8 anos depois, o que o Fórum Social Mundial tem a dizer?

            Desde a 1ª edição do Fórum, em 2001 em Porto Alegre, o governo FHC acabou, Lula foi eleito e reeleito; Bush também foi reeleito e agora escorraçado a sapatadas, assumindo Obama, o primeiro negro da história sendo eleito presidente dos Estados Unidos. Nestes 8 anos, caíram as torres gêmeas, o Afeganistão e o Iraque foram invadidos, mas até hoje os EUA não conseguiram vencer nenhuma das duas guerras, além de Israel, seu aliado principal no Oriente Médio, ter perdido sua primeira guerra desde sua fundação, para o Hezbollah (Líbano) em 2006 e estar vendo o fortalecimento da resistência palestina.

            Numa breve avaliação, podemos dizer que o mundo mudou bastante nestes 8 anos: o neoliberalismo foi desmoralizado, com o próprio imperialismo adotando o intervencionismo estatal, assim como governos de "esquerda" foram eleitos em quase toda América Latina. Esta talvez seja, aliás, a grande notícia e diferença para o Fórum: seus organizadores chegaram no poder. E o que aconteceu? Infelizmente, tudo seguiu como antes. A miséria, a mortalidade infantil e a exploração, por um lado; a invasão das multinacionais, lucro recorde dos bancos e a corrupção generalizada, de outro lado; tudo seguiu como era.

            Neste sentido, temos que ser claros: a estratégia reformista e eleitoral do Fórum Social Mundial, assim como suas receitas, suas fórmulas, suas táticas e sua direção, principalmente, fracassaram! Toda sua linha "light", institucional, de disputa parlamentar, foi para o buraco junto com as experiências desastrosas dos governos de Frente Popular no continente.      

            Mais do que nunca, outro mundo ainda é possível, e necessário. Mas isso só poderá ser conquistado se o povo trabalhador passar por cima de quem o explora, o que, hoje em dia, significa atropelar os próprios dirigentes do Fórum.

Mais vazio, mais caro e mais conciliador de classes

Com praticamente apenas a metade de inscritos do último Fórum sediado no Brasil, em 2005, o o FSM de 2009, em Belém, será lembrado como o Fórum mais vazio dos últimos tempos, mesmo sendo também o mais caro e governista. O governo Lula está investindo R$ 145,3 milhões nesta edição! Em 2005, por exemplo, o investimento do governo tinha sido de apenas R$10 milhões. O governo Lula investe esse dinheiro todo, pois sabe que o evento foi concebido como palanque pré-eleitoral, e sabe que, como patrocinador absoluto, o FSM de 2009 reproduz a linha chapa-branca que o Planalto quiser.

O Fórum foi criado por diversas organizações de "esquerda" no mundo, em especial o Le Monde Diplomatique francês e a DS, corrente interna do PT (Brasil). Tem como slogan "Um outro mundo é possível", e sempre se caracterizou por resoluções finais ambíguas e vagas, sem compromisso com nenhum programa mais concreto. Na prática, sempre sustentou a política eleitoreira de disputa parlamentar e de Frentes Populares, como tática de se chegar ao poder.

O termo "esquerda" hoje não nos diz muita coisa, pois mesmo partidos ditos de esquerda como o PT, aplicam um programa econômico e social igual ao de partidos de direita; e o que ficou de esquerda foi só a origem, e poucas frases rituais, em dias de festa, que lembram esse passado.

A ideologia que defende a direção do Fórum, é idêntica a que aplicam os governos de Frente Popular na América Latina, ou seja, a humanização do capitalismo. Manter esse discurso ainda hoje é mil vezes pior que em 2005, pois a crise econômica, a luta dos palestinos contra o estado de Israel no Oriente Médio, e a própria realidade destes governos, demonstram que é impossível humanizar o capitalismo. É necessário destruí-lo!

Reformismo do século XXI no Fórum Social Mundial

Ao dizer que "um outro mundo é possível", sem apontar alternativas de ruptura com o modo de produção capitalista, e nem dizer que mundo seria esse, o Fórum Social Mundial, em sua essência, serve como um auxiliar da burguesia no que se refere a implementar ataques aos trabalhadores no mundo todo.

A ideologia defendida pelas organizações que dirigem o Fórum é a velha formula do reformismo, de que é necessário aglutinar forças para colocar representantes do "povo" dentro das instituições democrático-burguesas; ir avançando aos poucos; e, num dia distante, rumar a uma sociedade socialista.

Esta tese vem corroendo, enfraquecendo e traindo a luta dos trabalhadores de todo o planeta há mais de 100 anos!

Todos os países em que os reformistas defenderam esta posição com algum peso, sem exceção, já os colocaram no poder, e nenhum deles teve qualquer mudança para melhor!

