Publicado em 07/12/2011

100 anos do nascimento de um revolucionário. Os graves equívocos de Marighella não podem apagar a memória de um combatente

Neste momento, o fundador da Ação Libertadora Nacional (ALN), Carlos Marighella, estaria completando 100 anos caso estivesse vivo. Dirigente do Partido Comunista Brasileiro (PCB), com o qual depois rompeu e fundou a ALN, Marighella foi um dos pioneiros e principais responsáveis pela opção da luta armada contra a ditadura militar no Brasil.

Mantendo o equivocado modelo etapista de revolução do PCB, a ênfase de Marighella era na defesa de uma revolução essencialmente anti-imperialista, nacionalista. De todo forma, levou esta concepção às últimas consequências, defendendo, organizando, aderindo e morrendo na luta armada, em sua forma guerrilheira, no Brasil.

Após o papel lamentável cumprido pelo PCB em todas as décadas anteriores, quando apoiou o governo Vargas, aderiu a candidaturas militares “nacionalistas” e levou ao auge a política de colaboração de classes com a burguesia, o PCB dos anos 60 era completamente submisso ao PTB e aos “burgueses desenvolvimentistas”, como Jango (o ex-presidente João Goulart, que assumiu em 1961 e foi derrubado pelo golpe em 1964). Foi assim que o PCB assistiu ao golpe sem nada fazer e, depois, tampouco foi capaz de qualquer iniciativa, numa postura covarde e oportunista, de atuação unicamente por dentro da institucionalidade.

Marighella foi um, entre tantos, dos militantes que rompeu progressivamente, pela esquerda, com esta orientação, e aderiu à guerrilha; no caso dele, a organizou.

Uma entrevista concedida à rádio Havana, de Cuba, em 1967, logo após a realização da primeira Conferência da OLAS (Organização Latino-Americana de Solidariedade, entidade internacional castrista que pouco ou nada veio a fazer pela revolução em lugar nenhum), agora foi publicada, e também a reproduzimos integralmente ao final da matéria.

Neste documento, como em outros, ficam claros os equívocos de Marighella. Mas, apesar de todos seus erros teóricos, políticos e táticos, ele foi, sem dúvida, um revolucionário, que merece, nesta data, nosso respeito e lembrança.

Marighella foi assassinado pela ditadura fascistoide brasileira em 4 de novembro de 1969, apenas 2 anos depois da entrevista e não muito tempo depois de que a guerrilha iniciara suas ações. O Movimento Revolucionário relembra este lutador, homenageando todos os que lutaram por uma sociedade socialista, sem exploração. Contudo, é fundamental debatermos também suas posições, para não incorrermos nos mesmo erros novamente e não amargarmos as mesmas graves consequências.

Uma concepção equivocada quanto ao idealismo, o sujeito social e o menosprezo à direção revolucionária.

Na entrevista de Marighella, cujo mérito é deixá-lo falar a um amplo público, especialmente cubano, mas também formado pelos inúmeros militantes que sintonizavam a rádio Havana na época, o militante acaba sintetizando muitas de suas teses mais gerais e sua visão da situação brasileira.

Antes demais nada, o maior equívoco foi atribuir a revolução brasileira a uma iniciativa de poucos e corajosos homens, que dariam o exemplo ao restante da população. Por este esquema, francamente “foquista”, os revolucionários não devem se preocupar em ganhar as massas para a ação revolucionária, e sim iniciá-la, da maneira que for, garantindo que se mantenha e obtenha triunfos, pois, depois, a massa se inspiraria, tomaria o exemplo e seguiria a revolução.

Nada mais idealista e menos materialista e marxista. Perguntado se achava que havia forças revolucionárias em condições de cumprir este papel no Brasil de 1967, Marighella não tem dúvidas: “sim”, diz ele.

Esta lógica combate a passividade e traição da maioria da direção do PCB e da social-democracia e stalinismo em geral, mas cai no aventureirismo, isolado da massa e pequeno-burguês: a guerrilha foquista. Os revolucionários marxistas não descartam e, pelo contrário, já participaram de guerrilhas quando elas podem ter caráter de massa (Vietnã, Nicarágua, etc.), mas não podem abrir mão de intervir na luta de classes para se tornarem “heróis” a quem imitar, o que é uma utopia.

Outro equívoco sério é a proposta que a guerrilha se instalasse no campo. Aí, além do erro da política geral, existe um erro grave tático, pois o Brasil de 1967 já era essencialmente urbano e industrial, além de que, enquanto sujeito social da revolução, é o operariado e não o campesinato quem tem condições históricas de destruir o capitalismo. A localização rural proposta, e depois aplicada, por muitos guerrilheiros, deixou a guerrilha ainda mais isolada e alheia às lutas e condições reais de resistência dos trabalhadores brasileiros.

