ESPETÁCULO E REPRESSÃO...
VEM AÍ A COPA DO MUNDO.
A Copa está aí. Em menos de um mês, estaremos presenciando um dos maiores espetáculos esportivos do mundo, senão o maior. Não apenas pela quantidade de equipes participantes, mas, principalmente, pelo montante de dinheiro envolvido, ou alguém ainda duvida que o futebol seja o esporte que mais movimenta dinheiro no mundo inteiro?
A África à espera de euros e dólares
A Copa do Mundo FIFA 2010, realizada entre os dias 11 de junho e 11 de julho, na África do Sul, é a primeira copa a ser realizada em continente africano. A capital, Johannesburgo, aguarda ansiosa por equipes, torcedores, jornalistas, enfim, visitantes ao país mais rico da África e, ainda assim, repleto de desigualdades sociais e violentos conflitos raciais.
Para garantir a segurança de turistas, atletas e comissões, o governo aumentou o investimento na área, ampliando o contingente policial e reforçando o seu armamento. Quer dizer, o que em geral não é feito pela população local, precisa ser feito com urgência para receber europeus e norte-americanos ávidos por gastarem seu valorizado dinheiro.
Ainda que a expectativa de turistas tenha se reduzido bastante, o governo sul-africano conta com o evento para melhorar a imagem do país perante o mundo e aumentar o quadro de visitantes que chegam a cada temporada. "Teremos menos reservas do que em anos anteriores, quando não havia a Copa", alegou Gerald Debroglio que aluga casas isoladas nos parques naturais de Kruger e Santa Lucia. "Do ponto de vista dos negócios, não estamos contentes, mas, ainda assim, será um grande evento", acrescentou.
Um país sob tensão
Desde o início dos preparativos para a Copa, o governo de Jacob Zuma vem deparando-se com greves e protestos. De fato, os trabalhadores aproveitam a visibilidade alcançada pelo país e o momento de investimentos na infraestrutura para reivindicar melhores salários e condições de trabalho. A pedida de aumento, em geral, é superior à inflação, de 5,1%.
Para o 26 de maio o Sindicato Nacional dos Mineiros (NUM, sigla em inglês) organizou uma paralisação por melhores salários. No ano passado, a entidade cancelou uma greve após chegar a um acordo com a Eskom (estatal energética), mas retomou a ameaça depois de a empresa deixar de implementar alguns itens do acordo.
A poderosa central sindical Cosatu também ameaça convocar uma greve contra as tarifas elétricas durante a Copa. A Cosatu se opõe a um aumento tarifário de 25% concedido à Eskom. Os sindicalistas dizem que esse e outros dois aumentos programados até 2012 terão um efeito desastroso sobre os mais pobres e causarão mais desemprego.
Caso o governo não atenda às necessidades da população com a mesma prontidão que vem atendendo às exigências da FIFA (o que é o mais provável), a tensão só tende a aumentar. Só no primeiro trimestre do ano houve 54 grandes manifestações, quase metade das 109 registradas em todo o ano passado, segundo o instituto Municipal IQ, que monitora questões locais no país. Desde o início de 2010, há uma escalada de protestos nas "townships" (subúrbios habitados por negros) e favelas, reivindicando moradia, emprego e serviços básicos, como eletricidade e água.
Não há dúvida de que o que nos aguarda é um grande evento, especialmente para os admiradores do futebol. Porém, contemos também com a violenta repressão que Zuma deve impor a todos aqueles que tentarem desviar o foco do circo esportivo que está se armando.
Apoiamos os trabalhadores que, acertadamente, percebem nesse momento uma oportunidade para terem atendidas as suas reivindicações. Não apenas porque o governo não quer prejudicar a sua imagem, mas também porque se há bilhões para reforma e construção de estádios, com certeza deve haver uma “verbinha” para proporcionar melhores condições de vida aos trabalhadores e àqueles que tornam o espetáculo possível.
A Copa do Mundo é nossa?
Ainda que a Copa da África já esteja aí, borbulham notícias sobre a próxima copa, em 2014, sediada no Brasil.
As obras sequer começaram, mas já estão em pauta os números e os dados sobre o que precisa ser construído e reformado. No meio disso, as prefeituras das cidades-sede já apelam ao Governo Federal e ao Ministério das Cidades para terem isenção de impostos e toda a ordem de benefícios fiscais possíveis.
O Governo Lula já anunciou que vai desonerar os estádios-sede do campeonato mundial do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), PIS/Cofins e Imposto de Importação. Já as prefeituras das cidades-sede -Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba, Brasília, Cuiabá, Manaus, Fortaleza, Salvador, Recife e Natal- poderão conceder isenção de ICMS nas operações com mercadorias e bens destinados à construção, ampliação, reforma ou modernização de estádios para a Copa.
Deixando de lado -se possível- a gigantesca roubalheira que vem pela frente, vejamos o lado positivo: muito do que os trabalhadores há tempos vêm reivindicando para melhorarem sua condição de vida, e que não fora atendido, com os preparativos da Copa, finalmente pode ser. Porto Alegre (RS), por exemplo, já aprovou diversos projetos de construção de um metrô que ligue diferentes pontos dentro da cidade. Projetos esses que nunca saíram do papel e exigem que os gaúchos contentem-se com ônibus demorados e lotados, passagem cara e engarrafamento. Agora, para receber turistas cheios de dinheiro, as prefeituras corruptas e ineficientes finalmente farão alguma coisa, não porque se importa com a população da cidade, mas porque é pré-condição da FIFA.
Além disso tudo, fica a expectativa de que o espetáculo do futebol, que vem sendo mercantilizado ano após ano, na Copa do Mundo seja desfrutado apenas pelos ricos. No capitalismo é assim, até mesmo a alegria de todos acaba sendo vendida e privatizada. Na copa do Brasil, a maioria dos brasileiros assistirá aos jogos pela televisão.
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