Publicada em 26/04/2008

Falta de comida, Biocombustíveis e a luta dos trabalhadores:
Cresce a luta contra a fome no mundo

Nos últimos anos a classe trabalhadora foi protagonista de grandes mobilizações e insurreições contra a burguesia e seus governos. Os explorados e oprimidos da sociedade não param de lutar nunca, seja por reajuste salarial, pela defesa dos seus direitos já conquistados ou por reivindicações mais profundas como, por exemplo, a nacionalização ou reestatização de uma grande empresa.

Porém, fazia pelo menos 30 anos que populações inteiras não se revoltavam por causa da falta de comida, uma coisa tão elementar,  em tantos lugares do mundo, e ao mesmo tempo.

A fome é uma das piores mazelas do capitalismo, pois leva o ser humano à privação mais básica de sua sobrevivência. Principalmente a partir do século XX, a fome, que tinha diminuído drasticamente com o aumento da produção no capitalismo, voltou a crescer sem parar, a partir do fim do crescimento capitalista e o começo de sua decadência.

Mas nem sempre as massas de famintos se mobilizam e tomam as ruas para lutar contra essa situação de forma generalizada. A fome enfraquece tanto um ser humano, além de aliená-lo, que debilita também sua resistência e capacidade de lutar.

O que explica, então, a onda de revoltas que está acontecendo em vários países contra o aumento do preço dos alimentos?

Mundialmente, a inflação no setor alimentício acumula alta de 83% nos últimos três anos. Segundo o jornal alemão Der Spiegel, o preço de itens como arroz, milho e trigo, base da alimentação de populações inteiras em várias partes do mundo, subiu mais de 180% nesse mesmo período.

A burguesia tenta resolver sua crise e diminuição dos lucros, aumentando os preços e explorando ainda mais os trabalhadores. Mas isso tem conseqüências, e a burguesia acaba criando um grave problema para si própria.

A alta no preço dos alimentos a nível internacional tem provocado grandes convulsões sociais. Bangladesh, África, China e, principalmente, Haiti, foram palco de grandes mobilizações de massas em função do alto custo dos alimentos. O problema atinge muitos outros países e quem mais sofre são as populações pobres, pois o peso dos gastos com comida significa a totalidade, ou quase isso, do orçamento.

É bom lembrar que aproximadamente um bilhão de pessoas no planeta sobrevive com apenas US$ 1 por dia. Em diversos países, como Moçambique e Camarões na África, e Haiti na América Central, os enfrentamentos resultaram na morte e prisão de dezenas ou centenas de pessoas.

O "Tsunami Silencioso"

Segundo o próprio diretor do FMI, órgão responsável por aumentar a fome, Dominque Strauss-Kahn, o quadro da crise dos alimentos tende a piorar: ''Se os preços de alimentos continuarem como estão atualmente, as conseqüências serão terríveis. Crianças sofrerão de desnutrição, centenas de milhares passarão forme, o que levará a uma ruptura econômica".

A crise dos alimentos só veio à tona porque as massas de trabalhadores e miseráveis do mundo inteiro começam a questionar os governos e o próprio sistema capitalista. No Haiti, por exemplo, o primeiro ministro caiu. Esse fato político explica o porquê de agora os organismos internacionais, como o Banco Mundial e a ONU, estarem discutindo tanto a gravidade do problema.

Para o imperialismo é assim: enquanto as mazelas do capitalismo não se voltam contra seus representantes, que se danem os explorados e as crianças desnutridas. Para a burguesia, só existe "crise humanitária" quando suas propriedades e negócios se tornam ameaçados.

Porém, de nada adianta para as populações pobres a discussão que o FMI, ONU e Banco Mundial fazem sobre o problema dos alimentos. A "solução" dos órgãos imperialistas é o envio de alguns milhões de dólares para os países mais atingidos. Todas as soluções discutidas pelo conjunto da burguesia vão no sentido do assistencialismo, assim como Lula faz com o "Fome Zero" no Brasil.

As causas da inflação dos alimentos

A causa da crise dos alimentos tem a ver com uma combinação de fatores. Primeiro, o aumento da demanda por alimento no mundo inteiro, principalmente na China, onde o preço médio dos alimentos subiu 21% desde o começo do ano. Mas isso não tem nada a ver com o discurso ridículo de Lula, que diz que a alta dos preços expressa o fato de que os pobres estão se alimentando muito bem. Lula não sabe mais o que é passar fome, por isso segue pagando a dívida pública, enriquecendo os banqueiros, ao invés de garantir emprego para todos e salário digno, e ainda tem tempo para ficar brincando com a miséria do mundo.

O que explica o aumento do consumo de alimentos na China é que antes a população vivia no campo, essencialmente consumindo o que ela mesma produzia. Nas cidades isso muda, pois é preciso comprar tudo que se come. 

