Fidel Castro renuncia a Presidência de Cuba:
Qual a saída para os trabalhadores cubanos?
Uma Nova Revolução ou o Capitalismo sob o governo de Raúl
Após 49 anos à frente do poder em Cuba, Fidel Castro, aos 81 anos, anunciou na última terça-feira, dia 19 de fevereiro, sua renúncia. Fidel, que não aparece em público desde que foi submetido a uma cirurgia intestinal, em 2006, anunciou em uma carta publicada no jornal Granma que não aceitará cumprir um novo mandato na Presidência de Cuba.
Em trechos de sua carta Fidel diz que "Meu desejo sempre foi cumprir minhas tarefas até o meu último suspiro" e completa "No entanto, seria uma traição à minha consciência assumir uma responsabilidade que exige mobilidade e dedicação que não estou em condições físicas de cumprir".
Ainda em 2006, ano em que Fidel foi operado para tratar de uma “grave doença” segundo informações do governo cubano, quem assumiu temporariamente o poder foi seu irmão Raúl Castro, que deve ser anunciado oficialmente como seu sucessor após a reunião da Assembléia do Poder Popular, o parlamento cubano, no dia 24 de fevereiro.
Um triste papel de Fidel Castro:
De dirigente da Revolução Socialista...
Em 1959 ocorreu a revolução cubana, que resultou na criação de um Estado operário em Cuba. Entre seus dirigentes estavam Che Guevara e os irmãos Fidel e Raul Castro. O processo revolucionário cubano teve entre suas medidas a expropriação de empresas da Burguesia imperialista norte-americana e da burguesia cubana, bem como um duro combate do proletariado cubano contra as ofensivas do imperialismo sobre o seu Estado. Em um período muito curto de tempo a Revolução Cubana se tornou um símbolo do socialismo latino americano e um exemplo para os lutadores latino americanos.
As conquistas do proletariado cubano foram muitas com a Revolução. O primeiro grande avanço foi a melhoria geral das condições de vida da população, com a erradicação da pobreza e o acesso aos serviços públicos com uma qualidade muito superior. Na educação, os índices de analfabetismo chegaram praticamente a zero e a qualidade do ensino atingiu os níveis dos grandes países imperialistas. Na saúde pública, outro grande avanço, chegando ao ponto de a medicina e algumas de suas técnicas se tornarem referencia e exemplo no mundo capitalista.
Mas infelizmente a direção do processo revolucionário cubano não foi capaz de levar uma política conseqüente a frente do Estado operário cubano. Diferentemente dos bolcheviques, os revolucionários russos, que logo nos primeiros anos que seguiram a tomada do poder na Rússia pelo proletariado se lançaram na tarefa de construir um grande Partido Revolucionário Mundial (a Terceira Internacional Comunista), Fidel Castro não assumiu essa política. Embora o Estado Cubano tenha incentivado algumas guerrilhas pela America Latina, nunca assumiu a tarefa de construir um Partido Mundial que preparasse a revolução, assim como fizeram os Bolcheviques Lenin e Trotsky, e por isso Cuba terminou por se isolar em sua ilha, em seu socialismo num só país, cercada pelo sistema inimigo, o Capitalismo.
Esta política não agradava a Che Guevara, que sempre defendeu que Cuba deveria expandir a Revolução socialista para todo o continente e para mundo. Mas com a morte de Che, Fidel Castro se fortaleceu no poder em Cuba e estabeleceu uma política contraria a defendida por Che: A nova política de Cuba, Sob o comando de Fidel, passou a ser a política da “coexistência pacifica” com o imperialismo e de “socialismo em um só país”. Orientação política que veio diretamente da burocracia stalinista de Moscou. Essa política adotada por Fidel foi defendida por ele mesmo quando houve a Revolução Sandinista, na Nicarágua, quando o Dirigente cubano aconselhou os sandinistas a não seguirem o exemplo de Cuba, ou seja, a não expropriarem a Burguesia nem construírem um Estado operário nos moldes do cubano. Em uma frase sintetizou sua posição: “não façam da Nicarágua uma nova Cuba”.
