo Gonzáles e a ex-candidata a vice-presidente Clara Rojas, integrante da chapa de Ingrid Betancourt, a refém mais famosa. Ao mesmo tempo em que libertaram estas 2 reféns, a FARC ainda mantém 750 presos em seu poder e recém seqüestrou outros 6 turistas. Diante destes movimentos, aparentemente contraditórios, fica a pergunta: afinal, o que são as FARC?
De um lado, o imperialismo americano, a Globo e a direita toda chamam as FARC de terroristas; de outro, o chavismo e a "esquerda" que apóiam a guerrilha mesmo nas suas piores degenerações.
Os revolucionários denunciam, antes de qualquer coisa, o governo americano e o governo capacho do imperialismo que existe na Colômbia, através de Álvaro Uribe. Bush, através do Plano Colômbia, extermina plantações de alimentos inteiras e gera miséria e destruição ambiental na Colômbia com a justificativa de combater a guerrilha e o narcotráfico. Enquanto usam este discurso demagógico, os EUA e Uribe são os financiadores do verdadeiro narcotráfico da Colômbia e dos grupos de extermínio fascistas da chamada AUC (autodefesas Unidas da Colômbia).
A AUC promove assassinatos em massa nas vilas camponesas em que chega, e instala um clima de terror nas regiões que controla, defendendo o tráfico e assassinando trabalhadores. O tráfico não é seu objetivo final. Este é um dos meios de se financiar e aplicar seu verdadeiro propósito: ser o braço armado, paramilitar, de Uribe e Bush, para impedir que os trabalhadores lutem por seus direitos. Recentemente, foi divulgada a relação que existe entre Uribe e membros de sua família com as AUC, bem como de integrantes de seu governo que já atuaram com as AUC.
Estes são os terroristas na Colômbia: Bush, Uribe e as AUC. São eles que provocam a guerra civil na Colômbia, são eles que mantêm centenas de prisioneiros políticos e matam milhares de colombianos por ano, nas prisões, à bala nas fazendas e de fome nas cidades.
As FARC surgem como expressão distorcida da luta de classes
Diante do capitalismo assassino colombiano, e de seus desvios mais escandalosos, como as fraudes eleitorais e assassinatos políticos, é que continuam existindo as FARC. Esta organização surgiu a partir do assassinato de Jorge Gaitán, em 1948. Após este crime, provavelmente com participação ativa da CIA, operários petroleiros de Barrancabermeja, com o apoio de 92 sindicatos e da população em geral, tomaram o poder, localmente, por 22 dias. Em outras cidades ocorreram levantes semelhantes e em Bogotá quase se assumiu o poder, o que não ocorreu pela falta de uma direção revolucionária.
O partido Liberal de Gaitán foi convidado pelo Conservador para assumir parte do governo e aceitou, desmontando as manifestações. Com isso, abriu-se o caminho para uma perseguição ainda maior contra aqueles que lutavam contra o governo assassino de Mariano Pérez e companhia. É contra esta opção semi-fascista da burguesia colombiana, para tentar destruir a luta operária na Colômbia, que surgem mais e mais lutas, protestos e, por fim, as guerrilhas.
As guerrilhas surgem como dissidências do próprio partido Liberal e vão carregar consigo os limites de uma luta política contra os "efeitos nocivos" do capitalismo, seus "desvios", e não contra o capitalismo como um todo, enquanto um modo de produção inevitavelmente explorador. Assim, a guerrilha surge de um fenômeno altamente progressivo, mas canalizando este sentimento anti governo e antiimperialista para uma saída radical no método (a luta armada), mas moderada e oportunista no conteúdo (apenas reformar o capitalismo).
Esta é a luta das FARC durante décadas: defender um capitalismo "ético", "mais igual", com "eleições limpas", "democracia", etc. Suas frases radicais contra a exploração, suas bandeiras contra o latifúndio, foram muito importantes, mas sempre estiveram a serviço de um "capitalismo democrático" na Colômbia. Quando dizia defender o socialismo, era este tipo de "socialismo capitalista" que defendiam.
