A luta do Tibet contra a opressão
As recentes manifestações dos tibetanos, não apenas no Tibet, ocupado pela China desde 1950, mas fora dele, através dos exilados, trouxe à tona novamente o problema da independência nacional. O que exigem as novas e velhas gerações de tibetanos é mais do que a possibilidade de ter um país que representa sua cultura, língua e religião. A luta dos tibetanos é, antes de mais nada, a luta contra a pobreza e atraso econômico que tomam conta da região.
A capital do Tibet, Lhasa, até pouco mais de 1 ano atrás, sequer possuía uma ligação regular com o resto da China ou qualquer outro centro um pouco desenvolvido que fosse. Somente com a inauguração de um trem que liga a cidade ao restante da China, nos trilhos mais altos do mundo, esta região pôde sair do isolamento quase completo.
Mas não foi para integrar o Tibet à China, ou garantir melhores condições de vida à população, que o governo inaugurou este trajeto ferroviário. Esta obra teve o propósito de facilitar ainda mais o que já é a política de Pequim há anos: colonizar o Tibet e esmagar seu povo e cultura. O governo chinês faz isso emigrando milhões de chineses, que são instalados no Tibet, transformando os tibetanos em minoria dentro de seu próprio território. Esta prática lembra a política de “embranquecimento da população” feita no Brasil com a vinda de imigrantes europeus nos séculos 19 e 20; ou a política de estupro às índias para diluir o sangue autóctone, também em nosso país, ainda antes disso.
Quando os tibetanos lutam, não estão sendo “fantoches” do imperialismo ou dos astros de Hollywood que levantam a causa do Tibet (como supõe a esquerda stalinista), mas lutando por si próprios, por seu direito a permanecer em seu local de origem, por manter sua cultura, e por sobreviver com condições dignas, com salário, emprego e direitos. É isso que o governo chinês nega ao Tibet, e é por isso que os tibetanos têm o direito de determinar ou não sua autodeterminação e independência.
Derrotar o imperialismo, para libertar tibetanos e chineses
Assim como em Kosovo e em qualquer parte do mundo, nenhuma luta está alheia aos interesses dos Estados Unidos. A divisão dos povos interessa principalmente ao imperialismo americano, que se beneficia quando os trabalhadores lutam uns contra os outros.
Em particular na China, que, em vários aspectos, pode desestabilizar os EUA e sua economia, controlar militarmente uma área tão grande quanto é o Tibet seria uma grande vitória para os Estados Unidos. É por isso que a burguesia deste país sempre incentivou a tentativa de independência do Tibet: para conquistá-lo diretamente e governá-lo com suas multinacionais e tropas, mesmo que tivesse que usar a ONU para este papel.
Independente de ter mudado suas perspectivas sobre a região (pois não movem mais uma palha pela independência), os EUA seguem sendo os principais inimigos do Tibet e dos trabalhadores, sejam eles tibetanos ou chineses. Não seria possível conquistar nenhuma independência com o “ajuda” dos EUA. Os iraquianos sabem muito bem o que significam as “forças de libertação” dos Estados Unidos. Assim como os afegãos, kosovares, haitianos e timorenses, cujos países seguem ocupados por tropas militares internacionais, a serviço do imperialismo e contra a maioria da população, sem soberania real nenhuma!
Só há uma possível liberdade e independência para os tibetanos que é a partir da expulsão de seus colonizadores, sejam eles americanos (através de suas empresas em seu solo) sejam eles chineses a serviço dos americanos. Para os revolucionários, a saída para os trabalhadores é sua união contra os patrões: que se unissem tibetanos e chineses em um mesmo país, numa federação de povos, exercendo os trabalhadores das diferentes etnias o governo por eles próprios, pela expropriação da classe dos banqueiros, latifundiários e industriais, que hoje está junta para atacá-los, e que não tem pátria na hora de explorar.
Mas são os trabalhadores e as nacionalidades oprimidas quem devem escolher seu futuro. Neste caso, as massas tibetanas fizeram sua escolha: exigem a libertação de seu território do controle chinês e a independência do Tibet. Nosso apoio incondicional ao direito de autodeterminação do Tibet. Pela organização dos trabalhadores do Tibet para garantir o Tibet livre!
China: uma ditadura capitalista contra os trabalhadores
Desde 1978, após a tomada do Partido Comunista Chinês (PCCh) pelo setor pró capitalista, dirigido por Deng Xiaoping, a China deixou de ser um Estado operário (que já nasceu deformado) e passou por um processo de restauração capitalista, por dentro. Isso fez com que, muito antes da ex-União Soviética, a China tenha se aberto ao mercado mundial imperialista.
Ficou famosa a “diplomacia do ping-pong” em que equipes de atletas americanos viajaram à Pequim para distensionar a relação entre os 2 países, depois selada pelo acordo entre China e os EUA de Ronald Reagan. Esta aliança, que só se estabeleceu com a ex-URSS a partir de 1987, com Gorbachev e sua perestróika (abertura econômica capitalista), fez da China a maior “zona franca” dos Estados Unidos no mundo, a partir da década de 80.
