Queda de 0,2% do PIB brasileiro é apenas parte de um problema bem maior.

Ao contrário do que o governo Lula, ministros como Guido Mantega e toda a imprensa governista (incluindo a Globo, Record e as demais grandes redes de TV) disseram por muitos meses, o Brasil teve um PIB negativo no ano passado.

        O país, em termos teve o conjunto das riquezas produzidas em seu território diminuído em 0,2% nominais. Isso quer dizer que o número final de 2009 é 0,2% menor que o que terminou 2008. No entanto, qualquer trabalhador que vive de seu salário sabe que, mesmo que seu salário acabasse um ano igual ao ano anterior, ele teria perdido dinheiro.

        Conforme o próprio governo e seu órgão oficial, o IBGE, a inflação de 2009 foi de 4,31%, de acordo com o IPCA. Este índice é bastante distorcido, pois coloca no mesmo saco a renda do trabalhador médio, que ganha um ou poucos salários mínimos, com gente que ganha até R$ 20.400 (40 salários) por mês. Mas, ignorando isso, e aceitando que a inflação tenha sido estes 4,31%, qualquer trabalhador precisaria também ter ganho 4,31% de aumento salarial para poder dizer que tinha ficado no “zero a zero”.  Com um país, dá no mesmo.

Além disso, a população brasileira cresceu 0,99% no ano passado. Em função disso, até mesmo para manter a pobreza brasileira no mesmo lugar teria sido necessário crescer cerca de 1%. Assim, o fato de o crescimento brasileiro ter sido negativo significa que, na verdade, a economia despencou quase 5,5%!

A imprensa e o governo não tratam dessa forma porque isso retrataria a situação real: o Brasil andou a passos largos para trás, e antes mesmo não estava indo a lugar nenhum.  

O desempenho horroroso de 2009 foi puxado por dramáticas quedas na indústria e nos investimentos, de respectivamente 5,5% e 9,9%. A indústria cair sozinha 5,5% é pior ainda que a queda geral do PIB, pois significa que o setor mais dinâmico da produção perde espaço no Brasil e a economia foi ainda mais atrasada ano passado. O investimento ter caído 9,9% resulta em estradas, portos e infraestrutura sucateadas, o que aumenta custos de produção, e deve influir negativamente em PIBs futuros também.

O fato: 2009 foi o pior ano desde o início da atual série do PIB medida pelo IBGE, em 1996. Historicamente, em 1992, com Collor, tinha sido a última vez que o PIB tinha caído.

Mídia puxa-saco esconde verdade e divulga promessas

        O mais incrível na desastrosa queda do PIB brasileiro é que a maioria dos meios de comunicação repetiu a mesma ladainha do governo, de que a crise já passou e que 2010 deve ser fantástico. Parece uma brincadeira.

        O governo Lula saiu de 2008 dizendo que a crise não chegaria ao país. Depois, disse que o crescimento se reduziria, mas seria de 2%. Mudou isso para 1,5%, 1% e depois admitiu que poderia ser zero. Neste meio tempo, enquanto mentia à população, sem nunca ter havido fundamento em suas projeções, o governo e a mídia desprezavam a vida real, em que empregos eram cortados e dívidas cresciam.

        Agora, a mesma história se repete. Irrigada por bilhões de publicidade do governo, rádios, jornais e TVs tratam a queda do PIB como uma bobagem, uma insignificância sem valor. “Caiu o PIB. Grande coisa”. Em compensação, esta mesma mídia faz um carnaval e anuncia com grande pompa que o crescimento deste ano deve ser de 6%. A mesma técnica usada sempre... ignorar a realidade e prometer maravilhas futuras.

“Nosso” PIB não é nosso

Além da queda absoluta do PIB, é preciso identificar que o PIB brasileiro não quer dizer que seja nacional, muito menos dos trabalhadores. Além da exploração capitalista fazer com que toda a riqueza produzida pelos trabalhadores vá parar na mão de poucos burgueses, donos de banco, fazendas, indústrias e empresas, há a exploração internacional das multinacionais.

Dessa forma, o fato de que o PIB cresça (caso crescesse), não diria nada aos trabalhadores. Com o capitalismo não tendo mais como se expandir para sempre, a melhora da vida dos trabalhadores não virá das migalhas distribuídas de um grande crescimento econômico. Os trabalhadores só vão ganhar se tomarem de volta o produto de sua produção, que hoje está na mão dos ricos. Essa luta é que pode melhorar nossa vida e não o crescimento do PIB.

 Outro elemento nesta discussão, é que, mesmo entre os burgueses, cada vez mais as multinacionais é que ganham espaço no PIB “brasileiro”. Redes como a GM, o Santander e o Carrefour tiveram seus maiores lucros em países muito longe de suas sedes, como o Brasil. Estes lucros, que são contados no PIB, são reenviados às matrizes nos Estados Unidos, Alemanha, Espanha, França, etc.

Salário Mínimo e aposentados vão sofrer em 2011. Centrais sindicais pelegas traíram outra vez.

Acertado em 2006, um acordo entre o governo Lula e as principais centrais sindicais prevê que o reajuste do salário mínimo seja sempre a soma da inflação oficial (aquela que é distorcida) mais a variação do PIB de dois anos antes.

Os aposentados que ganham acima do mínimo também tiveram uma proposta recentemente feita pelo governo Lula. Por ela, eles receberiam a inflação mais a metade da variação do PIB de 2 anos antes. Pior ainda que o acordo do mínimo.

Este acordo com os aposentados teve uma grande polêmica em 2009. O governo insistia com a fórmula de inflação mais 50% da variação do PIB de 2 anos antes. A CUT e Força Sindical, que inicialmente aceitaram esta vergonha, depois, pressionadas pelos aposentados, passaram a exigir um pouco mais, em torno de 60% ou 70% da variação do PIB. A CTB (central ligada ao PCdoB) era ainda mais generosa aos aposentados, e queria 80%. E, por fim, a associação nacional dos aposentados e a Conlutas eram “radicais” e defendiam nada menos que 100% da variação do PIB somada à inflação.

Toda esta disputa e conflito, porém, se mostrou uma grande farsa. Receber uma inflação calculada para baixo, somada a uma variação ridícula do PIB, em torno médio de 3%, é um desastre para aposentados e para quem ganha salário mínimo, independente de receber a variação integral ou parcial. A “grande diferença” entre a pior e a melhor proposta daria pouco mais de 1% de diferença nos reajustes, quando muito, nos melhores anos.

A queda do PIB em 2009, assim, vai gerar reajuste zero em 2011, e só a inflação será reposta. As principais centrais estão caladas, e é preciso criticar a própria Conlutas e as entidades dos aposentados, que caíram nesta armadilha de ficar discutindo percentuais indexados ao PIB.

Para os trabalhadores, nada disso interessa, e a luta deve ser pela reposição das perdas históricas do poder aquisitivo dos salários e aposentadorias. É isso que separa os pelegos dos ativistas nas categorias em luta: a defesa das perdas passadas. A Conlutas ignorou esta necessidade e bandeira histórica, em nome da unidade com algum setor, qualquer que fosse.

Nós não podemos aceitar o reajuste zero para 2011, e é preciso, desde já, incluir na pauta de reivindicações de todas as lutas a exigência de reajustes dignos ao salário mínimo e aposentados, para recuperar as perdas e rumo ao salário mínimo do Dieese, em torno de R$2100 hoje em dia. Este deve ser o mínimo efetivamente recebido no Brasil, e o piso do INSS.

 

 

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