Publicado em 22/06/2010

Time “de esquerda” sobe para 1ª divisão alemã. St Pauli é conhecido por posições contra racismo, machismo, homofobia e fascismo

O St Pauli, time da região portuária de Sankt Pauli, em Hamburgo, na Alemanha, habitada por imigrantes e caracterizada por alto desemprego e prostituição, acaba de voltar à 1ª divisão do futebol do país. A principal notícia, porém, não é sobre este feito, que se repete com várias equipes no mundo inteiro todos os anos, e sim sobre quem é o St Pauli.

        O time, oficializado em 1910, surgiu como apenas mais um, e nunca foi brilhante nem conhecido por suas vitórias, já que não é a principal equipe nem sequer de sua cidade - o St Pauli é o maior rival citadino do Hamburgo, derrotado na final do mundial de clubes em 1983 pelo Grêmio.

        O St Pauli, que possui 500 fã-clubes pelo mundo, sendo a paixão de grupos musicais como o Bad Religion, além de ter cerca de 11 milhões de torcedores e público entre 15 e 20 mil pessoas por partida, contra a média de menos de mil torcedores por jogo na 2ª divisão, de onde veio, deve sua fama internacional à identificação política com a esquerda.

        Depois de quase falir, o time foi adotado e recuperado por sua torcida, e, estatutariamente, se define como contra o racismo, o machismo, a homofobia, o sexismo e o fascismo. As torcidas e manifestações de direita e xenófobas foram banidas e os torcedores com estas posições expulsos, desde a década de 80, quando os nazi-fascistas se multiplicaram nos demais estádios.

        Inclusive o nome do estádio, que chegou a homenagear um antigo e importante ex-presidente do clube, Wilhelm Koch, voltou a sua denominação inicial, Millerntor, depois que se revelou que o dirigente homenageado tinha sido membro do Partido Nazista.

        Seu patrocinador, dentro deste espírito “alternativo”, mais do que propriamente anticapitalista, é uma empresa de produtos eróticos, que inclusive fabrica milhares de camisinhas com o símbolo do time. A Nike, porém, também já lançou produtos do time, da mesma forma que várias outras empresas também têm lucrado muito com este mercado “de esquerda” ao redor do St Pauli. 

        Que o time é diferente, contudo, não há como negar. Seu atual presidente, Corny Littman, é diretor de teatro e assumidamente homossexual e a torcida leva a luta antifascista tão a sério que contagia os jogadores. O maior ídolo do time até agora é Deniz Naki, alemão de pais turcos. O atleta fez o gol da vitória em jogo contra o rival Hansa Rostock, que é de outra cidade (Hansa), mas se tornou rival por conta de suas famosas torcidas nazistas. Ele comemorou correndo em direção à torcida do Hansa, que jogava em casa, e fez um gesto de que ia lhes cortar as cabeças, além de cravar a bandeira da caveira pirata (símbolo popular do clube) em seu gramado.

2010 já era histórico para o St Pauli, pois é o ano de seu centenário, e o feito de subir à 1ª divisão aumenta ainda mais o prestígio desse time símbolo da esquerda alemã, em especial os punks, anarquistas e grupos anticapitalistas.

        O título foi comemorado com um festival de cultura e um torneio antiracista, cuja renda será revertida para iniciativas sociais, como a luta pela moradia. Os torcedores do time também impulsionam grupos de luta por direitos do torcedores e contra a elitização do futebol, se apresentando com bandeiras, mensagens e cânticos politizados.

O St. Pauli também tem um dos últimos placares manuais do futebol europeu. Toda vez que um gol é marcado, um funcionário atualiza a plaquinha do Estádio Millertorn, que, também por determinação estatutária, está proibido de associar sua marca a alguma empresa.

Um conteúdo empresarial

        Acostumados a contratos de patrocínio e “parcerias” que colocam empresários e procuradores de jogadores no comando de clubes, o futebol tem acelerado sua mercantilização e cada vez menos os torcedores têm papel ativo em seus próprios clubes.

Alguns dos resultados disso são a fuga de jogadores para o exterior, salários milionários de uma minoria de atletas e encarecimento geral dos jogos, que passam a contar com preços proibitivos para a imensa maioria das torcidas. O retrato do futebol brasileiro, por exemplo, acaba sendo o de jogos arranjados, árbitros vendidos e os aficcionados mais pobres expulsos dos estádios.

        Esta realidade, de negócios envolvendo milhões de euros em cada transação, com o torcedor apenas assistindo a tudo isso de longe, é uma realidade que corresponde ao capitalismo como um todo e não há como um clube sozinho ser diferente. O St Pauli, com sua ideologia alternativa, consegue ser um pouco distinto dos demais, mas de forma muito limitada.

Para poder reforçar seu time, por exemplo, acaba de contratar o meio-campista Gerald Asamoah, jogador que estava no Schalke 04 há mais de dez anos, e jogou as últimas 2 Copas do Mundo pela Alemanha. Negro e descendente de imigrantes, Asamoah vai receber 1 milhão de euros por temporada no St Pauli, a metade do que recebia no seu ex-clube. Além do jogador aceitar reduzir seu salário à metade, este valor também será pago dividido ao  meio: 500 mil pelo St Pauli e 500 mil pelo Shalke 04, única maneira de permitir ao pobre orçamento do St Pauli esta contratação.

