Paraíso no buraco! Grécia à beira da quebradeira geral!
Já não se pode dizer que todo mundo gostaria de estar na Grécia neste momento. O país, famoso pela civilização helênica, sua história riquíssima, com monumentos, museus e cultura invejados, e paisagens paradisíacas, com ilhas e praias admiradas em todo o mundo, hoje é sinônimo de desemprego, dívidas e de conflitos sociais violentos.
A Grécia virou o patinho feio do capitalismo e da União Européia (UE). Mas não está sozinha. Junto dos gregos, afundados em dívidas e com um governo que não consegue pagar suas contas e está atacando brutalmente os trabalhadores, a Irlanda, a Islândia e Dubai, todos apresentados como modelos de rápido e bem sucedido crescimento, já tinha quebrado completamente.
Agora, a crise chega a países maiores. A Grécia puxa a fila, mas atrás vem Portugal, Itália, a própria Irlanda e a Espanha (Spain, em inglês). Juntas, formam o grupo a que se apelidou de “PIIGS”, abreviatura formada pela inicial de cada país. O apelido, propositalmente, também se refere aos “porcos” (pigs, em inglês), brincando com a situação atual das contas destes países.
O fato é que a antes inabalável UE, que impunha rígidos critérios para aceitar novos membros e que era disputada por todos, agora está ameaçada de explodir. Já sob uma forte crise econômica, em que registra uma seriíssima recessão, agora este bloco econômico sofre a ameaça de países como a Itália e a Espanha necessitarem de recursos bilionários e arrastarem todo o continente para o fundo do poço ainda mais.
Da tranquilidade à luta de classes aberta!
Todos os olhos de diversos analistas estão voltados para a Europa, e principalmente para os PIIGS, os países que podem “sujar” o capitalismo com a quebra de suas economias, deixando de pagar suas dívidas.
Mas os olhos não estão mais somente voltados para as bolsas de valores e todos os índices econômicos desses países. Agora, já se começam a observar fortes mobilizações da classe trabalhadora, como há muito tempo não se via. E a Europa passa a cumprir novamente um papel fundamental na luta de classes mundial.
A Grécia vem sendo protagonista também em mobilizações, que estão sendo bastante massivas. No último dia 24 de fevereiro, cerca de 2,5 milhões de pessoas saíram às ruas para protestar contra todos os ataques que a classe está sofrendo. Este número é fantástico, ainda mais se considerarmos que o país tem pouco mais de 10 milhões de habitantes.
A paralisação de 24 horas organizada pelos sindicatos dos setores públicos e privados, representando metade da força de trabalho do país (5 milhões de trabalhadores, ao total), foi responsável pela paralisação completa do país.
Aviões, tanto os que entravam no país quanto os que saiam, tiveram seus voos cancelados; os ônibus responsáveis pelo transporte público das cidades funcionaram apenas para levar os manifestantes até as concentrações das marchas; e até mesmo os barcos que fazem as ligações entre as ilhas gregas também tiveram suas atividades suspensas. Setores inteiros de empresas, tanto públicas quanto privadas, cruzaram os braços e se uniram para lutar contra o governo.
O grande ponto alto de toda a mobilização foi uma grande marcha pela capital Atenas, onde dezenas de milhares de trabalhadores marcharam em direção ao Parlamento grego empunhando e gritando frases como: “Pessoas e suas necessidades acima dos mercados!” e ainda ”Sem sacrifício! Os ricos devem pagar pela crise!”; entre outras.
A juventude, além dos trabalhadores, tem cumprido papel fundamental nas mobilizações desse país e da Europa como um todo. O futuro que prometerem aos jovens não existe mais, e nem o emprego de seus próprios pais está garantindo. Por isso, desde 2005, quando os jovens franceses que vivem em bairros periféricos ao redor de Paris começaram a incendiar carros, um dos países em que a prática mais criou adeptos foi na Grécia, onde a juventude, para chamar a atenção do governo para suas necessidades, começou a queimar carros e prédios públicos.
Hoje, a juventude é linha de frente em cada ato e passeata que se tem notícia pelas ruas da Grécia. Ao mesmo tempo, porém, os setores tradicionais seguem sendo os principais responsáveis políticos, ao terem parado a produção e circulação por um dia inteiro, e serem o ponto central da desestabilização econômica e política, contra a saída dos ricos, de fazer com que os trabalhadores paguem pela crise.
