Projeto “Ficha Limpa” une Globo, PSOL e muita gente de

Direita

 

        Já não é mais novidade que as eleições e os “políticos”, no Brasil, há muito tempo são sinônimos de compra de votos, roubalheira e corrupção. Com esta fama e prática realmente existente, não faltam tentativas de tentar mudar esta situação.

        A população fica revoltada, por exemplo, quando vê que os ladrões que chefiaram o mensalão do Lula e PT em 2005 estão todas soltas, algumas tendo cargo eletivo e outras ameaçando serem candidatas. Da mesma forma, as quadrilhas do PSDB, DEM e PMDB seguem sem nenhuma punição ou condenação. A impunidade mostra que não tem sigla ou ideologia – todos os partidos de eleição acabam premiados pela absolvição de seus crimes e desvio de verbas. É isso que indigna as pessoas, que exigem que algo seja feito.

        Tentando canalizar esta insatisfação geral com a política representativa e burguesa que é nossa realidade, surge um projeto para que os candidatos que estejam sendo alvo de processos penais sejam impedidos de concorrer. Essa medida vai no sentido de tentar, ainda que minimamente, “moralizar” as eleições, e proibir que quadrilheiros, membros de milícias confessos e ladrões históricos, possam se candidatar e, com seus recursos ilícitos milionários, facilmente se eleger.

        A idéia, porém, mesmo que conte com a simpatia imensamente majoritária entre os trabalhadores, é uma jogada que só vai beneficiar os exploradores e corruptos de sempre. Não é por nada que os maiores divulgadores e “militantes” do projeto estão nas redes de TV, como a Globo, Bandeirantes e Record, além dos grandes jornais e entidades da direita.

        Estes setores conservadores e que sempre praticaram ou colaboraram com a corrupção vêem com bons olhos a restrição a quem tiver processos, porque sabem de duas coisas.

A primeira é que seus “preferidos” nunca são condenados, e, então, mesmo roubando à vontade, nunca serão impedidos de se candidatar. Serra, como governador de SP, desviou verbas públicas e superfaturou obras escandalosamente, como as do Rodoanel, linhas do metrô de SP, material para as escolas estaduais, etc. Mas nunca foi, nem será, processado com chances de ser condenado. Lula, José Dirceu, Genoíno e Palocci, para citar só os chefes, coordenaram o mensalão que há 5 anos foi descoberto, com direito a flagras de dinheiro em cuecas, malas e imagens comprovando tudo. Depois das manchetes, com a poeira baixa, nada aconteceu.

Em segundo lugar, a Globo e companhia adotam o “ficha limpa” porque, na hipótese extremamente improvável que um de seus medalhões seja realmente processado e impedido de concorrer, ela simplesmente o substitui por um ladrão novo, mais discreto e “limpo”. Como diz o ditado: “rei morto, rei posto”.

Ou seja, a burguesia sabe que o ficha limpa é apenas uma jogada de marketing, que não atingirá nenhum dos mais influentes corruptos. Mas, ao mesmo tempo, também sabe que é melhor, de vez em quando, abater e sacrificar algum dos corruptos mais escandalosos para salvar a imagem do resto do bando. Assim, a corrupção generalizada e inerente ao capitalismo é disfarçada para debaixo do tapete como obra de poucos e afastados políticos desonestos.          

        Essa moral, literalmente de cuecas, é semelhante a dos traficantes, que impedem e punem os ladrões e assaltantes de carteira, e outros crimes medíocres, de atuarem nos morros controlados por eles. Fazem isso, para tentar dar um ar de normalidade e “decência” a seus negócios, “limpando” o morro da polícia e de conflitos barulhentos e tentando manter a paz da venda de drogas, vigiada por fuzis.

 

O “Ética na Política” requentado para defender o sistema

       

O projeto “ficha limpa” acaba de ser aprovado na Câmara e é possível que, depois de trancado na pauta do Congresso, realmente vá adiante. Expressando a revolta da população com a corrupção, ele obteve 1,5 milhão de assinaturas. Ao mesmo tempo, vários políticos ameaçados por ele sempre tentaram barrar sua aprovação. O apoio popular e, ao mesmo tempo, a preocupação com sua aprovação por parte dos corruptos, dá a impressão de que ele, se não vai resolver tudo, pelo menos vai ajudar em alguma coisa.

