A ELEIÇÃO PASSOU, E O POVO TRABALHADOR SEGUE NA MESMA
As eleições para prefeito e vereador deste ano foram ainda mais desinteressantes do que as últimas. Mesmo que, a rigor, os votos fossem decidir os destinos da cidade de cada eleitor, o que se viu foi a população completamente distante e alheia à disputa entre os mesmos partidos.
Como era de se esperar, na maioria dos municípios ganharam os candidatos com maior financiamento de campanha, dos grandes partidos e com mais tempo na TV. O que ficou, para o trabalhador, porém, foi que, ganhando quem tenha ganhado, sua vida seguiu igual. As promessas feitas em campanha enganam cada vez menos gente e ao que assistimos foi à eleição mais sem sal e desprezada pela participação popular.
Uma onda de nulos, brancos e abstenções
Desde a retomada da democracia, nos moldes que vivemos hoje, na década de 80, nunca foi vista uma eleição em que a maioria da população deu tão pouca atenção à disputa e escolha de candidatos. Este fenômeno é explicado pelas administrações dos partidos, que, ganhe quem ganhar,acabam sempre sendo iguais no essencial, com apenas pequenas diferenças que não alteram a vida de ninguém. PT, PMDB, PSDB, PTB, DEM: todos eles, já governaram e foram corruptos, descumpriram promessas e atacaram os trabalhadores. Os outros partidos, com a mínima chance de se eleger que seja, ou já governaram e fizeram a mesma coisa, ou já se aliaram a governos que fizeram essas mesmas coisas.
Ou seja, o trabalhador, em diferentes graus, já percebe que as eleições são um jogo de cartas marcadas, em que sua opinião não vale nada, e que nada do que ele escolher vai ser posto em prática, independente de quem ganhara eleição. Eles, os partidos e candidatos, são todos iguais! É isso que cada vez mais gente conclui.
O resultado disso, além da apatia nestas eleições, foi o aumento das abstenções, votos nulos e brancos. A soma de todos que resolveram simplesmente não votar em ninguém, mesmo o voto sendo obrigatório no Brasil, em um dia que não é útil, tem passe-livre em muitas cidades e, ainda por cima, com toda a campanha de propaganda a favor do voto, feita pelo TSE, foi de assustadores 24,66%, nas capitais brasileiras. Quer dizer que somente 75% votaram em alguém, e já é ¼ da população que se recusou a escolher, mesmo entre mais de 30 partidos e dezenas de milhares de candidatos.
Nas últimas eleições este índice já vinha aumentando, mas ainda não tinha chegado a tanto. Em 2004, onde as eleições também foram municipais, o índice de abstenções era um pouco menor, e cresceu em 2008. Os votos nulos e brancos, porém, foram os que mais cresceram, aumentando quase 23 pontos percentuais. Foram 7,47% de nulos e brancos nas capitais este ano, o que é 10 vezes mais que a maioria das candidaturas da esquerda que se apresentou nas eleições, e, em geral, seria o suficiente para ser o 3º lugar em cada município, e com as abstenções, ser o 2º. Em alguns deles, em quase todos os estados brasileiros, os brancos e nulos, somados, ganharam as eleições! Juntando-se com as abstenções, multiplicam-se o número de locais onde a maioria não votou em ninguém.
Em cidades como o Rio de Janeiro, 30,73% não votaram! Em São Paulo (22,25%), Belo Horizonte (28,93%), Salvador (27,8%), Porto Alegre (23,95%), Belém (25,67%), Goiânia (24,5%)... O que podemos ver é que o percentual de quem escolheu não escolher os mesmo de sempre foi gigantesco em todas as regiões do Brasil. E, ao contrário do que se poderia pensar, de que estes índices é de quem "não sabe votar", os números provam o contrário. Foram nas capitais, e mais ainda nas grandes capitais, que mais gente se absteve ou anulou o voto. E são nestas cidades que mais pessoas são alfabetizadas, têm acesso aos meios de comunicação e à campanha eleitoral, além de estarem mais familiarizados com máquinas e ter que digitar números,como exige a urna eletrônica.
Os números não mentem: no RJ, quase 13% anularam ou votaram em branco! Quer dizer: a pessoa sai de casa, gasta tempo até a sessão eleitoral, espera sua vez, e ... vota nulo! Isso com toda a campanha do governo e Justiça Eleitoral dizendo que quem não vota não é cidadão, que o voto nulo não vale mais, que isso e mais aquilo... É um choque para a burguesia, os empresários, políticos e poderosos em geral que isso ocorra.
