OLIMPÍADAS DA CHINA: POLÍTICA E ESPORTES ANDAM JUNTOS

Foram abertas as Olimpíadas de Pequim! Mesmo aqueles que não costumam acompanhar muito o mundo dos esportes conviverão 1 mês com notícias sobre os mais variados atletas e disputas, além de curiosidades e informações sobre a China. Entre estas discussões, que em geral não chegam até o trabalhador comum, muitas são bem polêmicas. Uma das principais polêmicas é sobre se a China tem ou não condições de sediar um evento destes, já que não garante liberdade política nem democracia a sua população.

Jornalistas reclamam da falta de acesso à internet, manifestantes levantam a bandeira da independência do Tibet (região ocupada pelo governo chinês), e tudo isso abre espaço para a discussão sobre boicotar as Olimpíadas, idéia hoje já abandonada pelos principais países. Para os trabalhadores, todo este debate é muito importante, além de discutirmos a própria essência desse tipo de competição.

China: ditadura capitalista

A China, desde a ascensão de um setor da burocracia do partido comunista que pretendia voltar ao capitalismo (restauracionista), em 1978, com Deng Xiaoping à frente, combina repressão política a sua população com lucros e defesa dos interesses da burguesia imperialista. O caráter operário e dos trabalhadores do Estado chinês (mesmo que com repressão, falta de democracia e muitas limitações) foi perdido, e a China virou um Estado burguês, ainda que protegido por um partido único, baseado em uma economia estatal e sob o discurso do comunismo. O curioso é que isso começou antes de Deng.

Ainda nos tempos de Mao Tsé-Tung, os Estados Unidos, de vilão e inimigo, tiveram seu tratamento mudado, com a burocracia chinesa sinalizando que poderia abrir mão das conquistas da revolução socialista de 1949 em troca de investimentos no país e desenvolvimento capitalista. Esta política, conhecida na época como política do pingue-pongue, foi simbolizada pela visita da equipe americana deste esporte olímpico à China, marcando o reatamento de relações antes rompidas e preparando a visita do presidente Nixon logo depois, em 1972.

De lá para cá, a burocracia massacrou os trabalhadores e estudantes que lutaram para preservar o caráter operário do país e as conquistas sociais. O maior exemplo disso foi o banho de sangue ocorrido em 1989, na Praça da Paz Celestial, com os tanques assassinando quem pedia mudanças. No fim, o capitalismo foi restaurado, e a China cresce num ritmo de10% ao ano, baseada em mão de obra semi-escrava e uma exploração inacreditável. Com a ajuda da ditadura capitalista do ainda chamado Partido “Comunista”, não existem sindicatos livres, direito de greve e liberdade para protestar contra a miséria e exploração das multinacionais que hoje controlam o país. A burguesia chinesa (oriunda em boa parte dos ex-comunistas) transformou o país numa semi colônia dos EUA, para onde as multinacionais levam sua “maquiladoras”, exatamente como no México, e ganham fortunas.

Uma das expressões mais duras dos ataques aos trabalhadores na China é a opressão nacional feita às regiões como o Tibet. No Tibet não se está lutando só por mais autonomia ou independência, mas por liberdade política, salário e investimentos públicos. O Governo reprime o Tibet não para preservar a unidade chinesa, mas para destruir os trabalhadores que lutam, e que podem ameaçar o capitalismo no país, exigindo governar eles próprios; além de melhorias sociais. A China agride o Tibet enquanto faz festa para Taiwan, que é reivindicado como Chinês, mas não só age como país próprio, como é um apêndice do Japão e dos EUA na região.  Isso mostra que o inimigo do governo chinês não é a independência, mas o trabalhador que protesta contra a exploração.

Os ditadores julgando a ditadura

        Independente dos crimes da burocracia chinesa, a qual nós e os trabalhadores podemos e devemos condenar, e contra os quais devemos lutar, fica a pergunta: que moral tem o imperialismo para abrir a boca ou organizar boicote contra a China?

Desde o início desse ano pudemos acompanhar diversos protestos ocorridos em todas as partes do mundo contra o governo chinês e sua política interna e externa. Os manifestantes exigiam medidas de punição e repúdio à China, até que essa se comprometesse a rever suas “atitudes”. Nós nos somamos aos trabalhadores que repudiam os crimes contra os explorados na China. Nos somamos aos que, tentando deter a tocha olímpica por onde ela passou, simbolizavam a luta pelo direito à auto determinação no Tibet. Por outro lado, nós repudiamos e combatemos o imperialismo, que tenta atacar a China, como a qualquer país pobre (o que a China ainda é; pois ricas são apenas as multinacionais que lá se instalam).

