GUERRA DO VIETNÃ! Uma vitória heroica de um povo; uma derrota histórica do imperialismo!

Há 35 anos, terminava um dos episódios mais heroicos e marcantes da História. A Guerra do Vietnã, que durou mais de 15 anos e, oficialmente, compreendeu um conflito armado entre o Vietnã do Norte, com apoio da Frente de Libertação Nacional, ao sul, contra o Vietnã do Sul, com apoio dos EUA, além de Coreia do Sul, Filipinas, Taiwan, Tailândia, Austrália e Nova Zelândia. Na verdade, contudo, a guerra do Vietnã foi uma guerra travada entre os trabalhadores de todo o Vietnã contra todos seus exploradores nacionais e, principalmente, internacionais.

        Não foi uma guerra apenas de “independência nacional” muito menos “regional”, do norte contra o sul. Foi uma guerra que expôs em campo aberto o auge da luta de classes internacional, e expressou o conflito máximo entre trabalhadores versus burgueses, que se repetiu e multiplicou no mundo inteiro.

        Depois de derrotar a colonização francesa e a ocupação japonesa, o povo do Vietnã caiu em um novo ciclo de exploração estrangeira. As tropas de libertação nacional e a luta dos trabalhadores conseguem fundar uma república independente no norte do país, reconhecida apenas pela China e URSS, chamada de República Democrática do Vietnã, sob o governo do nacionalista Ho Chi Minh, próximo do socialismo.

        Em 1955, depois do acordo de Genebra, o país é divido em dois, reconhecendo-se o Vietnã do Norte e fundando o Vietnã do Sul, sob o governo de Ngo Dinh Diem, um testa-de-ferro dos EUA, corrupto e assassino. Esta divisão, assim como na Coreia, tinha por objetivo cercar e impedir o alastramento de experiências operárias, quando não era possível esmagá-las. Dessa forma, um mesmo povo, com uma mesma luta e cultura, foi artificialmente dividido e jogado um contra o outro, através de fronteiras nacionais fictícias e impostas pelo imperialismo, como fizeram na América Central e África. 

        O norte “comunista” defendia a reunificação do país e ajudava a Frente Nacional para a Libertação do Vietnã, composta pelos chamados “vietcongs”, que atuava no sul contra o governo Diem, um governo cada vez mais autoritário, repressor e corrupto. Após ir ganhando a massa para a política de unidade nacional sob um governo dos trabalhadores, os militantes “comunistas” desestabilizaram o governo capacho do sul, o que culminou com um golpe e a morte de Diem pelos militares, em 1963. Depois disso, a guerra segue uma escalada cada vez mais sangrenta, que só vão terminar em 1975, com a unificação do Vietnã sob a liderança do Partido Comunista, implantando um Estado operário, ainda que burocratizado, em todo o país, e, finalmente, expulsando os exploradores e ocupantes imperialistas.

Os EUA entram em cena

        Em 1959, quando o ditador Diem ainda estava à frente da metade sul do país, seu governo e o imperialismo iniciam uma ofensiva contra os comunistas do sul, a qual é contra-atacada pelo Viet Minh, com apoio do Vietnã do Norte, iniciando de fato a guerra do Vietnã.

        A partir daí, os EUA, sob a presidência de John Kennedy, a partir de 1960, começa uma escalada contra o Vietnã, primeiro ideologicamente, tratando de chamar provocativamente os comunistas e a FNL de “vietcongs”, “agentes russos”, etc.; e, depois, diretamente bombardeando vilarejos com napalm, armas químicas que queimavam crianças vivas, além de massacrar os trabalhadores.

        Em 1963, Kennedy, ou JFK, morreu assassinado, três meses depois do ditador sul-vietnamita, Diem. Kennedy, até hoje representado como um presidente progressivo e simpático, que teria sido assassinado por atrapalhar os interesses de grandes grupos de direita americanos, na verdade, iniciou a guerra e o iniciou o envio de jovens pobres e negros para matar e morrer num país ocupado para impedir que fosse livre.