Hoje, a luta é por romper com a apatia e sair às ruas, passando por cima das direções traidoras, unificando as lutas e generalizando por todo o continente os protestos e manifestações anticapitalistas.
A crise está longe do fim
A crise econômica, como pôde se perceber, não acabou, e por um longo tempo os trabalhadores pelo mundo a fora irão conviver com esse fantasma, que assusta mais em um país do que no outro, mas sempre estará presente.
Considerando que os motores europeus são Alemanha, França e Inglaterra, os países da “periferia” europeia estão cada vez mais no vermelho, principalmente a Grécia. Seu nível de endividamento é tamanho que chega a 120% do PIB. Ou seja, mesmo que toda a riqueza produzida pelo país em um ano fosse toda para o pagamento da dívida; mesmo assim, ainda faltariam 20% para quitar essa dívida. É um nível tão elevado que somente os ataques à classe trabalhadora não bastam, obrigando o governo grego a renegociar suas dívidas com novos empréstimos, fazendo a bola de neve crescer.
Mas a burguesia esta consciente de que bastaria um país cair nessa enorme corrente capitalista, que todo o resto despenca. Por isso, a burguesia fará de tudo para evitar um colapso maior da economia. O resultado é que já se anuncia um pacote de 30 bilhões de euros para amenizar a crise grega.
Apesar da realidade econômica desses países terem suas peculiaridades, o que une todos eles, fazendo com eles se encontrem com suas economias precarizadas, é o baixo crescimento econômico, que é inferior a 1% (quando não é negativo – realidade da maioria). Junto disso, o déficit fiscal (soma daquilo que se arrecada descontando o que se gasta) está nas alturas, levando à possibilidade de moratórias como a de Dubai em larga escala.
E toda essa situação se agrava mais ainda com o desemprego crescente na Grécia e nos outros países dos PIIGS, que atingem as piores marcas dos últimos anos. Na Grécia, no fim de 2009, a taxa de desocupados estava na casa dos 10,6%, frente aos 7,8% no meio do mesmo ano, chegando aos piores índices desde 2005 segundo o gabinete nacional de estatísticas. Na Espanha, o desemprego ronda os 20%!
Toda essa situação se agrava mais ainda entre a juventude. Enquanto o desemprego oscila entre 8% e 10% da população grega, por exemplo, esse número salta para 27,8% na faixa etária de 15 a 24 anos.
Para sair da crise que esses países estão submetidos, o FMI e as autoridades da União Europeia já anunciaram que deverá haver um alto custo econômico.
No caso da Grécia, já se anunciou a intenção de que o governo corte despesas públicas em 2 bilhões de euros, reduzai em 30% as horas-extras, congele salários, aumente a idade mínima de aposentadoria e aumente os impostos.
Esta é a batalha, de agora em diante multiplicada: é guerra ao capitalismo, com a classe trabalhadora devendo disputar o poder, e tendo de radicalizar suas lutas contra o governo e o capitalismo.
Toda essa grande revolta surgiu em resposta aos ataques que o primeiro ministro do país Georges Papandreou, apoiado pela União Européia, está preparando com seus planos de austeridade fiscal. Que significa fazer com que os trabalhadores paguem por mais essa crise.
O que os governos de Espanha, Portugal, Irlanda; e inclusive os países pobres como o Brasil terão que fazer nos próximos anos, são esses projetos que atacam direitos históricos da classe trabalhadora. O que acontece dentro desses países são velhos conhecidos dos brasileiros. As chamadas reformas: da previdência, trabalhista, sindical, etc. terão que ser aplicadas. Tudo com o fim de conter a crise e conseguir resgatar a economia capitalista. Criando assim o ambiente necessário para continuar mantendo as crescentes taxas de lucros da burguesia. Mesmo que seja a custo de desemprego fome e miséria.
A realidade da classe trabalhadora na Europa tem suas particularidades. Cada país tem suas instituições, uma forma um pouco diferente de governar. Porém como se percebe em se tratando de exploração a burguesia é igual em todos os países. E a classe trabalhadora está se tornando cada vez mais parecida, independente do país em que se localiza.
Os nossos direitos estão sendo atacados da mesma maneira fazendo com que os benefícios dos trabalhadores europeus se percam e seus salários fiquem cada vez mais parecidos com os dos trabalhadores de países pobres.