...à Comandante Chefe da restauração Capitalista
Seguindo a doutrina stalinista de “socialismo em um só país” e de “convivência pacifica” com o imperialismo, o socialismo de Cuba acabou por se isolar em sua ilha. E levou Cuba a grande crise política e econômica em meados dos anos 90, quando os Estados socialistas do leste europeu, e sua direção - o stalinismo -, caíram e se restaurou o capitalismo nesses países. Isso porque esses Estados eram os principais parceiros comerciais de Cuba, e com o fim do socialismo o comércio com eles também caiu. Pode-se dizer que a partir daí Fidel e o Partido Comunista de Cuba iniciaram um novo rumo na economia de seu país.
Dentre as primeiras medidas adotadas pelo PCC para essa nova fase em Cuba, podem ser citadas as leis que abriram a economia cubana para o investimento da Burguesia internacional. Com a criação das chamadas “empresas Mistas” para exploração do turismo e demais áreas que fossem de interesse dos empresários, como a saúde e os hidrocarbonetos (petróleo, gás, etc.). Junto com essa nova postura econômica veio o fim do controle do Estado sobre o comércio exterior (o fim do chamado monopólio do comercio exterior), que permitiu que além do Estado, as empresas de capital misto também pudessem negociar livremente suas mercadorias com outras empresas estrangeiras, sem a interferência e controle do Estado.
Vieram ainda as privatizações de empresas públicas estatais, como a produção e a comercialização de cana-de-açúcar, através das “unidades básicas de produção cooperativa”. O dólar se transformou na moeda efetiva de Cuba, coexistindo com duas moedas nacionais: uma “conversível” em dólares e outra “não conversível”. Em 1994, começaram a funcionar os “mercados agropecuários livres”, cujos preços se determinam no mercado e não mais determinados pelo Estado.
Como conseqüência da política do Partido Comunista Cubano, o capitalismo foi restaurado em Cuba, a Burguesia voltou a explorar os trabalhadores cubanos e os problemas típicos do capitalismo retornaram a ilha, como a miséria, desigualdade social e a prostituição. Os únicos que não sofreram com o processo foram Fidel e os membros do Partido Comunista Cubano, que se mantiveram no poder ainda que o país tenha se tornado novamente capitalista.
A Burguesia, o Embargo econômico e a exploração do mercado cubano:
Mais lucro a vista.
A renúncia de Fidel relembrou os investidores que Cuba pode se tornar um grande foco de negócios caso sejam normalizadas as relações com os Estados Unidos. Tanto burguesia que já tem negócio na ilha como o grupo hoteleiro Sol Meliá e a empresa de tabaco Altadis, ambos da Espanha, como as empresas norte-americanas que esperam reivindicar patrimônio confiscado pelo regime comunista depois da revolução de 1959. Mas parte desse “potencial de lucro” só poderá ser usufruído se terminar o embargo econômico imposto pelos EUA a Cuba. Mas a burguesia já vem tendo lucro no mercado cubano há algum tempo, mesmo durante o governo de Fidel.
Um exemplo são as ações da canadense Sherritt International, maior investidor estrangeiro em Cuba, com operações nos setores de níquel, petróleo e gás, que subiram até 6 por cento na terça-feira em que o presidente cubano renunciou, sendo cotadas a 15,57 dólares canadenses.
Outra empresa que já aposta bastante na Cuba pós-embargo, a Herzfeld Caribbean Basin Fund, viu suas ações subirem mais de 20 por cento na terça-feira, quando chegaram a ser cotadas a 9,50 dólares. Segundo Thomas Herzfeld, diretor do Caribbean Basin Fund, que investe em empresas que podem lucrar com a normalização das relações, disse que duas operadoras de cruzeiros marítimos dos EUA, a Royal Caribbean e a Carnival, atualmente proibidas de atracar em Cuba, poderão dobrar suas atividades no Caribe quando terminar o embargo norte-americano.
