50 Anos da Revolução Cubana: 
a revolução que mudou as Américas

Há 50 anos, em janeiro de 1959, o ditador de Cuba, Fulgêncio Batista, renunciava e fugia do país e a direção do processo revolucionário, articulada sob a forma do Movimento 26 de Julho, um grupo guerrilheiro, tomava a capital Havana.

Cuba, conhecida debochadamente como o "bordel americano" mudava de vez sua realidade. Antes da revolução, empresas americanas controlavam todos os ramos econômicos do país, e também mandavam no sistema político, a começar por Batista.

Este contexto propiciou o surgimento de vários pequenos círculos de trabalhadores e intelectuais contra a ditadura. Alguns deles dentro do próprio país e outros no exílio. Foi o caso do M-26 de Julho, que se organizou no México, dirigido pelos irmãos Castro (Fidel e Raul) e Camilo Cienfuegos. A este grupo se integrou Ernesto Guevara de la Serna, conhecido por El Che, médico argentino recém formado, internacionalista e socialista.

Foi o povo explorado quem fez a revolução

O desembarque do navio Granma em solo cubano, em dezembro de 1956 foi um desastre. A ação foi qualificada por Che Guevara como algo mais semelhante a um naufrágio que a um desembarque. A bordo, "todo o barco apresentava um aspecto ridiculamente trágico". A expedição, que havia sido delatada, foi bombardeada, e sobreviveram apenas 20 combatentes, dos 82 que o navio transportava. Os sobreviventes, entre eles Fidel, Raul, Camilo e Che, conseguiram chegar à região montanhosa de Sierra Maestra. Paralelo à existência do M-26, também atuavam o PSP (Partido Socialista Popular) e o Diretório Revolucionário 13 de Março. Os 3 grupos foram a base do Partido Comunista Cubano. No processo de luta contra Batista, chegou-se  a efetuar uma tentativa de atentado ao ditador (março 1957) e foi realizada uma greve muito forte em julho. Em abril de 58 foi convocada uma greve geral, que não obteve sucesso. De toda forma, as lutas em Cuba não cessavam.  

O M-26, diante da inexistência de uma direção socialista revolucionária, passou a ser visto, neste confuso cenário, como aqueles que podiam derrotar Batista. A combinação de uma situação revolucionária, objetivamente, e de um apoio de massas a uma direção armada é que permitiu a tomada do poder na virada do ano de 58 para 59.

Muitos acreditam que a guerrilha de Fidel e Che, como ficou conhecida pela História, foi-se fortalecendo nos combates e ganhando prestígio popular até que desceu a montanha e foi conquistando e libertando cidade por cidade. Isto nunca aconteceu.

A revolução cubana não foi ganha em combates militares e armados, como uma guerra de libertação a la Nicarágua em 1979 (onde a guerrilha Sandinista era o próprio povo em armas, de massas), ou no Vietnã nas décadas de 60 e 70. Mas, ao mesmo que não foi uma guerrilha de massas, composta pelo próprio povo, também não foi uma guerrilha de foco, que "contagiou" o resto da população com seu exemplo e derrubou o governo. Esta concepção, depois desenvolvida por Che, atribui à guerrilha a capacidade de criar as condições para uma revolução, através de sua abnegação, exemplo e firmeza, o que seriam as centelhas que despertariam a chama revolucionária pelo país todo, independente das condições para isso.

Esta lógica subjetivista, idealista e vanguardista é oposta ao marxismo, que entende que não é o aspecto voluntário, romântico ou do martírio que faz uma classe lutar. Isso serve, com certeza, para empolgar e ganhar alguns indivíduos mais corajosos e ansiosos, mas não para pôr em movimento a classe trabalhadora inteira que, historicamente, luta porque precisa e não porque acha correto.

O papel que a própria guerrilha cubana teve em 1958/59 foi a prova contra o foco. A vitória só veio à medida que se ganhou a confiança das massas cubanas, e o papel de direção de uma crise revolucionária aberta pôde ser ocupado. Assim, a guerrilha conseguiu liderar o processo revolucionário e impôs seu governo após a queda de Batista.

Os limites de uma direção pequeno burguesa

Ao mesmo tempo em que a tomada do poder permitiu a maior e mais rápida transformação social que um país americano já viveu na História, o regime burocrático de Fidel se transformou num enorme entrave à vitória revolucionária em qualquer outro país do continente.