O auge desta política de quem está louco para poder fazer parte do regime político, foi em 1985, quando as FARC fundam a União Patriótica (UP), que concluía o processo de cooptação e conciliação de classes iniciado mais fortemente no ano anterior através de um acordo bilateral com o governo de Belisário Betancour.
Assim, em 1985, as FARC impulsionam uma Frente Popular, onde cabiam setores dos próprios partidos Liberal e Conservador, além de "democratas", "progressistas", etc. A UP elege mais de 350 vereadores, 23 deputados, 9 membros da Câmara e 6 senadores. Ou seja, essa frente, ao contrário de outras, como a Frente Popular oportunista do PSOL e PSTU em 2006, foi um sucesso eleitoral!
Mas, pelo simples fato de ser uma Frente Popular (composta por organizações operárias, mas com um programa nos marcos do capitalismo e pró burguês), a FP das FARC foi uma traição histórica e uma rendição ao regime democrático-burguês. Resultado: as FARC abriram mão de mobilizar para tentar tomar o poder para se contentar com as migalhas do capitalismo. Isso durou bem pouco, até que as migalhas foram tomadas, e mais de 4 mil militantes do Partido Comunista e da UP, além de milhares de sindicalistas e líderes populares foram assassinados.
As FARC, então, se obrigaram a voltar a se comportar como uma guerrilha. Não porque quisessem, nem porque acreditassem em tomar o poder, mas porque não tiveram condições de ser um movimento reformista bem comportado.
As FARC não são socialistas nem uma alternativa para os trabalhadores
Esta mesma opção existiu no final da década de 90. Neste momento, o governo Pastrana, acuado pelo aumento das lutas urbanas e operárias, além do fortalecimento da guerrilha, é obrigado a "conceder" 40% do território colombiano às FARC, numa área desmilitarizada, onde as FARC seriam o poder. 40%!!! Quer dizer, havia um duplo poder na Colômbia de um modo tão flagrante, que o governo burguês se retirava de 40% do território para tentar se preservar nos demais 60%.
As FARC tiveram a oportunidade de chamar uma luta conjunta com os operários urbanos, os setores populares, os estudantes, e levar adiante uma luta pela tomada do poder. Ao invés disso, resolveram aplicar esta "coexistência pacífica" com o Estado burguês, e se adaptar ainda mais a ele, dando um salto em suas relações com o narcotráfico e passando a sobreviver essencialmente desta relação.
Os revolucionários não são contra, por princípio, o método da guerrilha. Em um primeiro momento, poderia ser que esta tática fosse discutida pelos trabalhadores colombianos, como método auxiliar da luta de massas do proletariado. Foi isso que ocorreu em Cuba, anos mais tarde ao surgimento das guerrilhas na Colômbia. A guerrilha de massas no Vietnã era corretíssima contra a ocupação dos EUA, assim como ações de guerrilha hoje no Líbano, na palestina ou no Iraque.
No entanto, mesmo quando correta, a tática da guerrilha só pode obter sucesso se for parte de um fenômeno de massas e corresponder não apenas às necessidades da classe trabalhadora mas a seu grau de consciência naquele momento. As FARC nunca se preocuparam com isso: nunca fizeram um chamado conseqüente a uma luta comum e de massas, com greve geral e a serviço de tomar o poder. Este sempre foi um terrível erro de método e político das FARC.
Não apenas a tática da guerrilha, mas o guerrilheirismo, ou seja, a teoria de luta de classes substituída por uma luta militar; a da educação e revolução das massas pelo vanguardismo isolado delas.