Mesmo com a provável eleição de Raul Castro, investidores que operam em nichos como turismo, tabaco, açúcar, mineração, infra-estrutura e eletricidade esperam aumentar seus lucros em Cuba com o novo governo. Basta que analisemos dois dos principais produtos da economia cubana para entendermos essa expectativa da Burguesia Internacional: O níquel foi a maior fonte de divisas para Cuba em 2007, rendendo 2,7 bilhões de dólares e superando o turismo, que arrecadou mais de 2,1 bilhões de dólares, segundo cifras citadas em janeiro na TV estatal cubana, um mercado considerável para a Burguesia.
A Burguesia e a transição de poder em Cuba
Logo após o anuncio feito da renúncia de Fidel o mundo inteiro voltou a debater quais as perspectivas sobre o futuro da economia e da política de Cuba. A burguesia imperialista não perdeu tempo em fazer suas apostas e exigências para os governantes que sucederem Fidel.
A Comissão Européia (órgão executivo da União Européia) reiterou sua oferta de iniciar um "diálogo político construtivo" para a democratização da ilha. Já o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, afirmou que a renúncia de Fidel Castro "deve ser o começo da transição democrática em Cuba".
Tanto o imperialismo europeu quanto o norte americano defendem a “democracia” para Cuba, porém se esquecem de explicar como funciona a democracia que defendem: Com as instituições e governos que sejam seus fantoches, e ajudem a aumentar o lucro da Burguesia imperialista impondo um ataque brutal aos direitos dos trabalhadores e a privatização de todos os serviços e empresas estatais. Os exemplos da democracia defendida pelos Imperialistas podem ser vistos em países como o Afeganistão, Haiti e Iraque, invadidos pelo exército americano, e em países da América Latina como o Brasil, Argentina, Peru e Colômbia, entre outros, ou seja, onde os governos que se sucedem aplicam todas as medidas que o imperialismo manda para garantir os lucros da Burguesia
Qual a saída para os trabalhadores:
Uma nova revolução ou se submeter ao Capitalismo “Democrático”
Infelizmente com a sucessão de Fidel não está em jogo a manutenção de um Estado socialista ou a restauração do capitalismo. Fidel Castro e o Partido Comunista Cubano já se encarregaram de restaurar o capitalismo em Cuba. Por isso reafirmamos: Cuba, hoje e já há alguns anos, é Capitalista. Logo queremos aqui colocar as duas questões que de fato estão em jogo em Cuba: Ou os trabalhadores cubanos saem às ruas e derrubam o governo do PCC e promovem uma nova revolução socialista em Cuba, ou o país se tornará, cada vez mais, um dos tantos países da America Latina que hoje são explorados pelo imperialismo.
Isso porque a primeira ameaça aos trabalhadores cubanos e sua independência é o PCC e a sua política de abertura de mercado e subordinação à Burguesia Internacional. Para que os trabalhadores cubanos possam novamente se livrar da exploração capitalista, é preciso que façam uma nova revolução socialista, que lute diretamente contra o PCC e Fidel e que exproprie as empresas e os capitais europeus e estrangeiros, retomando as que o próprio governo cubano privatizou, mantendo as expropriações sem indenização, além de reconquistar as vitórias da revolução de 1959 que se perderam com a restauração do capitalismo em Cuba.
O que é um Estado Operário?
___Se entende por Estado Operário um sistema controlado pelos trabalhadores, onde os meios de produção (terras, indústrias, bancos e todos os postos chaves da economia) não pertencem mais a um indivíduo. No Estado Operário são os trabalhadores que controlam toda a produção, ao mesmo tempo em que exercem seu poder através dos organismos democráticos, surgidos na sua luta contra aqueles que os exploram, contra a burguesia. Depois da Revolução Russa de 1917, que deu origem ao primeiro Estado Operário da história, diversos países viveram processos revolucionários em que os trabalhadores expropriaram a propriedade burguesa e a colocaram sob controle do Estado (Cuba, os países do Leste Europeu, entre outros).
___Porém, em todas essas revoluções que ocorreram, principalmente depois da segunda guerra mundial, as direções do processo estavam ligadas à burocracia de Moscou, fazendo com que esses Estados Operários já nascessem degenerados. Ou seja, a produção é do Estado, porém este Estado não é controlado diretamente pelos trabalhadores e sim por um setor da classe trabalhadora, a burocracia.
|
VOLTAR