GREVE:
No fim das contas, todo mundo ganha quando os trabalhadores cruzam os braços

As greves estão aumentando no Brasil. Em relação aos últimos anos, a quantidade de categorias que utilizam o método da paralisação do trabalho, quando estão reivindicando seus direitos, cresceu muito em 2008. Diante disso, a população debate sobre o direito de greve, sua importância e os aparentes prejuízos que decorrem da luta dos trabalhadores.

Aparentemente, quando uma categoria faz greve em defesa suas reivindicações todo o resto da população perde. É isso que mostram os jornais, a TV e os patrões. Elas não mostram petroleiro trabalhando o dia inteiro, “embarcado” numa plataforma em alto mar, longe da família e à disposição da Petrobrás, gerando lucros enormes. Não se fala das contas atrasadas desse trabalhador que ganha uma miséria perto do que produz. O que a Globo mostra é a pessoa que não consegue comprar um botijão de gás por causa da greve. Quando um carteiro, que ganha menos de R$ 700, para trabalhar com muitos quilos nas costas, na chuva, no sol, com assalto toda hora, faz greve, a Bandeirantes mostra a carta que não foi entregue.

O Movimente Revolucionário aproveita o momento de acirramento da luta de classes no Brasil para discutir com os trabalhadores que, em última instância, todos os trabalhadores, e a humanidade em geral, ganham com as greves e com as lutas dos explorados. Quando os professores fazem greve, e conseguem alguma melhoria, todos os alunos, os pais dos alunos e a população como um todo sai ganhando, pois o ensino adquire qualidade. Quando os carteiros fazem greve, toda a comunidade sai ganhando, pois o serviço de entrega e distribuição de correspondência será melhor feito. E é assim como todas as categorias.

Outro efeito que ajuda a todos, é que se um trabalhador mostra sua força, isso dá ânimo e serve de exemplo para os outros. Assim, se todos ganham R$500, mas em uma cidade os comerciários lutam e ganham aumento para R$ 700, isso é decisivo para que se aumentem os salários de todos os outros trabalhadores, que vão poder usar aquela 1ª luta como uma lição a seguir.

PRODUZINDO NÃO HÁ NEGOCIAÇÃO

Quando os trabalhadores reivindicam alguma mudança na situação de trabalho, como redução da jornada, reajuste salarial, contratação de pessoal, adicional por se expor ao perigo (periculosidade), etc., os patrões nunca dão nada de mão-beijada. O dono da empresa, ou o governo, não se comovem com a fome, a pobreza ou os acidentes de trabalho. Para os governos (dentro do capitalismo) e para os patrões, a lógica é a do lucro a qualquer custo. Os empresários do Brasil invejam os da China, que não pagam férias, 13º salário, FGTS, nem nada. Se depender dos banqueiros, empresários e do governo Lula, é este o futuro do trabalhador no Brasil.

Não existe o burguês bonzinho que resolve melhorar a vida de seus empregados para melhor. Mesmo se existisse esta intenção, o burguês não ia pô-la em prática, pois isso significaria não poder competir com seus concorrentes, e falir. O patrão é inimigo do aumento de salários, dos direitos trabalhistas e do trabalhador como um todo, por conseqüência. Faz isso porque pode gostar muito do empregado como pessoa, jogar futebol com ele, tomar cerveja junto. Mas ele é mais amigo de seus lucros, antes de tudo. E não vai ter dúvida em demitir ou dar calote no empregado se tiver que preservar seus bens e riquezas.

A única forma de os trabalhadores serem ouvidos pelos patrões, portanto, é colocando-os contra a parede e fazendo com que eles não tenham outra alternativa senão negociar. Não há saída: o trabalhador só ganha se tirar algo do patrão.

Nesse sentido, a greve expressa antes de tudo uma necessidade da classe trabalhadora, pois é quando os trabalhadores assumem o papel principal na luta entre esses interesses de classes opostas. Ao parar a produção, cruzando os braços, os trabalhadores conseguem inverter o papel de dominado e descartável que o patrão lhe atribui, para demonstrar quem manda e quem garante a geração de riquezas.

Na greve, os trabalhadores estão dizendo: “Quem produz somos nós. A produção e a fábrica, portanto, nos pertencem. Só liberamos os equipamentos e movemos nossa força de trabalho, para gerar os produtos, se atenderem nossas exigências”. A greve acerta em cheio a patronal e a deixa pressionada a dialogar com os trabalhadores, pois cada hora parada significa prejuízo e menos lucro para a burguesia no final do mês.