Por fim, ressaltamos o menosprezo pela necessidade de construir uma organização verdadeiramente revolucionária no Brasil. Mariguella abertamente fala que “isso fica para depois”, e que o importante era a luta, a ação, entre todos os que aderissem à luta armada, e que depois as coisas, por si só, criariam a nova organização revolucionária. Aí, o revolucionário Marighella repete o esquema de um dos pais do reformismo, teoricamente falando, o alemão Bernstein, que há um século atrás defendia que “o movimento é tudo”.

Marighella não colocava o programa (que era essencialmente anti-imperialista e democrático) com qualquer linha de corte, numa política de Frente Única militar com todos e que isso fosse repetido numa organização também ampla e geral política. Evidentemente, a luta se deveria dar de forma unitária, mas uma organização junto inclusive com “as organizações católicas” seria, na prática, outro partido reformista.

E o próprio partido revolucionário e sua construção eram tratados como algo completamente secundário por ele, algo que outros defensores da ação direta sem organização e programa claros também defendem, como anarquistas também defendem, numa coincidência de posições idealistas e não marxistas.

        De toda forma, apesar de todos seus erros, Marighella foi um combatente, que deu à vida à revolução dos trabalhadores e à defesa do socialismo. Nem se resumiu a comentar a revolução,  de forma covarde e diletante, como os acadêmicos e a maioria da esquerda fez (alguns deles sendo traidores, inclusive); nem abandonou seus princípios e se vendeu, mudando de lado, como José Dirceu, José Genoíno e Dilma Rousseff fizeram, hoje governando com os antigos assassinos da ARENA e a serviço do mesmo imperialismo e das empresas e bancos, nacionais e estrangeiros.

        Marighella foi um exemplo de lutador, dos muitos que se produzem nas fileiras da esquerda, mesmo entre os que militam por um programa ou sob táticas equivocadas. E foi um internacionalista, um combatente disciplinado, firme e coerente.

        No centenário de seu nascimento, todos os revolucionários têm nele alguém a quem respeitar e lembrar. Um morto que deu a vida à luta, e que hoje é esquecido pela imprensa e órgãos oficiais capitalistas, tão diferente da festa que fazem para homenagear os seus mortos, como o ditador Ernesto Geisel ou o colaborador de primeira hora da ditadura e dono da Rede Globo, Roberto marinho, cujos dias de louvação em suas mortes há não muito tempo, mostraram quanto a burguesia é repugnante.

Nesta batalha, que também é ideológica, é fundamental, pedagógica e politicamente, à esquerda também não esquecer os seus mortos, assim como não esqueceremos nem deixaremos impunes os assassinos de nossos combatentes.

 

Abaixo, a íntegra da entrevista concedida por Carlos Marighella:

 

Pergunta: Um telegrama da agência de notícia francesa France Press, fechado hoje no Rio de Janeiro, disse assim: Carlos Marighella será expulso por indisciplina do comitê central do Partido Comunista Brasileiro, informa hoje a imprensa de Brasil. Os diários locais, que se baseiam em informações de recorridas em organismos de segurança brasileiros, indicam que essa decisão do PCB foi motivada pelo fato de Marighella ter ido à Havana para assistir à Conferência da OLAS, Organização Latino-Americana de Solidariedade. Precisamente nos encontramos sentado à frente de Marighella, no seu quarto no hotel Habana Libre, para que nos dê sua resposta a este telegrama e ao tempo nos fale a respeito da situação atual do seu País.

