Tragédia no Rio de Janeiro. Cenário de destruição onde os culpados são os mesmo de sempre, no Chile, no Haiti, No Brasil... os governos da burguesia
O estado do Rio de Janeiro mudou parte de sua paisagem para a de um terreno que poderia pertencer a de cidades devastadas por catástrofes recentes como as do Haiti, ou do Chile, países atingidos por terremotos com registros sem precedentes. A chuva que durou mais de 24 horas ininterruptas, chegando a ter 204,8 milímetros de precipitação, se estendeu ao longo dos outros dias. O resultado foi que a "cidade maravilhosa" e outras tenham parado e ficado parcialmente submersas. A cidade amanheceu debaixo dágua.
Mas as imagens chocantes de carros sendo arrastados, pessoas ilhadas e do Maracanã transbordando cheio de água não eram nada perto do que ainda viria: um desastre em que 229 pessoas eram dadas como mortas no dia 12 de abril.
Foi neste contexto que o Brasil inteiro acordou na manhã da terça-feira (06/04) com a notícia do prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB) anunciando para os trabalhadores não saírem de casa, e que faltassem ao trabalho, e às aulas, que seriam canceladas. Nas ruas, imperava o caos; com pontos turísticos totalmente irreconhecíveis; carros abandonados; metrôs sem funcionar; falta de energia elétrica; pessoas dormindo dentro de ônibus; muita gente sem ter como voltar para casa. Além da forte chuva, o mar avançava sobre o litoral fluminense piorando ainda mais a situação.
As autoridades envolvidas na ajuda às regiões afetadas já contabilizavam 11.439 pessoas desalojadas e 3.262 desabrigadas, além das mais de 2 centenas de mortos. Segundo os bombeiros, as cidades mais castigadas pela enxurrada foram São Gonçalo, Nilópolis, Duque de Caxias, na região metropolitana, e Petrópolis, na região serrana, e ao todo foram registrados mais de 180 deslizamentos de terra.
O mais trágico, contudo, veio em seguida. No primeiro dia, houve muitas perdas materiais e poucas mortes; mas logo o número de perdas de vidas triplicou. Em Niterói, municio que registrou o maior número de mortos, principalmente o morro do Bumba veio abaixo. se abrindo uma cratera gigantesca, que engoliu cerca de 200 pessoas em 50 casas. Tudo que existia na região foi tragado pela terra, não sobrando quase nada do que um dia foi uma favela.
Enquanto os governos ficam com mãos nos bolsos, os trabalhadores salvavam vidas com as próprias mãos
Logo após o ocorrido, o que se via nas regiões era uma grande comoção em todas as comunidades. Por não contar com o auxílio das autoridades, totalmente ineficientes e demoradas, foram os trabalhadores pobres que viviam nessas regiões os grandes heróis de mais essa tragédia. Os moradores dessas vizinhanças, com as próprias mãos, sem contar com nenhuma instrução e materiais para o trabalho, foram em socorro daqueles que ficaram embaixo da terra aguardando o resgate.
Enquanto a solidariedade dos trabalhadores não tinha limites, o governador Sergio Cabral (PMDB), os prefeitos do Rio e Niterói, Eduardo Paes e Jorge Roberto do PDT que governou a cidade durante 16 anos, e principalmente Lula, nada fizeram para prevenir a catástrofe e determinaram as condições propícias para tamanha tragédia. Lula, por exemplo, pôs à disposição somente 40 pessoas para ajudar as vítimas do desastre. Claramente, o número de vítimas é decorrência do descaso com a habitação, e o governo Lula e Cabral, que prometeram obras do PAC, urbanização das favelas, etc., são os grandes culpados.
Após a avalanche de terra ter destruído tudo, novamente foram as comunidades que organizaram o socorro àqueles desabrigados, arrecadando alimento e moradias a quem estava deixando suas casas, já que estavam em zonas de risco ou mesmo já tinham perdido tudo. O governo, somente depois de ter abandonado as pessoas por sua conta no momento mais difícil e traumático anunciou a promessa de pagar aluguel aos desabrigados, o que ainda não foi concretizado.