        Em seu lugar, assumiu Lyndon Johnson, que, ao constatar as grandes baixas sofridas pelo Vietnã do Sul contra a guerrilha vietnamita, e a ameaça de uma derrota estratégica, apostou todas suas fichas em massificar a intervenção. Depois de dar somas vultosas de dinheiro e multiplicar bombardeios aéreos no Vietnã, o governo dos EUA enviou mais de 200 mil soldados ao país. Após um tempo, as tropas chegaram à marca incrível de mais de 500 mil soldados.

        Numa declaração similar a que havia feito aos franceses anos antes, Ho Chi Minh declarou que "se os americanos querem fazer a guerra por vinte anos, então nós a faremos por vinte anos; se eles querem fazer a paz, nós faremos a paz e os convidaremos para um chá à tarde". Uma declaração simbólica de uma direção, ao mesmo tempo muito combativa, mas também suscetível às ordens soviéticas de não arrumar briga com os Estados Unidos, mantendo a oportunista e criminosa fórmula de “coexistência pacífica” negociada por Moscou com o imperialismo.

        De fato, porém, a guerra durou quase esses 20 anos e culminou com a morte de cerca de 6 milhões de pessoas, entre vietnamitas e cambojanos, além de mais de 50 mil soldados norte-americanos mortos. Os norte-vietnamitas e a FNL se organizaram através do método da guerrilha, embrenhando-se na selva vietnamita e do conjunto da Indochina (região que compreende também os vizinhos Laos e Camboja), armando infinitas armadilhas e emboscadas aos norte-americanos e podendo, assim, resistir à ocupação e vencer um exército mil vezes mais equipado e com mais poder de fogo.

        Sem dúvida, a História do Vietnã, marcada pela ocupação militar estrangeira, foi determinante para criar uma unidade nacional e uma resistência de massas determinada a não se entregar. Esse elemento histórico ajudou a permitir a vitória vietnamita. Mas, mais que a unidade nacional, presente em vários locais e sem obter o mesmo e bem-sucedido resultado, o determinante para a vitória dos trabalhadores Vietnam inatas foi o enfrentamento político em jogo.

        O heroísmo e coragem dos vietnamitas, que conquistaram o mundo, e contagiou gerações de lutadores, só se explica pela mesma razão que levou à vitória dos soviéticos contra os nazistas, ganhando praticamente sozinhos (75% das baixas alemãs) uma guerra dada como perdida. É o que também explica as vitórias em Cuba, na China e tantos outros locais em que mesmo em total desvantagem os trabalhadores, como classe, resistem e conseguem obter feitos memoráveis.

        É decorrência dessa radicalização da luta de classes que se angariou o repúdio generalizado à ocupação americana, que impediu o governo americano de sustentar a guerra, através de massivas marchas exigindo a retirada das tropas, greves e protestos de todo o tipo, incluindo a recuso em servir no exército. Um desses casos mais famosos foi protagonizado pelo então campeão um mundial de boxe, e maior boxeador da História, Muhammad Ali, que mudara de nome e tinha se convertido ao islamismo. Ao contrário de Elvis Presley e tantos outros que “faziam de conta” que se alistavam e iam “lutar”, sendo que na verdade apenas animavam as tropas e serviam de propaganda de guerra, Muhammad Ali denunciou a guerra e fez campanha abertamente contra os EUA e a favor dos vietnamitas. Isso lhe custou o título mundial e a perseguição em seu próprio país, mas o elevou ao patamar de um exemplo da luta dos negros e de todos os trabalhadores, muito mais do que um esportista campeão.