Além disso, a alta do barril do petróleo, que já ultrapassa os 110 dólares, faz com que outros produtos ligados à produção de alimentos também subam. A burguesia repassa este custo, além da diminuição de seus lucros, sobre o trabalhador.

O papel dos biocombustíveis

Há quem diga que o grande vilão na subida dos preços dos alimentos é o biocombustível. Evo Morales e Fidel Castro, por exemplo, denunciam o biocombustível e o Brasil, por querer produzi-lo. Junto com eles, estão o secretário geral da ONU e as autoridades dos maiores governo imperialistas preocupados com uma alternativa ao petróleo, de onde tiram grandes lucros. O suíço Jean Ziegler, relator especial da ONU para o Direito à Alimentação disse que "a produção em massa de biocombustíveis representa um crime contra a humanidade por seu impacto nos preços mundiais dos alimentos."

Para quem analisa a realidade de modo global, e não apenas parcialmente, é uma infantilidade culpar o biocombustível pela inflação da comida. É como culpar a criação de gado pelo aumento do preço da carne de porco.

Se, numa área imensa, e com a tecnologia altamente desenvolvida que há hoje, imensas áreas ficam sem ocupação, exatamente para servir à especulação e garantir os preços altos, a culpa é dos donos das terras e de sua propriedade privada dos meios de produção.

Em nosso exemplo hipotético, não são as pessoas que comem carne de gado, nem sequer a produção de gado em si, que eleva o preço do porco. Poderiam se produzir milhões de quilos a mais, tanto de porco como de gado, e os preços serem muito baratos. Se não assim é porque os fazendeiros escondem os produtos, produzem menos quando os preços estão baixos e desperdiçam mercadorias. A culpa é dos fazendeiros e do capitalismo.

Os revolucionários defendem que a produção seja controlada socialmente. Assim, a maioria da população é quem deve decidir se é justificável a produção do biocombustível, como substituição energética do petróleo. E fica claro que sim: ambientalmente faz sentido e é correto se investir em tecnologia e na produção de combustíveis menos poluentes e renováveis, que vão, gradualmente, substituindo o petróleo.

Com a tecnologia que já existe, e com a realização de uma necessária reforma agrária, seria possível produzir muito mais alimentos e todo biocombustível que se quisesse, sem que uma coisa impedisse a outra, nem que se desmatasse um só hectare.

A anarquia da produção capitalista

Na verdade, a causa da fome no mundo é um problema estrutural do capitalismo. A fome existe há muito tempo, mesmo se produzindo mais do que o suficiente para alimentar todos os habitantes da Terra. A culpa é dos grandes produtores, que estocam a produção para impedir que os preços despenquem. Eles chegam a jogar no lixo litros de leite, queimar café, enterrar comida, etc. Portanto, o problema da fome não é de capacidade de produção, mas sim da sua acumulação e distribuição.

A produção de alimentos está concentrada nas mãos de grandes empresários que precisam, antes de qualquer coisa, lucrar e manter seus produtos com cotações altas. Por isso as prateleiras dos supermercados estão sempre cheias, com comidas perdendo o prazo de validade, ao mesmo tempo em que bilhões de pessoas passam fome. O fato é que os preços subiram e o salário e a renda da maioria dos trabalhadores não subiu a ponto de garantir a mínima condição de sobrevivência para as pessoas.

Comida, emprego e salário! Só a luta muda a vida!

A população do Haiti, quando luta por comida, mostra a alternativa diante da exploração e da fome crescente. As massas começaram lutando por produtos a sua sobrevivência e avançaram para lutar contra o Governo Préval e a Minustah (tropa de ocupação da ONU liderada pelo Brasil). Esse é o caminho a ser seguido pelo conjunto das populações atingidas pelo alto preço dos alimentos.

Não será através da eleição de nenhum governo que o problema da fome será resolvido. Somente com mais luta, mais enfrentamento com as polícias dos governos e com uma revolução é possível colocar a produção dos alimentos e dos produtos necessários para a sobrevivência a serviço da maioria da população. Os trabalhadores devem controlar aquilo que produzem.

Por isso defendemos a estatização, sob controle dos trabalhadores, de todas as empresas produtoras de alimentos. Essa é a única maneira de combater a fome e a miséria.

·  Viva a luta dos povos do mundo inteiro contra a Fome!

.  Reforma agrária ampla e radical já!

·  Não pagar a dívida pública (externa e interna) para investir em emprego e salário!

· Estatização, sob controle dos trabalhadores, de todas as empresas produtoras de alimentos!

·  Pela revolução socialista e a construção de um governo dos trabalhadores, do campo e da cidade!

 

 

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