Por um lado, Cuba virou um exemplo em saúde e educação; se transformou numa potência científica e esportiva; deu comida, instrução e condições dignas para todos; extinguiu a miséria, a prostituição e recuperou a dignidade nacional, expulsando os exploradores imperialistas e nacionais, que foram pedir asilo na Flórida.

Por outro lado, o fato de que a revolução não se consolidou no poder através de organismos de poder operário e popular, como os soviets tinham sido na Rússia dos primeiros anos depois de 1917, fez com que o poder que a classe trabalhadora tinha tomado de conjunto fosse expropriado por apenas um setor da classe, reorganizado sob a forma de uma burocracia e controlado por Fidel Castro.

Assim, enquanto o povo trabalhador exigia o esmagamento dos sabotadores da produção, dos espiões imperialistas e dos burgueses, o governo cubano praticava o esmagamento de quem queria avançar a revolução. Quando era necessária uma ditadura contra os inimigos da revolução, para que ela pudesse avançar em Cuba, na América Central e no mundo inteiro, a burocracia de Castro fazia o contrário: constituía uma ditadura contra a direita, mas também contra qualquer trabalhador, estudante e membro do povo pobre que lutou contra Batista, arriscando suas vidas e tendo sido os que permitiram à guerrilha chegar a Havana.

Uma direção pequeno burguesa, guerrilheirista de vanguarda, e deslocada da massa, inevitavelmente conduz a um regime burocrático após a tomada do poder.

O resultado da direção da Revolução Cubana ter ficado sob o M-26 foi uma postura ativa de desmobilização das lutas internacionais, como no caso da revolução nicaragüense, em que o próprio Fidel tranqüilizou o mundo capitalista dizendo que "a Nicarágua não será uma nova Cuba". O regime de Fidel impediu a democracia operária, a existência de sindicatos, associações estudantis e de moradores livres e revolucionários. A repressão à burguesia justificou a repressão à base operária.

Os desdobramentos dessa condução, entre outros desvios do caminho socialista, foram a repetição de preconceitos e práticas de opressão aos trabalhadores, como a manutenção de um governo formado por uma minoria branca, apenas de homens, em geral de origem intelectual e de quadros aristocráticos da classe operária. A degeneração maior foi a repetição da explicação stalinista sobre a homossexualidade e a repressão aos homossexuais como pervertidos e doentes do capitalismo.

Por uma 2ª revolução contra o capitalismo

Neste momento em que Obama toma posse nos Estados Unidos, e que Fidel está doente, surgem muitas dúvidas sobre o destino de Cuba. Raul Castro, principal dirigente de Cuba atualmente, já declarou que espera reabrir o diálogo com os EUA sem "nenhum tipo de condição". Com isso, o governo cubano deixa bem claro que se dispõe a perder ainda mais do que a revolução conquistou, desde que reate relações com o inimigo imperialista. "Nenhuma condição" significa poder permitir a presença dos EUA em Guantánamo, aceitar discutir a devolução de propriedades de burgueses cubanos e estrangeiros antes de 59, etc.

Cuba já é capitalista, desde que acabou com a planificação econômica e com o monopólio estatal do comércio exterior. Em seus lugares vieram a economia de mercado capitalista e as privatizações, para empresários europeus e norte-americanos, através de testas-de-ferro mexicanos e canadenses. Com a disposição explícita de Raul de ceder ainda mais, a prostituição, miséria e submissão de Cuba, que voltaram junto com o capitalismo, tendem a aumentar. 

A saída para Cuba é novamente organizar uma revolução, de massas e, agora, com uma direção revolucionária e operária à frente. Este é o desafio dos revolucionários para Cuba. Os céticos que dizem que é impossível, e que "Cuba é pequena, atrasada, dependente e está isolada", repetem os argumentos dos que, mesmo depois da façanha de 1959, temiam seguir lutando.

Essa política da covardia, disfarçada de cautela e prudência, já levou ao desastre uma vez, quando exatamente estas justificativas servirem de pretexto para não exportar a revolução cubana, facilitando seu isolamento e estrangulamento. Não se pode permitir que, mais uma vez, os reformistas e conciliadores encabecem a luta em Cuba. O futuro de Cuba depende de uma nova revolução socialista. Depois de 1959, Cuba se tornou maior, mais desenvolvida e apoiada internacionalmente, exatamente porque teve coragem e ousadia. O caminho para não recuar continua o mesmo: é preciso avançar e seguir em frente! 

 

 

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