É ridículo ver políticos norte-americanos repudiando a ocupação chinesa no Tibete, enquanto se calam diante do que os EUA fazem no Iraque e no Afeganistão. Diversos países no mundo inteiro mantêm exércitos de ocupação em outras regiões, violam direitos humanos, restringem liberdades civis, e nada é dito. Porém, se a denúncia é dirigida a um antigo estado-operário, pobre, semi-colonial e de economia periférica, é muito mais fácil protestar.

Os Estados Unidos são os maiores assassinos e genocidas da História e da atualidade, sendo responsáveis, inclusive, pelos crimes atuais do governo chinês, seu parceiro comercial. Por isso, por mais hipócrita que fosse, nem sequer o ensaio de boicote às Olimpíadas foi levado adiante: porque os EUA não podem atrapalhar seus negócios na China.

Ouro para os ricos; latão para os pobres

Outro ponto importante a debater, em geral ignorado pelos ativistas, que se consideram de esquerda, é o próprio “espírito olímpico”. Países sede dos jogos investem milhões na preparação de sua estrutura, para receber tanto atletas como turistas. Em países subdesenvolvidos como China, África do Sul (sede da Copa do Mundo de Futebol em 2010) e Brasil (sede da Copa de 2014), isso significa que seus governos terão de tirar fortunas do orçamento público para bancar as festas.

Fica aqui a pergunta: como o governo arrecada tantas verbas para a construção de ginásios, estádios e estruturas faraônicas, mas não tem o mesmo sucesso para investir na infra-estrutura de hospitais públicos, por exemplo?  Tudo é uma questão de prioridades.

Os governos comprometidos com a conservação do capitalismo não têm qualquer ambição de acabar com a miséria e a desigualdade social, pois mantêm sua riqueza e a de seus aliados dessa forma. Também não têm compromisso com o lazer ou o esporte para a maioria da população. Por isso, não se investe em quadras esportivas nos bairros, não se constroem ginásios nas escolas, nem se garante tempo e renda suficiente para que o trabalhador possa se dedicar a exercícios e esportes de sua preferência, que seriam essenciais para cuidar de sua saúde, proporcionando lazer também.  Nada disso é feito: só se gasta com estruturas “profissionais”, algumas que são desmanchadas depois das competições e outras que são proibitivas ao trabalhador, pois só quem irá entrar para assistir, serão os que pagarem muito caro.

E quem são os financiadores e setores defendidos por esses governos? Os empresários e banqueiros. Ninguém lucra mais do que eles com o “espírito olímpico”. São milhões investidos no patrocínio de atletas e estabelecimentos, obtendo uma propaganda e uma divulgação imensas que acabam saindo baratas em função dos lucros que atraem. O esporte, os atletas e a festa entre os povos viram uma só coisa: mercadoria.

Os esportes e os trabalhadores

Assim, acabaram fazendo das Olimpíadas uma disputa de patrocinadores e um desfile de marcas, deixando para o esporte e para a arte um papel secundário. O esporte, que na sua origem cumpriu um papel para o desenvolvimento físico e mental do ser - humano, contribuindo na sua socialização com outros indivíduos, vira um espetáculo de disputa por prêmios em dinheiro, aonde se busca ganhar a qualquer custo.

O aumento nos casos de doping está intimamente relacionado a isso. Assim como o a compra de resultados, ambos cada vez mais comuns. Mesmo do ponto de vista somente da competição, não ganham os melhores, mas os com mais recursos, ou com a ajuda do juiz ou estimulantes ilegais.

Logo, os protestos contra as Olimpíadas na China não têm qualquer fundamento se dirigidos única e exclusivamente a esse país. Jogos olímpicos com outro espírito e outros objetivos não dependem de um país somente, e sim da construção de uma nova sociedade mundialmente, sob um novo modo de produção. Quando o ser - humano puder desenvolver-se plenamente, física e intelectualmente, os esportes poderão tomar outro caráter, assim como as competições. Isso, sob o capitalismo, é impossível, por se tratar de um modo de produção explorador e alienante, onde tudo é movido a dinheiro.

Para nós, o esporte, ao contrário de falsas consciências e ilusões, como a religião ou a alienação em geral, é importantíssimo. O esporte desaliena, educa, socializa e desenvolve a pessoa. Mas, no capitalismo, ele gera rivalidades, violência, exploração e lesões; e mercantiliza o que deveria ser um momento de felicidade. A sociedade que buscamos terá mais tempo para a ciência, as artes, o lazer e o esporte, sem dúvida. Mas um esporte completamente diferente da caricatura que vemos hoje. Essa realidade só poderá concretizar-se com uma revolução socialista, que coloque os trabalhadores no poder, e construa outra sociedade, socialista.

 

 

 

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