Publicado em 25/02/2010

Tráfico infantil no Haiti: uma realidade que veio à tona, mas que o imperialismo faz questão de esconder.

Os haitianos já viviam submergidos em um caos social profundo, e tudo isso se agravou mais ainda após o grande terremoto. Todos aqueles problemas que já eram grandes passaram a ser maiores.

Um desses fatos é o tráfico infantil, já que no Haiti, por conta de toda a miséria e fome, as famílias se veem em uma realidade onde sequer a sobrevivência está garantida. Esse cenário favorece os traficantes de crianças, por exemplo, que, oferecendo uma suposta condição digna para elas, e dinheiro aos pais e mães, acabam comprando muitas crianças.

Dentro da cultura haitiana, por sempre ter convivido com tudo isso, acabou-se enraizando e sendo assimilada esta prática à própria institucionalidade do país. Chamado de “rester avec”- que significa literalmente “ficar com”-, quando as famílias mais pobres entregam seus filhos a famílias mais ricas, com o pretexto de garantir alguma perspectiva, o tráfico avançou depois do terremoto devastador.

Apesar da ilusão de vida melhor às crianças vendidas, o resultado é totalmente o oposto, já que essas crianças voltam à escravidão total, submetidas até a chibatadas, cárcere privado e exploração sexual.

A ameaça dos aproveitadores não vem somente dos haitianos mais ricos, mas principalmente de pessoas de fora do país, que se aproveitavam antes, e agora mais ainda, para roubar crianças e vendê-las e ou usá-las.

ONGs e Igrejas a serviço do tráfico internacional

Esses casos tiveram maior notoriedade quando foram detidos, no dia 29 de janeiro, 10 missionários norteamericanos, ligados à Igreja Batista de Idaho. Os cinco homens e cinco mulheres foram pegos quando tentavam atravessar a fronteira do Haiti com a República Dominicana com 33 crianças, sem documentação alguma.

Querendo se passar por bons samaritanos, já que todas as crianças eram órfãs, os religiosos são apenas a ponta do iceberg, num fluxo intenso de roubo de pessoas, contra sua vontade, que muitas vezes viram mão-de-obra escrava nos países imperialistas. Após abertas as investigações, logo se percebeu que nem sequer era verdade que todas as crianças haviam perdidos seus pais.

As autoridades temeram, em alguns momentos, até mesmo que os missionários presos poderiam ser pivôs de alguma instabilidade diplomática, acreditando que o governo dos EUA iriam intervir diretamente na decisão judicial haitiana. Porém, como o governo haitiano de René Prevál é um total capacho do governo Obama, a decisão foi contornada, sabendo-se que nada ocorrerá aos criminosos dos EUA.

Mesmo sabendo de todos os indícios que comprovavam que se tratava de tráfico de humanos, o governo do Haiti declarou inocentes todos os missionários da Igreja, por supostamente não existirem fatos que comprovassem a intenção de infringir a lei. No dia 11 de fevereiro, os traficantes de crianças foram postos em liberdade, estimulando que tudo siga sendo feito do mesmo modo.

A ignorância e a superstição usadas para explorar

Os haitianos em sua maioria são católicos, porém grande parte da população é praticante do vodu, simultaneamente. Esta religião, com raízes africanas, mas tipicamente haitiana, é formada por diversas lendas, que se tornam presentes nas crenças do povo.

Uma dessas lendas é a do "loup-garou", literalmente “homem-lobo”, que seriam pessoas possuídas por espíritos, que poderiam assumir qualquer forma de animal para se aproximar das crianças e bebês, e que se alimentariam do sangue desses pequenos.

Após o terremoto, o medo dessa lenda folclórica aumentou ainda mais, já que famílias inteiras foram destruídas, e as que sobreviveram ainda vagam sem rumo sem ter um teto para dormir, descansando ao relento, “vulneráveis” ao "loup-garou".

Apesar de ser uma lenda, há realmente diversos “homens-lobo”; pessoas que se aproveitam desses momentos de caos para tirarem vantagens. As crianças que irão com esses “benfeitores” terão metaforicamente seu “sangue sugado”, servindo para a adoção ilegal (na melhor das hipóteses), ou, na sua grande maioria, serão submetidas a trabalhos escravos, prostituição e tráfico de órgãos.

Nos momentos de caos ao quais o capitalismo submete populações inteiras, esse sistema podre demonstra suas piores faces. Misturando superstições, falsas consciências sob a forma de ideologias, misticismo e ignorância, a exploração toma conta e não deixa claramente no ar os culpados, dando a impressão que é o "além" que provoca tanto sofrimento. O culpado, entretanto, é bem concreto: é o capitalismo!

 

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