Sem a greve, e a possibilidade de interromper a exploração do trabalho, os trabalhadores seriam sempre completamente ignorados e nunca teriam reivindicação alguma atendida. Ainda mais na atual fase do sistema capitalista em crise, quando a burguesia não tem a menor condição de fazer concessões aos explorados. Pelo contrário, existe uma tentativa constante dos governos e empresários de retirar o que já existe na mão dos trabalhadores. As greves, portanto, além de justas, são necessárias!

FURA-GREVE: INTERESSES DETODOS OU DE UM SÓ?

Muita gente acha errado fazer greve. Como nós dissemos, esse raciocínio só leva os trabalhadores a se calarem quando perdem seus direitos, seu salário e seu emprego. Em geral, o preconceito contra a greve não nasce da experiência do trabalhador, mas é produto da ideologia do patrão sobre sua consciência. A ideologia repetida mil vezes pela imprensa, pelo chefe, e muitas vezes pela própria família e amigos do trabalhador, é a de que a propriedade é sagrada e “se aceitou trabalhar ali, tem que se sujeitar”; ou “se não gostou vai procurar outra coisa”.   

Essa lógica é absurda, pois o trabalhador não sonhou em ser carteiro por R$700, nem bancário por pouco mais de R$1000, ou vendedor de loja ganhando um salário mínimo, todos sem conseguir pagar as contas no fim do mês. As pessoas não têm muitas opções, e onde forem serão explorados. Sua única forma coletiva de melhorar de vida é lutando. A saída individual, de estudar para um concurso, ganhar na mega-sena ou outra solução, podem “salvar” poucas pessoas no mar de explorados.

Por isso, o trabalhador que não quer fazer greve, abandona a si mesmo, ou a todos seus colegas, suas famílias e dependentes, à mercê do patrão. O colega que não entende a importância da greve ajuda a que se retire o 13º, a licença-maternidade e o emprego de muita gente. Tudo isso é muito ruim, mas os trabalhadores podem tentar compreender. Afinal, esta mentalidade é a o pensamento do burguês dentro da cabeça do empregado. Nós discordamos desse trabalhador com esse raciocínio, e tentamos fazê-lo mudar de idéia, mas respeitamos sua posição e defendemos seu direito de expressá-la numa assembléia, com seus colegas, a fim de definirem, todos, uma única posição.

Mas o que não se pode admitir é que um trabalhador ponha suas idéias acima das de milhares de outros trabalhadores. Não se pode admitir que um funcionário perca uma votação democrática, ou nem vá à assembléia com seus colegas, e resolva agir contra a decisão da maioria. Este colega, neste caso, ao ir gerar lucro para o patrão quando a categoria decidiu pela greve, deixa de ser colega: passa a ser o capacho do patrão, o pelego, o fura-greve. Não se pode admitir isso, porque esse é o primeiro que, depois de puxar o saco do patrão, vai olhar, contente, o contra-cheque com o aumento conseguido pelos que tiveram a coragem de lutar e fazer greve.  

ESCOLA DA REVOLUÇÃO

        Cada vez mais a humanidade precisa da revolução socialista para superar os problemas gerados pelo capitalismo, como a exploração, desemprego, fome e violência social. Não há solução para nada disso por dentro do sistema atual, pois ele é todo comprometido com a classe dominante (burguesia) e corrupto. As leis, a justiça, a imprensa, a polícia, as Forças Armadas; tudo está a serviço dos ricos e exploradores, e existe para garantir a manutenção dessa ordem que massacra a maioria do povo.

        Nesse sentido, cada vez que os trabalhadores levantam a cabeça e enfrentam o patrão ou o governo; por trás disso, existe uma importância vital e estratégica: avançar no caminho pela revolução. A revolução se dará nas ruas através da generalização das lutas dos explorados. Por isso, Lênin (revolucionário russo) dizia que a greve era uma escola de comunismo, porque é nesse momento que os trabalhadores percebem, em primeiro lugar, quem é que manda na produção de todas as riquezas (o trabalhador) e quem é que concentra todos os lucros de seu trabalho sem fazer nada (o proprietário).

Também é na greve que, em segundo lugar, ele pode perceber que todas as instituições do sistema estão contra ele e a favor do patrão. Ele vê a polícia indo no piquete para lhe bater; a imprensa mentindo e tentando desmoralizar o movimento, jogando a população contra os grevistas; a justiça proibindo a greve e defendendo o dono da empresa...

Para o trabalhador que achava que a democracia e as leis eram neutras e universais, a greve ensina que, na verdade, tudo tem um conteúdo de classe, e que é preciso que os trabalhadores se organizem nos seus organismos, com suas leis e regras, para lutar contra as leis e s regras do sistema explorador. Por isso a greve educa os trabalhadores e avança a consciência da classe, no sentindo de incentivar a organização por local de trabalho e a necessidade do enfrentamento com os patrões e o sistema como um todo.