        Este fato mostra como, dentro e fora dos EUA, crescia a pressão popular, que culminou com a retirada das tropas em 1973, literalmente numa fuga desesperada antes que a resistência terminasse de justiçar os últimos ocupantes imperialistas. Foi a maior guerra que os EUA já travaram e sua derrota tomou proporções tão gigantescas que seus reflexos na política exterior e na cultura do país, ficaram conhecidos como a chamada “Síndrome do Vietnã”.

        A guerra terminou em 30 de abril de 1975, com a tomada de Saigon, a antiga capital do sul, pelas forças “vietcongs” e do Vietnã do Norte, tendo sido renomeada como Cidade de Ho Chi Minh, em homenagem ao líder norte-vietnamita.

        A Frente de Libertação Nacional estabeleceu um governo provisório para o Vietnã do Sul, designado República do Vietnã do Sul, que durou cerca de um ano, até a reunificação do país a 2 de julho de 1976, que então passou a chamar-se República Socialista do Vietnã, num feito grandioso para seus habitantes, finalmente sob um país soberano, e para o mundo inteiro, impressionado com a vitória vietnamita e inspirado a repetir seu exemplo.

A Vitória vietnamita abre uma onda mundial de lutas revolucionárias!

        O mundo mudou bastante após este conflito. Após esta vitória das massas, a correlação de forças internacional se voltou ainda mais a favor dos trabalhadores, acentuando o caráter revolucionário da etapa já revolucionária aberta com a vitória contra o nazi-fascismo ao final da 2a Guerra Mundial.

        Dentro da época imperialista, que se caracteriza pelo esgotamento das forças produtivas do capitalismo, que não consegue mais crescer, existiram etapas favoráveis aos trabalhadores (como a aberta com a Revolução Russa de 1917 ou a do pós 2º guerra) e desfavoráveis (como o período a partir de 1923, no qual a revolução na Europa foi derrotada e surgiu o nazi-fascismo).

        Entretanto, a realidade geral do século XX e início do XXI é marcada por cada vez mais crises, guerras e revoluções, confirmando as previsões de Lênin, revolucionário russo, sobre as características da fase imperialista.

        Depois da segunda Guerra Mundial, por exemplo, o mundo presenciou um ascenso fortíssimo da classe operária, derrotando os nazistas e expropriando a burguesia em vários países do leste europeu, sudeste asiático, China e Cuba. De 1945 a 1975, ano em que acabou a guerra do Vietnã, o cenário mundial foi marcado por uma polarização social crescente, com vitórias importantes da classe operária mundial, ainda que com a posição hegemônica dos EUA no ocidente capitalista e o fortalecimento conjuntural da burocracia stalinista nos Estados Operários, que já nasciam deformados, sem democracia operária, sob controle de Moscou.

        Contudo, a partir de 1975, com a vitória dos vietnamitas sobre o maior exército do mundo, se aprofunda esta etapa revolucionária, devido ao enfraquecimento político e militar dos EUA e a injeção de ânimo que a vitória do Vietnã representou para as massas do mundo inteiro, que haviam se mobilizado em torno do movimento mundial de solidariedade.

        Havia se provado que era possível derrotar os EUA. Não por acaso, ainda antes da vitória final da resistência vietnamita, Che Guevara já falava em “fazer 2, 3, mil Vietnãs”. Junto com a expulsão humilhante norte-americana, ficou um exemplo que se estende até os dias de hoje.

        Quando falamos do enorme desgaste da ocupação militar ao Afeganistão e Iraque, bem como da reprovação mundial ao governo Bush, Blair e companhia, e, embora em menor grau, agora também com Obama, é preciso voltar ao Vietnã e entender que o ódio à política belicista iniciou lá e é determinante para a resolução de um conflito em favor de uma nação semi-colonial e ocupada.

        A coragem e disposição de luta dos afegãos, palestinos e iraquianos pode se transformar em vitória, e a História do Vietnã está aí para ensinar o caminho. Que o Iraque e o Afeganistão se convertam em novos Vietnãs!


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