E para que tudo isso não seja às custas de mais exploração e um piora na vida da classe trabalhadora que é dever de cada trabalhador lutar com uma força ainda maior, obrigando os governos a sobretaxar as riquezas, e exigir que os ricos paguem pelo que eles mesmos criaram.
A classe trabalhadora diante desse beco sem saída que se encaminha é necessário ter clareza de que os momentos decisivos de avizinham. O momento onde para garantir os mais básicos direitos terão que tomar o poder com suas próprias mãos. Já que a burguesia têm a capacidade de conceder algo somente momentaneamente, para logo em seguida atacar novamente com mais força ainda.
O socialismo na bandeira do dia-a-dia
Todo esse montante de fatos mostram que os trabalhadores deverão lutar cada vez com mais força para garantir seus direitos mais básicos. Até mesmo seus empregos estão ameaçados, e a luta agora é de vida ou morte.
Diante de tantos ataques e lutas, a classe trabalhadora se vê obrigada a lutar com mais força, incluindo países antes mais “privilegiados”, chamados de primeiro mundo. Toda essa crise mostra que é impossível que dentro do capitalismo todos os países tenham riqueza, e que os trabalhadores só têm saída através de uma revolução que ponha toda a atual estrutura abaixo e coloque os trabalhadores no poder.
A experiência dos trabalhadores gregos nos ensina muito. O chamado “plano de austeridade fiscal” do governo é similar ao que Lula teve que aplicar (e conseguiu parcialmente), como é o caso da reforma da Previdência, em 2003; e é o mesmo que tentam fazer na Itália, Alemanha, etc.
Assim, ganhe quem ganhar as próximas eleições brasileiras, os trabalhadores daqui terão que lutar contra suas medidas, à medida que o plano de ataques à maioria da população não é produto de um partido ou outro, e sim é inerente a todos que fazem parte da defesa do capitalismo.
Dessa maneira, percebemos que os ataques à nossa classe são iguais, e que os governos também o são. A burguesia pensa a economia mundialmente, e por isso os ataques que os gregos estão sofrendo são os mesmos que Lula impõe. Mesmo existindo as burguesias nacionais, elas são totalmente incapazes de fazer algo que fuja disso, pois dependem de acordo com a burguesia mundial para seguir existindo, e o pano imperialista, diante da crise, não permite brechas na exploração.
Para os trabalhadores encurralados pelo capitalismo, que impõe cada vez mais uma vida sem perspectiva alguma, se torna necessário que a luta da classe trabalhadora se torne cada vez mais combativa e radical; de enfrentamento com os governos e todas as direções traidoras.
Por isso, é preciso que se organizem partidos em cada um desses países, que não sejam voltados para eleições, mas sim à luta, a única forma de mudar a realidade dos trabalhadores. É fundamental a necessidade de que trabalhadores conscientes de todos os países, sejam nações ricas ou pobres, se organizem em partidos revolucionários para a tomada do poder pela classe trabalhadora.
Em diversos momentos na História, a classe trabalhadora teve uma unidade mundial com diversos partidos da classe sendo representantes dessa unidade e respondendo aos ataques vindos do imperialismo. Mas infelizmente essa unidade se enfraqueceu, principalmente após a subida de Stálin ao poder da União Soviética, terminou com a 3ª Internacional Socialista, por exemplo. O fim desta organização, fundada por Lênin e Trotski (revolucionários russos) para promover a revolução a nível mundial, foi parcialmente recuperado pelo surgimento da 4ª Internacional. Mas, apesar de seu brilhantismo teórico, ela acabou não tendo tamanho suficiente para alavancar as lutas.
Este é o problema dos trabalhadores hoje em dia: a falta de uma direção democrática, de luta e revolucionária.
Por isso, nós do Movimento Revolucionário reivindicamos a necessidade de se construírem partidos revolucionários nacionais, e de sua ligação e subordinação à retomada da 4ª Internacional e todo seu legado, deixado por Lênin e Trotski.
Os acontecimentos recentes da Europa demonstram que sem uma unidade da classe trabalhadora em âmbito mundial, diante dos ataques que a burguesia ao redor do mundo promove, não avançaremos ao ponto de acabar com as ameaças capitalistas.
Essa deve ser uma bandeira levantada cada vez mais alto: a bandeira da revolução socialista!
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