A inusitada negociação, que mostra a admiração que o St Pauli disfruta, é expressa em comentários como o do ex-jogador Butje Rosenfeld, sobre o clube: “É o time da classe trabalhadora”. Por outro lado, não se pode esperar que sejam contratados outros jogadores de alto nível.

Dentro de um campeonato em que jorra dinheiro para times financiados por milionários estrangeiros e alemães, além de grandes multinacionais, como a Adidas, Bayer e a Volksw3agen, que tem um time próprio, o Wolfsburg, da qual detém 95% da propriedade, as chances do St pauli são remotas.

É esta a realidade geral do capitalismo, em que não há espaço para competir em igualdade de condições com o poder econômico das grandes empresas, grandes jornais, redes de TV, etc.

Assim como não existe possibilidade de existir uma comunidade à parte do capitalismo, externa a seu sistema e imposições, tampouco é possível um time competitivo realmente “de esquerda” no futebol. A lógica indica que o St Pauli ou vai ter que se tornar mais igual aos outros clubes, ou dificilmente terá condições de deixar de ser um time apenas simpático para ser um time vencedor.

Enquanto isso, porém, longa vida ao St Pauli, que é uma novidade admirável.

Defender o esporte, contra o capitalismo

O futebol, apesar de sua origem inicialmente elitista, como esporte burguês na Inglaterra, ganhou rapidamente a adesão dos trabalhadores, inicialmente na própria Inglaterra, mas rapidamente se difundindo, por exemplo, por meio de trabalhadores portuário ingleses.

Assim, em pouco tempo, foram formados centenas de clubes vinculados às antigas associações de "Força e Luz", operários, ferroviários, etc., inclusive mantendo estas denominações em alguns deles. Com a profissionalização capitalista do futebol, já que antes todos os jogadores eram amadores, esta realidade mudou drasticamente, e hoje a realidade é a de um esporte muito popular, mas clubes muito elitistas, onde o torcedor não consegue pagar os ingressos e até mesmos os sócios não têm poder nenhum sobre o clube, em temas como contratações, preços e investimentos.

A diferença do St Pauli é que, além de ser parte do fenômeno minoritário em que o clube passa a expressar uma posição resistente à ideologia capitalista predominante, a torcida determina boa parte dos rumos do time. Um exemplo foi a proibição de anúncios sexistas, que expunham mulheres como objetos sexuais em suas placas publicitárias. A torcida exigiu e se rompeu o contrato com a empresa anunciante.

        Evidentemente, dentro do capitalismo, com salários inflacionados e mercantilização do futebol e de todos os esportes de alto rendimento, o St Pauli não é completamente diferente do que conhecemos. Mas é uma expressão sem dúvida progressiva da luta anti-racista e anti-xenofóbica, além de refletir elementos de controle dos torcedores.

        Porém, há contradições entre esta participação das massas e controle capitalista, que às vezes produzem exemplos históricos. É o caso do Dínamo de Kiev, rebatizado de F.C. Start pelos nazistas durante a 2a Guerra e cujos jogadores encontraram a morte e a perseguição por não abrir mão de sua independência, tendo jogado e derrotado os times das Alemanha invasora, mesmo sabendo o que isso significaria. Também é o caso de clubes como o Barcelona, perseguido pelo franquismo.

Essas são demonstrações de que o esporte, e o futebol mais ainda, como maior esporte de massas do mundo, não ficam alheios à luta de classes. O St Pauli é mais um exemplo disso.

        Algumas pessoas, em geral identificadas com a esquerda e inclusive bem intencionados, costumam parodiar Marx, e dizer que "o futebol é o ópio do povo". Mas isto é uma concepção equivocada. Na verdade, embora seja usado como forma de alienação, aliás como tudo o mais no capitalismo, incluindo o sexo, a cultura, etc., o esporte, em si mesmo, não tem nada a ver com a religião, ou outras falsas consciências.

A ideologia, como parte da superestrutura abstrata, compõe a ideia geral que uma sociedade expressa, justificando a si mesma. Por isso, "a ideologia de uma sociedade é sempre a ideologia de sua classe dominante". Aí entra a religião, tal como descreveu Marx, embora os revolucionários defendam completamente a liberdade de credo, e sejamos absolutamente contra qualquer preconceito religioso ou anti-religioso.

As ciências, a cultura e o esporte, por outro lado, são manifestações salutares, importantíssimas e que permitem ao ser humano gozar de sua liberdade, ócio, prazer e criatividade, devendo ser objetos permanentes da luta e defesa por parte dos socialistas e revolucionários.

Mas esta luta pelo acesso e democratização à ciência, à cultura e ao esporte e lazer, também devem ser parte da luta pela revolução socialista, sem a qual nenhuma dessas áreas realmente será desfrutada e apreciada pelos trabalhadores.

 

 

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