.UM NOVO MOMENTO NA LUTA DE CLASSE DO BRASIL.

Em relação à década de 90, hoje os trabalhadores estão muito mais fortes e na ofensiva, respondendo aos ataques da burguesia. Somente em função disso, é que o governo Lula não aplicou, ainda, a retirada de direito como 13º salário, férias, licença maternidade e direito de greve. O governo é obrigado a fatiar suas reformas para tentar enganar os trabalhadores, e tentar acabar com nossas conquistas aos poucos. Para isso, conta com a ajuda das direções do movimento sindical, que se venderam em troca de cargos e dinheiro, e hoje não defendem mais os trabalhadores, como a CUT e a Força Sindical.

Mas o fato é que hoje existe muito mais disposição de luta dos trabalhadores brasileiros. È por isso, que, apesar da fúria dos empresários e do governo, muita coisa ainda estamos conseguindo manter, e avançar em outras, onde a luta consegue derrotar o governo. O maior exemplo disso é a combinação de greves que estão ocorrendo esse ano, em categorias extremamente importantes.

Correios, petroleiros, professores, operários da construção civil, da Volks e da GM, e tantas outras categorias estão travando lutas históricas nesse ano. Muitas delas conseguem ser vitoriosas, pelo menos parcialmente, como a de Correios que garantiu os 30% do adicional de risco para os trabalhadores, incorporado ao salário; e a dos trabalhadores das montadoras multinacionais que derrubaram o banco de horas que serve para super explorar os operários não lhes pagando hora extra.

CORREIOS: UMA VITÓRIA E UM EXEMPLO A SER SEGUIDO

A greve dos trabalhadores dos correios foi histórica. Primeiro, porque foi a terceira greve em menos de um ano, sendo a segunda fora do período de campanha salarial.

Os trabalhadores haviam feito uma greve em Abril, em que Lula foi obrigado a assumir, ele mesmo, após uma manifestação em Porto Alegre, o compromisso de pagar os 30% a mais no salário dos carteiros por conta do risco que eles correm no serviço diário de entregar cartas. O Movimento Revolucionário esteve à frente desta manifestação e também esteve junto dos trabalhadores nesta última greve, quando Lula descumpriu o que tinha prometido. A greve durou 21 dias e resistiu ao corte do dinheiro para a comida dos trabalhadores, do direito à assistência médica e ameaça de perder salário e ser perseguido. Os trabalhadores não arredaram pé, foram até o fim, passando por cima da direção dos pelegos da CUT que dirigem a categoria, e arrancaram os 30% do governo.

A vitória dos trabalhadores dos Correios mostra que é possível derrotar os governos burgueses através da luta e não das eleições. E faz mais: mostra um caminho que pode ser seguido por outras categorias. Se o exemplo de Correios se torna regra nas lutas no Brasil, estaremos mudando a situação política no país e podemos passar a um cenário de grandes enfrentamentos que antecederão grandes vitórias.

AS ELEIÇÕES NÃO MUDAM NADA. É PRECISO UMA REVOLUÇÃO

 Cada greve deve estar a serviço de preparar a classe trabalhadora para a revolução, pois não adianta que uma luta garanta um reajuste salarial bom, ou que atenda outra reivindicação importante, apenas. Porque tudo que é conquistado pelos trabalhadores, pode ser retirado logo depois, no capitalismo. Só existirão melhorias consideráveis e duradouras na vida dos trabalhadores quando o capitalismo for destruído e quando aqueles que produzem as riquezas controlarem de fato a sociedade, através de um governo dos trabalhadores apoiado nos organismos da nossa classe.

Em um ano de eleições, defendemos a multiplicação das greves e o aumento da luta dos trabalhadores. Essa é a única saída para quem é explorado. Não vai ser através da eleição de um vereador, prefeito ou mesmo presidente que a vida vai mudar. É preciso muita luta e organização dos trabalhadores em cada local de trabalho, em cada bairro e em cada escola.

LULA QUE ACABAR COM O DIREITO DE GREVE

Justamente por saber o significado de uma greve, Lula, que já foi grevista e operário, hoje quer acabar com o direito dos trabalhadores fazerem greve. Com a lei de greve e a reforma sindical que está defendendo, Lula vai, praticamente, destruir a chance de haver greve. De acordo com a lei, os trabalhadores teriam de avisar a patronal 72 horas com antecedência da greve, e o patrão teria este tempo livre para perseguir, ameaçar e contratar substitutos para os grevistas. A greve não poderia mais usar o método democrático do piquete (que garante que a decisão da assembléia seja respeitada pela categoria), além deliberar demissões aos trabalhadores e multas ao sindicato. Lula quer impedir as greves para, logo depois, poder tirar nossos direitos sem que possamos lutar.

 

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