O capitalismo, e o regime democrático-burguês, como se chamam os sistemas que temos no Brasil, em que, aparentemente, todos escolhem os governantes, mas, na prática, só ganham os mesmos de sempre, com dinheiro e tempo para campanha, estão em crise. Na lógica dos banqueiros e dos donos do poder, é extremamente perigoso que se votem em candidatos revolucionários ou simplesmente se vire as costas às eleições.
Os candidatos revolucionários defendendo um programa revolucionário não existiram nestas eleições. Os que tentaram se aproximar disso tiveram votações horrorosas. Em compensação, a onda de abstenções, nulos e brancos mostra um fenômeno importantíssimo e progressivo de negação desse sistema.
É claro que há gente despolitizada neste percentual, como em todas as candidaturas. Mas o crescimento deste voto é uma clara demonstração de que as pessoas não querem mais o que está aí. A desilusão com o PT, e a mudança de siglas no poder, mas com os mesmos resultados, causa esta "ruptura silenciosa" com a democracia burguesa. Isto ainda não é tudo, mas já é muita coisa.
As pessoas não estão dispostas a fazer uma revolução, ou mesmo derrubar governos, mas já perceberam, em sua maioria, que as eleições não vão mudar suas vidas. Podemos dizer, com certeza, que muitos dos que votaram em alguém, também fizeram um voto contra o candidato pior. Votaram sem expectativa, sem ilusões de melhora. Votaram no menos pior, ou "por votar", como se diz.
Esta maioria, que "vota por votar", ou vota de "nariz tapado", ou não votou, ainda não sabe o que apóia, mas já sabe o que rejeita: estas eleições fajutas e que não mudam a vida de ninguém. Isto é bom e deve ser comemorado. Nosso papel não é re-convencer as pessoas de que podem mudar, ao votar. É o de concordar com quem já compreendeu isso, mas fazer estes trabalhadores avançarem para a compreensão de que só a luta e a revolução mudam a vida, e que devem se organizar em cada bairro, escola e fábrica, e se integrar ao partido revolucionário que defende isso.
Ganha quem tem dinheiro: os corruptos, os vendidos e os que nos exploram!
Os resultados da votação eleitoral, por mais distorcidos que sejam, pelo percentual de quem não vota e pela "fulanização" das eleições municipais, em que muita gente vota na "pessoa", e não no partido, mostra um processo interessante.
Pudemos constatar o grande número de prefeitos reeleitos, de vitórias de partidos e candidatos apoiados pelos governos, tanto o de Lula como o de governadores. Mais do que isso, os partidos que mais cresceram ou se fortaleceram foram os grandes, como PT, PMDB e PSDB. Isso torna a realidade eleitoral brasileira ainda mais concentrada.
Partidos como o PDT quase sumiram. O discurso nacionalista e desenvolvimentista que este partido defendia morreu antes mesmo de Brizola, e hoje é defendido mais pela Frente de Esquerda do PSOL, com 1% dos votos, do que pelo próprio PDT. O PCdoB, que tentou se tornar mais independente do PT, teve resultados bem abaixo da expectativa.
São 5 ou 6 partidos que controlam a vida em quase todas a s cidades, estados e no país. E, todos eles, são aliados uns dos outros, e recebem dinheiro dos mesmos empresários. Estas eleições marcaram um salto no dinheiro entregue por banqueiros, empresários e empreiteiras, por exemplo, aos candidatos. Do DEM ao PSOL, estavam todos vendidos aos capitalistas, e contra os trabalhadores.
Mais uma vez, foram eleitos candidatos envolvidos em corrupção, uns já condenados e outros até mesmo presos! A tentativa de "moralizar" as eleições com a divulgação da "ficha suja" dos candidatos não funcionou, e caiu no ridículo. A própria lista era uma farsa, pois, segundo ela, Lula, Serra (SP), Crivella (RJ) e Yeda Crusius (RS) teriam ficha limpa. Mesmo envolvidos no mensalão, roubalheira das privatizações, cumplicidade com o tráfico e desvio de verbas públicas, estes políticos não estavam ou não estariam na "lista suja".
Quer dizer: as eleições são isso mesmo: uma quadrilha enfrentando a outra e, ganhando quem ganhar, pouco importa. Quem perde convive "democraticamente" ou mesmo é convidado para entrar no governo de quem ganhou.