Mas, como em tudo, é o conteúdo o que interessa. E mais grave que qualquer incompreensão do marxismo ou erro de método, é o conteúdo de conciliação de classes das FARC (capitalista, portanto) que faz com que este grupo não seja alternativa para os trabalhadores. Vejam sua política, exatamente quando estavam com 40% do território nas mãos: " As FARC sempre defenderam a paz; (...) a Colômbia inteira deve discutir sobre sua convivência democrática." e " Propomos ao país trabalhar por um NOVO GOVERNO de reconciliação e reconstrução nacional, capaz de nos conduzir à paz. Estamos propondo uma PLATAFORMA PARA UM NOVO GOVERNO DE MAIORIAS, que trabalhe pela convocação de uma nova constituinte, que seja respeitada nas decisões que tome, tenha representatividade de todos os setores da nossa nacionalidade e possa abordar, sem temores, os temas que foram excluídos pelo governo na Constituinte 1991. " (Oitava Conferência – Declaração Política ; as maiúsculas são do próprio original).
Esta eram as FARC: radicais do capitalismo humanitário e do governo de todos os setores!
O que são as FARC hoje? Um grupo com as mesmas idéias reformistas, mas bem mais integrado à burguesia traficante e a setores empresariais. Não é por nada que o outro grupo guerrilheiro da Colômbia, o ELN, depôs armas sem obter quase nada em troca. As FARC estudam o mesmo caminho: depor armas e se adaptar ao regime, sem obter sequer suas "reformas" como condição.
Os revolucionários e as FARC
Os revolucionários não são contra a guerrilha (e sim contra o guerrilherismo), nem contra algum eventual seqüestro de burgueses ou seus capachos. Alguém seria contra seqüestrar o Serra (tão candidato a presidente como Ingrid Betancourt)? Também não condenamos em si o "pedágio" aos traficantes.
Digamos, por exemplo, que não fosse possível combater em 2 frentes com a mesma intensidade (ao exército burguês e aos traficantes; ambos inimigos da classe trabalhadora). Neste caso, poderia estar colocada (não necessariamente) a possibilidade de expropriar os traficantes e o latifúndio para fins de reforma agrária, ir libertando os camponeses das áreas liberadas e controladas pela guerrilha (nunca poderia se abrir mão da independência política e do combate permanente a qualquer setor burguês), mas haver um certo acordo com o tráfico em algo não essencial, como o de não haver seqüestros mútuos entre a guerrilha e o tráfico, ou que não se dinamitassem as estradas usadas por ambos, ou algo assim.
Então, nossas críticas às FARC não são do ponto de vista da moral burguesa. O que é inaceitável, do ponto de vista político, ideológico e moral revolucionário, é a degeneração a que chegou as FARC.
Diante da perseguição de Uribe e Bush às FARC, nos solidarizamos com os guerrilheiros. Denunciamos a criminalização das FARC, que é apenas parte da criminalização que se quer impor ao MST, cocaleiros da Bolívia, etc. No entanto também repudiamos a política traidora da direção das FARC, uma política midiática que quer preparar uma nova tentativa de incorporação eleitoral.
Por fim denunciamos os chavistas, que tentam iludir os trabalhadores com alternativas reformistas radicais, que não mudam a vida da maioria da população, e, mais ainda, denunciamos os reformistas de salão, aqueles burocráticos, que tentam dar "lições" às FARC (o que poderia ser feito, por seus erros), mas dão estas lições pela direita, ao condenar os métodos de luta guerrilheira e não sua política oportunista.
Fazem isso porque defendem o mesmo oportunismo, mas ainda mais institucional e covarde. São os pelegos e reformistas do PSOL e da nova Frente Popular de Esquerda que articulam com o PSTU. Estes setores defenderam os interesses da burguesia nas últimas eleições, através de Heloísa Helena, e ampliaram a defesa de um programa nacional desenvolvimentista por 10 vezes quando pesquisas indicavam 15% para HH (que teve apenas 6%). Imaginem que tipo de capitulação não fariam e com que velocidade não rasgariam os pontos mais mínimos que fossem de seu programa interno (para militante ver) se estivessem com 40% dos votos, ou mais ainda, 40% do território...
São os efeitos da luta de classes: o atraso da luta no Brasil faz com que "nossos" reformistas e "nossa" Frente Popular sejam ainda mais à direita que as similares da Colômbia.
VOLTAR