Carlos Marighella: O que tenho a explicar ao povo Cubano é que estes telegramas indicam apenas que os periódicos brasileiros procuram utilizar-se do episódio da minha vinda a Cuba para fazer provocações contra os revolucionários. A notícia de que eu serei expulso do Comitê Central do Partido Comunista Brasileiro ou do Partido Comunista Brasileiro por indisciplina é baseada no fato de que foram obtidas informações nos organismos de segurança brasileira, quer dizer, dos organismos policiais, que não podem realmente saber de nada. De qualquer maneira, como tenho uma posição divergente em relação à direção do Partido Comunista Brasileiro, pois sou partidário da luta de guerrilhas como caminho para solução dos problemas do nosso povo, creio que seria ridículo expulsar um revolucionários somente porque veio a Cuba trazer a solidariedade do povo brasileiro à revolução cubana e à Primeira Conferência de Solidariedade Latino-Americana. Quanto à questão levantada nestes telegramas, que noticiam as posições dos jornais brasileiros que pertenço a uma fração do partido Comunista juntamente com outros camaradas, no sentido de desrespeitar as decisões do Partido Comunista Brasileiro, porque somos favoráveis à luta armada, devo esclarecer ao povo cubano que não pertenço a nenhuma fração. Sou o primeiro-secretário do Partido Comunista em São Paulo, do Comitê Estadual do Partido Comunista em São Paulo, e não tenho nenhuma necessidade de organizar grupo, fração, nem mesmo de organizar um novo partido comunista, porque já temos em nosso país muitas organizações. Há grande confusão ideológica, muita gente que pretende atribui-se a condição de líder, de dirigente, mas tudo isto baseado em declarações, na elaboração de informes, na realização de reuniões, quando o fundamental para nós no Brasil é passar para a ação, desencadear a luta armada. É organizar a luta de guerrilhas. Somente em torno da luta de guerrilhas, somente em torno de um caminho revolucionário como esse é que se pode realizar a unidade dos revolucionários, a unidade do povo brasileiro. Assim, seria perder tempo participar de frações, tentar organizar novos partidos e tentar percorrer o caminho tradicional que não nos ajudará em coisa nenhuma e só nos levará a passar ainda mais anos na pasmaceira em que nos encontramos atualmente. Minha posição e a dos camaradas que estão com a mesma disposição que tem a mesma convicção é exatamente a da preparação da luta armada, do desencadeamento da luta de guerrilhas e da concentração de todos os esforços nessa atividade. Era isso que tinha a esclarecer.

 

Pergunta: Marighella, existem no Brasil forças revolucionárias capazes de resistir à ditadura de ir à luta armada contra o regime?

Marighella: Sim. Existem essas forças. As forças revolucionárias capazes de resistir à ditadura e ir a uma luta armada contra o regime encontram-se dentro do Partido Comunista Brasileiro e fora do mesmo partido. Há várias organizações, agrupamentos, correntes e forças outras que defendem posição revolucionária que estão dispostas de ir à luta armada, que têm convicção que o caminho brasileiro para a salvação de nosso povo é a luta armada, e que podem realiza-la. Quando existem condições tais como as que se apresentam em nosso país essas forças revolucionárias são criadas praticamente dia-a-dia e hora-a-hora. O que é preciso é passar para a ação. Fazer com que essas forças se coordenem no mesmo sentido e que passem no desencadeamento da luta e se prepararem. Que vão, portanto, à área rural, que é onde nós podemos, no Brasil, desenvolver a luta que pode ser apoiada pelos trabalhadores, por todo o povo dentro das áreas urbanas e, nesse sentido, marchar para conseguir a vitória que no Brasil só poderemos conseguir se juntarmos esse nosso esforço ao esforço de todos os outros povos Latino-Americanos.

 

Pergunta: Agora a gostaríamos de perguntar a cerca da responsabilidade que corresponde ao PCB ante ao golpe militar de 1964?

Marighella: Não há propriamente responsabilidade do Partido Comunista Brasileiro em relação ao golpe militar de 1964. A responsabilidade, se quiséssemos falar assim, maior, realmente cabe à direção do Partido Comunista Brasileiro. Por que a direção do Partido Comunista Brasileiro cabe orientar as bases, traçar os planos e orientar todo o povo, dar as diretivas necessárias para que a luta seja enfrentada. Ora, a direção do PCB seguiu caminho de submissão à liderança da burguesia. Confiava que os generais brasileiros pudessem vir a resolver a situação do povo. Confiavam num dispositivo militar. Realizava, na verdade, ou propunha a realização, de um trabalho de cúpula nos altos níveis das organizações. Não era trabalho realizado pela base, em que o povo participasse diretamente de baixo para cima e, por tanto, um trabalho que tivesse estrutura firme em que o proletariado, o campesinato, as forças de massa do Brasil estivessem mesmo atentas para a situação. Então, a direção do nosso partido era direção que estava se conduzindo com base de ilusões de classe, de ilusões com a burguesia. Evidente que com essa posição deixou o povo brasileiro inteiramente despreparado e, quando sobreveio o golpe militar de 1965, evidente que não havia condições para a resistência. O povo se encontrava na rua. Não tinha armas, entretanto. E não havia ação daquelas forças do governo e da burguesia que o partido, ou melhor, a direção do partido, sustentava que iriam reagir. O resultado é que inteiramente desprevenidos e despreparados com todas as ilusões que haviam sido defendidas pela direção do partido, ficou todo o povo brasileiro impossibilitado de impedir que o golpe se concretizasse, como acabou se concretizando. Esse é o caso típico de uma lição, de um ensinamento que se pode obter exatamente pelo fato de que a liderança comunista deixa de acreditar no proletariado como força dirigente da revolução, deixa de acreditar no aliado fundamental do proletariado, que é o campesinato, para lançar-se de mãos e pés amarrados diante da burguesia. Sem condições, portanto, de impedir o golpe que fatalmente virá em quaisquer circunstâncias sempre que o Partido Comunista não se preparar para a luta armada e não se preparar para organizar as forças armadas do povo, que é a única coisa que pode deter a posição, a ação dos imperialistas Norte-Americanos contra a liberdade do povo brasileiro ou dos povos da América-Latina.