Todas as empresas americanas se instalaram na China, onde a mão de obra é semi-escrava. Lá não se tem direitos trabalhistas, trabalha-se em jornadas de até 16 horas e recebe-se um salário de fome: ou seja, é o paraíso dos empresários. Mesmo após denúncias de situações como o regime de trabalho das “camas quentes”, onde os trabalhadores dormiam um pouco do lado do próprio serviço, antes de voltarem a trabalhar, revezando-se nas camas, esta situação segue existindo em boa parte da China. Na recente construção do Estádio Olímpico de Pequim, mais de 100 operários já morreram, porque na China é assim: trabalha-se sem parar, sem segurança e não existe greve nem direito de protestar.
Para muitas pessoas é difícil entender como pode um Estado dirigido pelo partido Comunista ser capitalista. Realmente é uma contradição, mas isso poderia perfeitamente acontecer em qualquer país do mundo. Por exemplo, na Rússia (centro da ex-URSS) o Partido Comunista acabou de perder a votação para o sucessor de Putin, mas ficou no 2º lugar, com uma grande votação. Se este partido ganhasse a eleição, por dentro do sistema eleitoral burguês, a Rússia deixaria de ser capitalista? Ou se o PCdoB do ministro Orlando “Tapioca” Silva dos Esportes e dos gastos com cartão corporativo, se elegesse, o Brasil seria um Estado operário? É evidente que não!
A China, é preciso que se diga, é um Estado burguês, capitalista, que explora seus trabalhadores a serviço da burguesia imperialista. Além de capitalista, o governo chinês é pró-imperialista e uma ditadura sanguinária contra os trabalhadores chineses e das minorias nacionais como os tibetanos. Na China, assim como na URSS, já houve a “perestróika”, a contra-revolução burguesa e o fim do Estado operário. Em certo sentido, o que não houve foi a Glasnost, como ficou conhecida a abertura política, com governos democrático-burgueses sendo eleitos. Os rumos de Yeltsin e da Rússia e dos lucros que a China hoje garante às multinacionais, mostram que o caminho chinês não só não tira o sono de Bush, como é ainda melhor e menos contraditório para os EUA.
O imperialismo não pode boicotar a China
É pela relação do imperialismo com a China que hoje não se ouvem mais as vozes imperialistas em defesa do Tibet. Até algum tempo atrás, bastavam manifestações do líder político e religioso do Tibet, o Dhalai Lama, pela independência, que a burguesia toda fazia coro, mesmo sem manifestações de massas na rua. Agora que milhares de tibetanos se enfrentam com pedras contra os tanques chineses, não se diz mais muita coisa.
A explicação para este silêncio é a dependência do imperialismo e de quase todas suas empresas dos negócios que fazem com a China. A China, com seu crescimento anual do PIB acima dos 10% em média constante, é a maior compradora mundial de grãos e alimentos em geral; minérios; produtos eletro-eletrônicos; carros; etc. A China e seu maior mercado consumidor do mundo consomem o que o planeta inteiro produz. Além disso, é lá que as maiores empresas e bancos fazem dinheiro explorando a população e, no caso das empresas, vendendo ao mundo inteiro.
A China não é uma nova superpotência em ascensão, e nem sequer é independente. Mas a sua transformação em uma semi-colônia imperialista, uma plataforma mundial de exportação, faz com que seja impensável ao imperialismo americano propor sanções à China. É por isso que nenhuma nação imperialista é capaz de levar a sério a possibilidade de boicotar as Olimpíadas de Pequim. Hoje, se a China for derrotada no Tibet, é o imperialismo quem sai derrotado, pois as massas tibetanas darão o exemplo à população chinesa de que é possível lutar e derrotar o governo vendido do PCCH, que deveria se chamar Partido Capitalista Chinês.
O budismo e os Estados teocráticos
Infelizmente, já podemos dizer que a luta do povo trabalhador tibetano corre um enorme risco de ser perdida em pouco tempo. Isso porque sua direção, expressa involuntariamente pelos monges budistas, é incapaz de garantir a independência. Esta direção é involuntária, porque, ao contrário de Mianmar, onde os monges tiveram um papel de vanguarda (mesmo que para trair e distorcer a luta em seu caminho), no Tibet os monges estão na retaguarda do processo de luta. Parte dos monges budistas e do Dhalai Lama em particular, as principais vozes pela rendição dos lutadores e a submissão a Pequim e ao massacre do governo. O Dhalai Lama já disse ser contra a independência e propõe o fim das mobilizações. O pacifismo do Dhalai lama é o braço desarmado do imperialismo, que segura as massas, enquanto as assassina com o outro, expresso no exército chinês.
Os trabalhadores do Tibet nunca precisaram de um governo religioso e teocrático, como propõe os líderes budistas. Agora que estes líderes nem mais falam em um Estado próprio, é a hora de os tibetanos organizarem-se de acordo com o conteúdo por qual lutam. As massas tibetanas lutam por independência, comida, emprego e terra. Isso só pode existir com um governo dos trabalhadores, que devem tomar o poder, destruir as instituições atuais e construir o socialismo. Este é o desafio para o Tibet: romper com suas direções traidoras e construir um Movimento Revolucionário autêntico.
Pelo direito à autodeterminação do Tibet!
Derrotar o imperialismo americano e seus lacaios do governo chinês
Unir chineses e tibetanos por liberdade, direitos e o fim da exploração
Só um Tibet socialista é um Tibet livre!
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