Esta visão, porém, está bastante equivocada. Não é por nada que,mesmo gerando apreensão por parte dos corruptos, o projeto acabou aprovado. O resultado da Câmara apontou que a unanimidade dos ladrões não teme o projeto. Lula quando era oposição dizia que havia “300 picaretas” no Congresso. Na verdade, se 300 já seriam maioria no
congresso, sabemos que existem bem mais corruptos do que isso. Mesmo assim, qual foi o resultado da votação do projeto? 389 a favor e nenhum contra! Quer dizer: a desonesta Rede Globo, assim como o conjunto dos corruptos, grandes empresários sonegadores e bandidos de todo tipo apoiam o projeto porque sabem que o pequeno custo que possa
ter será compensado com a melhora da imagem de todos os demais escândalos.     

O papel mais nefasto neste debate, porém, não é o da direita e da mídia hipócrita, e sim o das organizações supostamente de esquerda, com o PSOL à frente, que acabam sustentando um discurso de “ética na política”. Aliás, foi com um outro movimento semelhante ao atual, e com exatamente este nome, que o PT na década de 90 defendeu ardorosamente o regime político burguês e responsabilizou indivíduos pela corrupção que era parte de todo o sistema.

        No auge dos escândalos do Collor, o PT surge para colocar “panos quentes” no ódio popular e tentar mostrar que havia uma “boa política”, honesta e correta. É o mesmo discurso sustentado vaziamente pelo PSOL desde seu surgimento e apresentado quase que como plataforma única de campanha eleitoral por Heloísa Helena em 2006. O “ética na política”, a seu tempo, cumpriu a tarefa nociva de servir como uma ideologia de que era possível um capitalismo decente e honesto, cuja implantação viria a partir de um governo do PT. A História está aí para mostrar onde tudo foi parar.

       

Candidatos e eleições “limpos” só com controle operário e popular, e com o fim do capitalismo. Hoje, projeto ataca os trabalhadores.

       

A ideia da “ficha limpa” não é uma novidade recente e já foi apresentada no Brasil uma vez. Foi durante a ditadura militar que, com a Emenda Constitucional nº 1 e a Lei Complementar nº 5, estabeleceu a cassação dos direitos políticos e a inelegibilidade por “vida pregressa”, o que incluía qualquer coisa, desde crimes comuns até envolvimento com alguma organização de esquerda.

Sem que a Justiça seja controlada pelos trabalhadores, a “ficha limpa” de hoje também serve para os mesmos propósitos. Na prática, corruptos famosos seguirão considerados inocentes e poderão se candidatar, pois sempre se livram de condenação por causa de seus advogados caros e dos juízes amigos. Militantes do MST, grevistas considerados ilegais ou sindicalistas e lutadores sociais que “desacatarem a autoridade”, no entanto, poderão ser considerados com a ficha suja.

Internacionalmente, por exemplo, uma lei deste tipo na África do Sul não teria permitido a eleição de Nelson Mandela, cuja “ficha suja” envolvia condenação por “terrorismo”. Da mesma maneira, Lula não poderia ter sido candidato, tampouco Dilma e Serra, já que todos eram criminosos para a ditadura.

Essa restrição acaba usando a corrupção, que revolta a todos, como um álibi para retirar direitos de presos, que, no Brasil, todos sabem, são essencialmente negros e pobres, muitos deles inocentes. Essa restrição pode não parar por aí e chegar ao cúmulo de cassar inclusive o votar. Nos EUA, por exemplo, condenados perdem em definitivo o direito de votar, retirando do processo milhões de pobres e negros, que certamente votariam de forma bem mais crítica que a média da população.

Por isso, com a Justiça na mão dos banqueiros e grandes empresários, assim como a polícia e o Congresso, não há maneira de limpar a política, sem acabar com o próprio capitalismo. Somente através da expressão direta da maioria da população é que será possível controlar o orçamento público, impedir os desvios e garantir que sejam realmente os trabalhadores a definir e utilizar os recursos para cada área, sem desperdício nem apropriação individual.  

 

 

 


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