Na América Latina, essa teoria reformista vem sendo testada com resultados trágicos. No Brasil, Lula canalizou todo o ódio a FHC para as urnas, e, no governo, atacou aposentados, arrochou salários, privatizou patrimônio público, promoveu recordes de corrupção e garantiu lucros estratosféricos aos banqueiros. Na Venezuela, Equador e Bolívia, o "socialismo do século XXI" reconstruiu o Estado burguês, em muitos casos completamente arrebentados, com presidentes destituídos, congressos desmoralizados e instituições sendo postas em xeque por insurreições e processos revolucionários de massa. No poder, as Frentes Populares e governos nacional-desenvolvimentistas destes países, fizeram murchar as lutas, cooptaram suas entidades e mantiveram o grosso da propriedade e do controle da sociedade e produção na mão dos mesmos capitalistas nacionais e multinacionais.

Não é à toa que esses governos são grandes incentivadores do Fórum Social Mundial. O FSM, que antes fazia campanha para que se elegessem esses setores, agora tenta criar um ambiente de apoio às suas medidas contra os trabalhadores.

O primeiro teórico mais prestigiado a defender essas idéias que caracterizam o reformismo (aqueles que se dizem socialistas, mas defendem a via parlamentar e gradual, contra a estratégia revolucionária) foi Eduard Bernstein, dirigente social-democrata alemão. A lógica reformista, num primeiro momento fascinante aos trabalhadores, pois lhes dispensa o sacrifício de uma revolução, consiste basicamente em que: "primeiro conseguimos alguns representantes dos trabalhadores no parlamento, aí vai-se aumentando esse número até tornar-se maioria, tornando-se assim possível transformar o capitalismo em socialismo".

É bom recordar que o oportunismo de Bernstein tinha uma raiz material, pois o capitalismo ainda estava em seus últimos momentos de crescimento, e, muito pressionado, ainda podia conceder alguma conquista à classe trabalhadora, ou seja, de garantir reformas. Mesmo com um "álibi" a seu favor (a possibilidade real de obter alguma reforma), porém, Bernstein foi devidamente atacado e derrotado pelos verdadeiros socialistas, como Lênin e Rosa Luxemburgo, que mostraram que só a revolução socialista pode mudar a vida e o mundo. As reformas parciais obtidas do capitalismo até o início do século XX só foram conquistadas com lutas sangrentas e não tinham espaço para ir mais adiante. Cada passo caminhado tornava mais difícil o passo seguinte, pois o capitalismo ia esgotando sua capacidade de concessão.

Ao longo da História, de formas diferentes, o raciocínio oportunista do reformismo voltou a aparecer. Na Rússia, por exemplo, antes e depois da revolução socialista de 1917, os Mencheviques defendiam a "tomada" do poder gradual, com a formação de um governo provisório em colaboração com a burguesia, para desenvolver o capitalismo. Lênin e os Bolcheviques defendiam a construção de Soviets, organismos de massas da classe trabalhadora. Os dois grupos chegaram ao poder. Sabemos quem transformou a Rússia!

Os neo-reformistas atuais, dirigentes do Fórum, cometem uma grande injustiça com Bernstein, pois são piores ainda que o oportunista alemão. Isso porque, os reformistas de hoje são fruto de um capitalismo já em decomposição, e que há quase cem anos já não tem capacidade de conceder coisa alguma. Por isso, sua estratégia conciliadora não só é um obstáculo à tomada do poder revolucionária, como é a representante oficial dos governos inimigos dos trabalhadores na América Latina.

Um outro mundo é possível somente com uma direção socialista e revolucionária!

Para que seja vitoriosa a luta dos povos e da classe trabalhadora por justiça, emprego, soberania e fim da exploração, é preciso destruir o atual parlamento burguês e todas as instituições deste estado, e constituir a mais ampla democracia que a História já nos apresentou: A democracia operária, baseada nos organismos da classe trabalhadora (e não numa farsa eleitoral em que só os mesmos concorrem e têm dinheiro e tempo na TV para se eleger).

Os trabalhadores e a juventude devem receber o Fórum como uma oportunidade importante para debater experiências e aprofundar a luta direta e a oposição aos governos capitalistas da região. Isso passa, necessariamente, pelo repúdio às direções que controlam o Fórum, pois elas são hoje responsáveis por aplicar brutais ataques ao defenderem o governismo.

Felizmente, a nova organização internacional dos trabalhadores surge das ruas, e está passando por fora da burocratização e oportunismo da direção do FSM. Por isso a alternativa dos trabalhadores não surgirá do Fórum Social Mundial, assim como não vão ser os protagonistas do Fórum, Lula, Chávez e Evo Morales, que vão resolver alguma coisa. A alternativa ao programa do Fórum Social Mundial deve surgir da luta real da classe trabalhadora e ter um caráter socialista e revolucionário.

Aos trabalhadores e à juventude presentes no Fórum, nossa mensagem sempre foi a de nos unirmos para lutar contra o capitalismo. Na batalha, os aliados e os inimigos vão se delineando. Hoje em dia, seus rostos já estão bem nítidos. É preciso gritar bem alto: o reformismo faliu; é preciso extinguir sua influência do movimento de massas e construir a revolução socialista!

 

 

 

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