A unidade dos políticos não se dá apenas pela (falta de) ética. A unidade dos partidos, e o que torna eles todos iguais, é que o sistema que defendem é o que existe hoje. Todas as candidaturas se apresentavam como parte deste sistema, tentando melhorá-lo por dentro, o que é impossível. Não dá para mudar nada com os contratos públicos que beneficiam grandes empresas, com uma Câmara que é tomada por empresários ou testas de ferro postos lá para defender os ricos, nem com uma Justiça que só protege os burgueses.
Fica a lição de que os trabalhadores acertaram quando não votaram: os trabalhadores não tinham candidatos nestas eleições!
A esquerda das eleições fracassou
Os candidatos que representavam a esquerda fracassaram nestas eleições! Esquerda é um termo vago, surgido no processo da Revolução burguesa na França, mas que, a grosso modo, expressa a faixa política dos que defendem melhoria sociais, combate às injustiças, defesa dos oprimidos, da liberdade dos povos, etc. Estes critérios, além de vagos (pois a "direita" também diz defendê-los), não são cumpridos quando a esquerda chega ao poder, como ficam claros os exemplo do PT no Brasil, e em dezenas de países na Europa e América Latina.
O critério científico, que divide realmente a sociedade, é o de classes sociais. De um lado estão os trabalhadores, que produzem a riqueza, mas só ganham um parte dela, sob a forma de salário, sendo explorados. E há os burgueses, que são os grande patrões, empresários milionários, banqueiros, etc. Em geral, a classe dos pequenos proprietários também é explorada e vítima do capitalismo, mas é a que mais diferenças tem entre si.
Nas eleições, portanto, há o campo "operário",dos trabalhadores, e da burguesia. Muitos partidos, mesmo de "esquerda", genericamente, defendem programas burgueses, sejam diretamente de conservação, ou sejam, de mudança do que está aí. Pode-se propor mudanças, mesmo radicais que, se isso não fizer parte de um programa que represente as necessidades dos trabalhadores, entre elas romper com o capitalismo como a mais necessária, e denunciar as eleições em si mesmas, agitar o combate aos governos que existem hoje, além de preparar as lutas sociais, esse programa ainda é burguês.
Nestas eleições, infelizmente, não existiram alternativas dos trabalhadores. Existiram candidaturas de "esquerda", lideradas pelo PSOL a nível nacional, coligado com o PV burguês, o PCB e o PSTU, alternadamente. Mas esta "Frente de Esquerda", que, pelo nome diz tão pouco como uma "Frente Vermelha" ou "Frente Popular" (nome que o PT sempre usou), é burguesa, pois defende a ética e o desenvolvimento dentro do capitalismo. Não são candidaturas socialistas, de fato, revolucionárias, de ruptura. São de oposição ao atual estado de coisas do capitalismo, não contra ele todo. Mesmo onde o PSTU saiu sem o PSOL, por exemplo em Porto Alegre, saiu porque o PSOL não quis, e se coligou com o PV. O PCB, aliado do PSTU em Porto Alegre, estava coligado com o PP de Maluf, e aliado de Lula em Alvorada, cidade há poucos Km de Porto Alegre. No 2º turno, o PCB apoiou o PT. Nacionalmente, os 3 partidos de "esquerda" estiveram juntos, em candidaturas que defendiam o capitalismo humanizado, apenas.
Este foi o fracasso maior da "esquerda". O fracasso político, de quem se rendeu à democracia burguesa e deixou órfãos os trabalhadores que são explorados pelo capitalismo e estão fartos dessa política, que só mantém tudo como está.
O 2º fracasso da esquerda da eleição foi a votação em si. O PSOL, que imaginava eleger muitos vereadores e fazer uma bancada nas principais capitais, com prefeitos bem votados, decepcionou. Em quase todo o país, os candidatos a prefeito do PSOL tiveram sofríveis votações, em média pouco acima de 1%. Em SP foi quase metade disso, no RJ um pouco mais... De 26 capitais, somente em 8 fez mais de 2%, e somente em 2 ultrapassou os 5%. Para quem havia feito 6% nas eleições presidenciais, foi um banho de água fria. Da mesma maneira, os vereadores eleitos são cerca de uma dúzia. Em SP não se elegeu ninguém, e nas demais, ou ninguém foi eleito ou foi um só, com 3 ou 4 exceções. A diferença desse quadro se deu em Porto Alegre, onde obteve 7% do total do eleitorado e elegeu 2 vereadores. Em nenhum outro lugar se teve uma votação tão "grande" (e ainda assim muito longe dos demais) e se elegeu 2 parlamentares. No RS, porém, é onde o PSOL foi mais à direita,coligando com o PV e aceitando dinheiro da multinacional Gerdau e da rede de supermercados Zaffari, uma das maiores empresas gaúchas. Quer dizer, quem ainda se salvou no PSOL foi quem mais parecido com o PT se tornou: fracasso eleitoral duplo!
