Os escândalos de corrupção em Brasília mais uma vez estampam a capa dos principais jornais do país. Já não é de hoje que metem a mão descaradamente no dinheiro dos trabalhadores e nos cofres públicos do Brasil. A Operação Navalha, Furacão, Xeque-mate e outras tantas CPI’s que circulam no Congresso do mensalão, reacendem um debate importantíssimo sobre a relação da corrupção com o capitalismo que hoje devemos fazer.
Primeiro foi o ex-Ministro de Minas e Energia, Silas Rondeau (PMDB), que foi pego com a “boca na botija” recebendo propina e dinheiro de empresários da construtora Gautama em troca de benefícios para a contratação dos serviços da empresa. Justamente por isso teve que pedir demissão do cargo. Depois foi o presidente do Senado Nacional, Renan Calheiros (PMDB-AL), que respingou a lama da podridão do Congresso. Ele foi acusado de receber propina das mesmas construtoras que, dentre outras coisas, servia para sustentar a filha do Senador com outra mulher, a jornalista Mônica Veloso. Ao todo, mais de 100 mil Reais eram fornecidos para o “sustento” de uma criança de apenas 3 anos e, em troca, o Senador “facilitava” a vida dessas construtoras. Era uma justificativa pra cá, outra da imprensa burguesa pra lá, mais outra justificativa diferente da ex-mulher do parlamentar e, por fim, ninguém explica nada.
Por fim, para fechar com chave de ouro, as denúncias de corrupção e de recebimento de propina chegam a Genival Inácio da Silva, o Vavá, irmão de Lula. Segundo a imprensa burguesa, ele teve sua casa vasculhada e foi indiciado por tráfico de influência no Executivo e exploração de prestígio no Judiciário. Toda a burguesia nacional e a sua mídia lançaram mão de uma propaganda que tenta mostrar uma mudança na relação com os corruptos, e afirmam que agora “irão combater de fato a corrupção”, pois não se poupa mais nem os familiares do presidente da República.
Por um lado se fala em CPI para investigar os acusados, por outro, em acionar os funcionários da Controladoria Geral da União (CGU) para monitorar o Parlamento. Os representantes da burguesia mais entusiasmados falam em retirar do papel a tão esperada “Reforma Política” para controlar os parlamentares.
Nós compreendemos que nenhuma dessas medidas pode acabar com a corrupção e a farra dos políticos e dos empresários com o dinheiro do trabalhador. Toda a lama da corrupção e da impunidade começa muito antes do que isso e sequer é pautado pela imprensa da burguesia, pelos políticos e pelos empresários. O Correio dos Trabalhadores procura trazer nessa edição a demonstração prática de que a corrupção não começa e nem se encerra com Silas Rondeau, Renan Calheiros e Vavá. Muito pelo contrário, os escândalos do mensalão, dos sanguessugas, da Operação Navalha, e etc. só são a pequena ponta de um imenso “iceberg” imerso numa lama suja de roubalheira escancarada, essencial para o capitalismo.
Quem nasceu primeiro: a corrupção ou o capitalismo?
A sociedade em que vivemos hoje não é caracterizada só pela corrupção do Congresso Nacional. A roubalheira é permanente e toma conta do Executivo, Legislativo e Judiciário. Além da exploração do trabalho que sofre milhares de pessoas todos os dias, os grandes empresários precisam de dinheiro adquirido através de outras fontes para manter seus lucros elevados. A crise do capitalismo é tão grande, que é preciso aumentar a exploração e aumentar também os “caixa dois”, para a burguesia se manter viva.
As multinacionais que instalam suas gigantescas fábricas nos países atrasados têm isenção de impostos e benefícios fiscais cedidos pelos governos burgueses. Não só por este motivo, mas por muitos outros também, lucram milhões e milhões em cima do suor dos “seus” trabalhadores. Os baixos salários refletem o primeiro estágio da exploração cotidiana que sofrem os trabalhadores do mundo perante os lucros absurdos das multinacionais. Enquanto toda produção é fruto do trabalho coletivo dos trabalhadores, que estão diariamente no chão das fábricas, a venda das mercadorias e, portanto, todo o lucro do trabalho alheio coletivo, é voltado para encher o bolso do burguês que os explora. Ou seja, todo o trabalho coletivo é apropriado por um único homem – o burguês – sem levantar nenhuma ferramenta de trabalho. Tudo isso pelo simples fato de ser o dono da fábrica. Essa situação se generaliza a nível nacional e internacional em cada fábrica, empresa ou terra.