A culpa é do capitalismo e de seus governantes
Para justificar sua negligência criminosa, os governantes acharam o culpado para essa situação: o clima! Os outros culpados pelas inúmeras mortes, na ótica cínica dos governos, são os próprios trabalhadores, que não abandonaram suas casas em situação de risco.
Assim, cria-se uma situação surreal, em que as vítimas da falta de um plano nacional eficiente de moradia acabam sendo condenadas por irem morar nas encostas de morros, como se isso fosse uma opção. Os trabalhadores pobres que acabam se submetendo a uma submoradia e investem nessa humilde casa para melhorá-la, agora viram tudo ser transformado em lixo e escombros, e os governos não oferecem nenhuma solução coletiva que possa evitar novos desabamentos.
Os governantes Lula, Sergio Cabral e cia., possuem uma folha de pagamento bem maior do que qualquer um desses moradores que perderam tudo, e por isso não entendem todo o trabalho e sacrifício que esses trabalhadores tiveram para acumular. Essas famílias pobres passarão anos tentando resgatar o que foi perdido durante esses poucos dias.
Sergio Cabral e Lula foram veementes em dizer diversas vezes que no momento a única coisa que podemos fazer é aguardar a chuva parar. Ou seja, milhares de trabalhadores voltaram aos tempos em que o homem vivia em estado animalesco, esperando que os céus garantissem sua chance de sobreviver. Os mais pobres se veem obrigados a morar nas piores condições possíveis e outros tantos vagam pelas ruas, se alojando em casas de parentes, por não terem abrigos oferecidos pela prefeitura ou demais governos. Mais uma vez, o que se viu foi um descaso total de todos os governos, desde os municipais até Lula!
Uma tragédia anunciada
Para qualquer pessoa que tenha visitado o Rio saltam aos olhos a situação da população pobre submetida a uma dura realidade de submoradias, aglomeradas em imensas favelas. Sem as mínimas condições, sem acesso a saneamento básico e pavimentação. E, por menor que seja a chuva, os barracos mais vulneráveis despencam morro abaixo matando pessoas.
No morro do Bumba, a situação é mais alarmante ainda, porque a região durante há décadas foi usada como lixão. Após a desativação, na década de 80, a área foi aterrada, tornando “possível” o assentamento de famílias. O lixão, porém, ainda está lá. Antes, embaixo daquelas famílias todas; agora, em cima delas.
Qualquer pessoa sensata logo chegaria à conclusão que essas pessoas deveriam ser retiradas da região e colocadas em áreas sem risco de vida e com as condições necessárias para uma vida digna. Mas, por diversas gestões, a prefeitura, para garantir os votos dessa população, ao invés de resolver o problema, colocou em prática um projeto de urbanização da área, atendendo às reivindicações das construtoras, que ganham com as "obras" na favela, e não precisam ter suas áreas nobres questionadas para fim de assentamento urbano. Água, luz, saneamento básico e asfalto foram instalados na área do antigo lixão, transformando o lugar numa bomba relógio em que em qualquer momento essa enorme tragédia poderia ocorrer.
As vigas das casas estavam assentadas diretamente no lixo em decomposição. Várias casas já haviam sido condenadas, por ter sua estrutura comprometida. E o chorume, material tóxico, brotava do chão, com gás metano por todo lado, emanado do lixo em decomposição e lançado ao ar. Tudo isso era conhecido pela prefeitura, que tinha acesso a inúmeros laudos técnicos de especialistas na área. Ainda assim, nenhuma providência foi tomada.
Milhões de trabalhadores vivem em Bumba
O morro do Bumba não é um só. Existem milhares de situações similares em diversas cidades brasileiras, em função de um descontrole completo do crescimento da população das grandes cidades e por não existir nenhum tipo de projeto de organização das cidades. O capitalismo tem sua ocupação completamente caótica, da mesma maneira que sua produção.