O PCB dispensa maiores comentários, pois tornou-se uma sombra da sombra do que já foi. Mesmo coligado em muito lugares fez votações muito pequenas, não elegeu ninguém e foi um apêndice do PSOL ou PSTU na maioria dos lugares, com exceções tanto para onde saiu sozinho, como onde coligou com a direita e o governo.
O PSTU, que já expressou candidaturas contra tudo que está aí, serviu de ala esquerda das candidaturas de Frente Popular do PSOL por todo o país. Abriu mão de ter candidatos em muitos lugares e de seu programa nos demais. Aplicando a nova "teoria" e orientação interna de "não desprezar o voto", e rejeitar rótulos como "Contra burguês, vote 16" e "Não queremos só seu voto, mas você na luta", o PSTU jogou-se para conseguir votos nesta eleição. Em muitas cidades, fez materiais caros, adesivos, cartazes e até banners, todos eles com o número bem destacado e o rosto do candidato. Só faltavam as tradicionais palavras de ordem, a política!
Mesmo com a preocupação eleitoral exaltada, o resultado eleitoral foi o pior de todos! O PSTU não elegeu ninguém, e diminuiu drasticamente sua votação. Foi engolido pelo PSOL e perdeu votos para o nulo ou branco também.
Em BH, apoiado pelo PSOL, fez 0,57% dos votos válidos e 0,4% do eleitorado. Nos outros locais, foi 0,8%, 0,4%, 0,2% do eleitorado. Somente em uma capital, mais de 1% do eleitorado votou no PSTU, Aracaju, uma das mais inexpressivas politicamente. Mesmo onde foi "bem", como São José dos Campos (3,47% válidos e 2,8% total), já tivera uma votação grande em 2004, e é muito pouco para um pleito com poucos candidatos, sem disputa com o PSOL, e onde dirige muitos sindicatos.
Comparado com 2006, os números do PSTU são bem piores. Comparado com 2004, que era municipal também, é pior ainda. Em 2004, o PSTU chegou a 4,2% válidos em Macapá, e teve mais de 1% válido em 6 capitais (4 se for sobre o total). O número mais impressionante é o total: para prefeitos, em 2004, o PSTU fez 92808 votos nas capitais. Em 2008 fez 39683, numa queda para menos da metade, mesmo com o eleitorado crescendo! Para vereador, onde concorreu em quase todos os lugares, tinha feito 84990 em 2004, e baixou para 49206 em 2008: despencou! Enquanto isso, o PSOL fez 346.205, quase 7 vezes mais. Em cidades como RJ, o PSOL fez quase 11 vezes mais votos, em Belém quase 10X mais, Fortaleza cerca de 25X mais. Em todas estas cidades, o PSTU é "forte". Em outras o percentual foi de 20X, até quase 80X em algumas capitais.
Os resultados eleitorais não são os mais importantes para os revolucionários. Mas sempre foram usados para que extraíssemos algumas conclusões. Nesta eleição, ainda mais para quem quis a todo custo obter votos, a conclusão é que o PSOL é um aparato eleitoral, com os mesmo vícios do PT, mas sem nadados votos que esse tinha. E que seus aliados além de não eleger ninguém e fazer votações minúsculas, caminham a seu lado para um abismo eleitoral
Os revolucionários nas eleições
O Movimento Revolucionário tem o orgulho de ter chamado o Voto Nulo nestas eleições, e de ter feito uma campanha de massas, neste sentido. Distribuímos dezenas de milhares de panfletos, colamos cartazes, fizemos agitação com som em lugares de concentração pública, mais adesivos, etc. Não priorizamos as eleições, mas soubemos disputá-las com um programa dos trabalhadores, ainda que sem candidatos.
Não viramos as costas às eleições, por mais podres que sejam, pois ainda há ilusões nelas. Fizemos o debate político! Mas viramos as costas, junto com os trabalhadores, aos políticos de sempre, aos conchavos políticos e aos que atacam os trabalhadores.
O Movimento Revolucionário sai vitorioso, política e eleitoralmente das eleições, por ter identificado e estimulado o avanço da experiência das massas com a democracia burguesa, e por tentar desenvolver, ainda que de forma ainda bem inicial, a ruptura direta com este sistema e a construção da revolução socialista.
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