Depois vem a corrupção das leis do Legislativo/Judiciário que regem todo este processo e, inclusive, foram feitas pelos próprios burgueses. Os governos dos países atendem todas as reivindicações das multinacionais e, como ficou demonstrado na Operação Navalha e tantas outras, recebem sua “fatura” em troca. Seja diretamente pelas leis, ou indiretamente pela corrupção.
Depois é a política dos preços que são baseadas na ganância e no lucro que precisa sempre estar crescendo. O salário mínimo sobe R$30 ou R$40 reais, mas todos os produtos básicos no supermercado sobem também. Enquanto isso o bolso dos donos dos grandes supermercados está recheado e o trabalhador come o que consegue.
Em seguida, temos os banqueiros que sobrevivem da agiotagem e dos juros das dívidas externa e interna sem nunca colocarem a “mão na massa”. É um pequeno setor da classe burguesa que cada vez mais enriquece às custas do sofrimento e das privações da classe trabalhadora. Maior corrupção que a condição social de um banqueiro não existe.
Isso se passa porque a mídia, as instituições do governo e a sua propaganda oficial querem fazer crer que as dívidas externa e interna são responsabilidade “de todos”. Isto não é verdade na medida em que toda a política econômica dos governos (tanto o de Lula, como o de FHC, e etc.) está voltada para manter o Superávit primário. Ou seja, que se garanta a maior parte da arrecadação tributária do país para pagar os banqueiros internacionais. A partir disso se arrocham os salários, se cancela o investimento em educação, saúde e emprego para remeter todo o dinheiro – fruto do trabalho de nossa classe – para o bolso de meia dúzia de magnatas no exterior. Enquanto temos milhões de miseráveis e esfomeados no mundo inteiro, um punhado de banqueiros vivem numa condição de vida fora da realidade da esmagadora maioria.
E o pior disso tudo: quanto mais se paga a dívida externa, mais ela cresce! Na verdade o que se paga são apenas os juros da dívida, nunca chegando ao seu valor real. Quando isso ocorre, todo o pagamento se torna um vínculo escravagista que entra em uma lógica infernal e sem fim. Primeiro foi a ditadura militar que, a partir de 1987, chegou a assustadora marca de US$107 bilhões. Todos os governos seguintes pagaram religiosamente em dia a dívida ao FMI – na verdade somente os juros –, e o governo Lula, em seu primeiro mandato, chegou a acumular quase o dobro do que pagou FHC em oito anos (R$330 bilhões de Lula contra R$158 bilhões de FHC). Todo o esforço do governo Lula foi o de apertar o cinto dos trabalhadores pra poder pagar os banqueiros capitalistas internacionais e qual foi o resultado? Mesmo com a farsa de não pedir mais empréstimos ao FMI e se julgando “independente” do mesmo, em 2006, Lula pagou nada mais nada menos do que R$404,1 bilhões e, mesmo assim, a dívida externa não para de crescer. Esta talvez, pelas proporções, seja a maior corrupção do país.
Uma das primeiras medidas para se acabar com a corrupção do Brasil é não pagar a dívida externa e interna aos banqueiros sanguessugas, que condenam milhões de trabalhadores ao desemprego, a miséria e a fome. Como ficou demonstrado, a dívida não foi feita pelos trabalhadores e, no que depender da burguesia, nunca vai ter fim.