A falta de projetos de organização das cidades demonstra o descaso com que as população pobres das cidades são tratadas. Os governos sejam eles municipais, estaduais, ou federais, por serem compostos por grandes empresários levam consigo suas pretensões e prioridades e dessa maneira os projetos de urbanismo e arquitetura em áreas nobres das cidades são prioritários.
Os Planos Diretores das capitais e grandes cidades são muitas vezes elaborados pelas próprias construtoras, empreiteiras e imobiliárias, e repassados para vereadores que eles elegeram, e que vão assumir a "paternidade" do projeto. O resultado disso é que proliferam espigões em beiras de praias, assim como nos centros urbanos, causando ilhas de calor, poluição e deterioração da qualidade de vida. Por outro lado, as favelas são relegadas ao descaso total, sendo instaladas em cima de lixões.
Em São Paulo, por exemplo, acaba de haver uma obra faraônica inaugurada, o Rodoanel, para desafogar o tráfego das marginais do rio Tietê, um problema que afeta todos, mas principalmente os negócios da burguesia. Enquanto isso, áreas inteiras da metrópole ficam alagadas quando a menor chuva ocorre, como aconteceu ao longo de todo mês de março. Isso ocasionou ruas que ficaram por semanas a fio alagadas, isolando milhares de pessoas.
No Brasil, os trabalhadores têm seus salários cada vez mais achatados, a alimentação cada vez mais cara, o transporte um absurdo! E tudo isso faz com que os valores destinados à moradia fiquem cada vez menores. Por isso, os casebres se espalham por encostas, os barracos tomam conta de cada vez maiores áreas das cidades e mais favelas como o morro Bumba vão continuar sendo protagonistas de tragédias como esta.
Moradias com qualidade para todos somente com a revolução
É necessário um grande plano de obras públicas, com investimento maciço em construção de prédios populares reorganizando toda a estrutura urbana e dando casa para todos, com saneamento básico, calçamento, luz, água e tratamento de esgoto. É possível construir novos bairros, já prevendo escolas e creches públicas, postos de saúde e linhas de ônibus para garantir uma qualidade de vida dos trabalhadores. Para isso, seriam necessários bilhões de dólares, o que não é fácil, mas também não é impossível, como ficou claro no socorro aos bancos e grandes empresas, feito pelo governo Lula diante da crise econômica.
Porém, por mais que fosse em tese possível, este plano nunca vai ser posto em prática pelo capitalismo. A começar, porque a burguesia não vai aceitar canalizar tantos recursos para melhorar a vida de pobres; e, em segundo lugar, porque a falta de moradias é um excelente negócio para muita gente. É só porque faltam moradias que tanta gente ganha a vida alugando imóveis e com especulação imobiliária. Assim como é preciso haver desemprego para que os empregados se submetam a um salário baixo (com medo de perderem o lugar), a falta de moradias é que alimenta a indústria dos aluguéis e financiamentos.
Para mudar a realidade dos problemas de habitação, os trabalhadores devem comandar os projetos habitacionais, expropriar as grandes áreas inutilizadas, que servem apenas para especulação, e impor um orçamento a serviço da maioria da população. Assim como os trabalhadores tomaram a iniciativa de se auxiliarem e organizar o resgate de seus vizinhos, sem esperar a iniciativa de qualquer autoridade, e mostraram que são mais capazes do que todos pensavam, está na hora dos trabalhadores também assumirem a responsabilidade pelo destino das cidades construídas pelos próprios trabalhadores.
Para isso, em cada comunidade é uma necessidade que os trabalhadores se organizarem em associação de moradores e façam mobilizações, para começar essa mudança desde já, denunciando o descaso dos governos e passando à ofensiva com a ocupação de prédios das construtoras e áreas urbanas. Toda essa luta deve estar a serviço dos trabalhadores tomarem das mãos da burguesia o poder político e econômico de toda a sociedade, numa mudança radical que mudará a estruturas de nossa sociedade, que só poderá vir com uma revolução socialista, e que substituirá a vida em lixões por uma vida em que todos tenham o direito básico à moradia.
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