 

Pergunta: Que forças revolucionárias e que tipo de organização crê o senhor lograria a aliança armada entre trabalhadores e campesinos que se faz necessária para chegar a criar o núcleo do exército de liberação brasileiro?

Marighella: O que nós revolucionários comunistas estamos empenhados na luta armada e temos a forte convicção que só a luta armada resolverá a questão brasileira, o que nós revolucionários, o que nós comunistas estamos pensando, é que em face da situação brasileira e das organizações que ali existem, o que deveríamos fazer é procurar lançar a luta de guerrilhas na área rural do País sem nos preocuparmos em que qualquer das organizações existentes tomasse a inciativa. Não se trata que esta luta armada, que essa guerrilha no Brasil tenha que ser organizada somente pelo Partido Comunista Brasileiro ou por qualquer outra organização existente dentre as que atuam no Brasil, sejam as organizações dos partidários de (Leonel) Brizola, de (Miguel) Arraes, do (Francisco) Julião, da Ação Popular, da POLOP, da Política Operária e mesmo das organizações da esquerda católica. O problema não se situaria, portanto, na situação agora de uma organização que fosse dar a diretiva de luta armada, mas começar a luta armada com os revolucionários de dentro e de fora do partido, e de todas as organizações que estejam dispostas dentro de um plano estratégico político global, a iniciar a luta. Fazer com que esta luta armada, que no caso brasileiro, como no caso Latino-Americano, penso, tem que ser a luta guerrilheira. Fazer com que essa luta tenha um caráter duradouro, que dure, que tenha continuidade, ainda que a principio não seja uma luta que mobilize um grande número de homens, mas que possa obter êxito iniciais e manter-se e implantar-se na área rural do país. Isso dará confiança ao povo brasileiro e essa luta progredirá. E nessas condições, então, no processo, será possível criar-se a verdadeira organização revolucionária capaz de levar a vitória ao povo brasileiro através da luta de guerrilha.

 

Pergunta: É possível lutar pelas reformas de base de forma pacífica em um Brasil governador por gorilas?

Marighella: Não. Não é possível lutar por essas reforma através do caminho pacífico num Brasil com a ditadura que tem no presente momento. Já anteriormente, quando havia o governo de João Goulart, nós seguimos, ou melhor, nosso partido, sua direção, enfim, os revolucionários no Brasil seguiram esse caminho, de lutar pela reforma de base pelo caminho pacífico e sob a liderança da burguesia. Isso nos levou a um fracasso completo e total pois, nas condições atuais, a burguesia no Brasil e em outros países não tem condição de dirigir a revolução. E não há condições também, no momento em que o imperialismo lança mão de sua estratégia global, não há condições para se obter a vitória pacífica através dessas lutas pela reforma. As reforma de estrutura, de base, que necessitamos no Brasil, e de que necessitamos em muitos países da América-Latina, só se pode conseguir através da luta revolucionária. Ou melhor, através da tomada do poder pela via revolucionária. Quando somente então, e com forças armadas do povo em ação, podemos dominar a ação das forças reacionárias, a ação do imperialismo e realizar essas reformas e levar o País até o socialismo. Fora disso não é possível. E a lição que recebemos no Brasil e uma lição que pode servir para os demais povos da América-Latina.

 

Pergunta: Marighella, por último, gostaríamos perguntar o seguinte: que espera o movimento revolucionário brasileiro desta primeira conferência da OLAS?

Marighella: Para o povo brasileiro a primeira Conferência de Organização Latino-Americana de Solidariedade, Olas, significa muito, significa mesmo o passo mais avançado que foi dado na América-Latina, para que reunamos todas as nossas forças num plano estratégico global visando obter a liberação de nossos países do julgo do imperialismo Norte-Americano. Somente agora, e depois que a revolução cubana conseguiu sua grande vitória, e se encaminhou pelo terreno da construção do socialismo no primeiro país da América-Latina, tornou-se possível congregar todos esses esforços, dos revolucionários de toda a América-Latina, como acontece agora nessa primeira Conferencia da Organização Latino-Americana de Solidariedade para enfrentar a estratégia global do imperialismo Norte-Americano. Espero que o movimento revolucionário brasileiro saberá compreender a importância dessa primeira Conferência Latino-Americana de Solidariedade e que se junte aos esforços que todos fazemos no sentido que, como disse o comandante Che Guevara, criar um, dois três, muitos Vietnãs.

 

 

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