As eleições burguesas: um jogo de cartas marcadas
A democracia existente hoje no Brasil só existe para os ricos, enquanto que para os trabalhadores é só repressão, arrocho salarial e miséria. A imprensa e as instituições do Estado Burguês querem nos fazer crer que qualquer “cidadão” de bem pode disputar as eleições e se eleger. Nada mais falso! Só os empresários, banqueiros e latifundiários tem recursos para investir em partidos e candidatos. É só a eles que as leis eleitorais beneficiam, bem como toda a estrutura política das instituições do país. Para o trabalhador que pensa diferente e quer se candidatar não há recursos e nem espaço democrático, mas somente repressão física e desmoralização verbal.
A corrupção está inerente ao modelo de democracia que a burguesia prega hoje. As grandes empresas burguesas financiam as campanhas dos partidos eleitoreiros que sempre pagam em dobro depois de eleitos. Aí entram em cena as políticas das isenções fiscais às grandes empresas, de propina de construtora, de uma “troca de favores” com outros setores e assim sucessivamente. Por isso a corrupção é inerente ao capitalismo. Os grandes empresários controlam a justiça, as eleições e elegem seus representantes para que executem leis em favor de seus interesses e para que desviem verbas públicas para enriquecerem ainda mais, aumentando seus patrimônios.
Para os trabalhadores só resta a alternativa de trabalhar e trabalhar sem poder dizer um “ai” sequer. Vota-se em um candidato por acreditar no seu discurso de mudança e em suas promessas e quando este faz tudo ao contrário do que prometeu não se pode fazer nada. Existe a imunidade parlamentar, os mandatos não são revogáveis e o eleitor não tem nenhum controle sobre o candidato eleito. Por isso a esperança de mudar a vida pelas eleições é cada vez menor entre os trabalhadores. Eleição depois de eleição é sempre a mesma coisa: só se vê discurso bonito na TV e mais quatro anos de ataque aos nossos direitos com cada vez mais escândalos de corrupção.
Derrotar o governo Lula. Abaixo o Congresso corrupto
Todos os trabalhadores do Brasil estão cansados de ver tanta corrupção cotidianamente. Os partidos eleitoreiros e os empresários estão sempre juntos quando se trata de meter a mão no dinheiro público e enganar os trabalhadores.
Lula se elegeu com o discurso de mudança e, na prática, é igual aos partidos burgueses até na corrupção. Isso se dá porque Lula e o PT tinham outra estratégia: a de querer reformar o estado burguês. Este falso raciocínio leva a grandes catástrofes políticas e o governo de Lula não fugiu desta regra. Não foi o estado que se modificou com a eleição de Lula, mas sim o próprio PT que abandonou qualquer compromisso com os trabalhadores e passou de malas e bagagens para o lado dos empresários e de Bush.
O Governo, o Senado, a Câmara dos deputados e a justiça são instituições da classe burguesa, isto é, só atendem aos interesses destes indivíduos enquanto classe. Ao contrário daqueles intelectuais que afirmam que roubar é “da natureza humana”, a corrupção é um mal inerente ao sistema capitalista, que se baseia na necessidade de acumular riqueza e concentrá-la na mão de meia dúzia.
Não foi o Lula e o PT que mudaram o nosso país. Também não será a Heloísa Helena com a Frente Popular de esquerda (PSOL, PCB e PSTU), nem presidente nenhum e nem a eleição de algum parlamentar que determinará a mudança na vida dos bilhões de pessoas pobres. Somente uma Revolução dos trabalhadores e do conjunto dos explorados é que pode acabar com a corrupção e construir um sistema superior, socialista, onde o lucro não seja o objetivo da produção, mas sim a necessidade da sociedade. Somente a organização e a luta direta de nossa classe, em cada local de trabalho, bairro, associação, universidade e no campo, pode garantir democracia direta, de verdade, popular. Essa só vai existir quando os trabalhadores, os verdadeiros produtores, controlarem toda a produção e a riqueza do país, as fábricas, as terras e os bancos.
Para isso é fundamental que lutemos contra todo o governo Lula em seu conjunto, bem como contra as entidades do movimento que o representa – como a CUT e a UNE. Lutemos também para por abaixo o Congresso dos ricos e corruptos. Vamos construir um grande movimento revolucionário.