Guerra do Afeganistão: o imperialismo entra cada vez mais fundo em um beco sem saída

Troca de comando militar demonstra o quanto governo não sabe que rumo seguir

        Recentemente, a declaração de um general norte-americano, responsável pela condução militar dos EUA e da OTAN no Afeganistão, a uma revista de variedades, foi responsável por demonstrar toda a fragilidade da ocupação imperialista no país.

        Stanley McChrystal declarou à revista Rolling Stone, em tom de deboche, que a linha “moderada” definida pelo Pentágono (Departamento de Defesa dos EUA) e o conjunto do governo Obama será responsável por mais uma derrota militar do país.

        O que McChrystal defendia era uma ofensiva ainda maior, com um grande contingente de militares ocupando o país e acabando com qualquer tipo de resistência à ocupação. Nada com o que Obama não concorde, e que inclusive já não venha tentando fazer, mas sem sucesso em função de que não há nenhuma condição política para isso.

        O ex-general sempre teve total apoio de Obama, que no início deste ano aumentou em 320 bilhões de dólares o orçamento gasto nos dois fronts de ocupação, Iraque e Afeganistão, em 2010 e 2011. Da mesma forma, mandou mais milhares de soldados para o Afeganistão.

        Agora, seu substituto é David Petraeus, responsável pela execução das ordens imperialistas no Iraque e autor do manual da “contra-insurgência”, uma teoria a ser aplicada em países a serem invadidos, com a finalidade de reprimir a população para que não se revolte contra os invasores.

Dinheiro desperdiçado e mortes tornam a guerra cada vez mais insustentável

        As declarações do ex-general não são isoladas. Pela direita, muitas empresas e políticos mais fundamentalistas se impacientam com o fracasso que vem se acumulando no Afeganistão. A “guerra de Obama”, que colocou todas suas fichas neste país, vem fracassando. Além do crescimento dos atentados e mortes dos soldados ocupantes, o vizinho Paquistão e a região de fronteira estão cada vez mais fora de controle ou com focos de resistência se multiplicando.

        Os EUA já somam mais de 5 mil mortos na guerra e os países aliados dos EUA que compõem a OTAN também já começam a ter um aumento significativo nas baixas, dificultando ainda mais para os Estados Unidos manterem a ocupação. Somente em junho deste ano, 100 militares da OTAN foram mortos em conflitos contra a resistência. Não por acaso, vários países já abandonaram a coalizão afegã.

        A Grã-Bretanha, por exemplo, em resposta a todas as dificuldades que vem enfrentando, anunciou sua decisão de abandonar o distrito de Sangin, ao sul do Afeganistão, considerada uma das regiões mais violentas e conturbadas do país, já que um terço das 312 mortes dos soldados britânicos ocorreu neste distrito. Assim, os britânicos irão retirar quase mil soldados que estavam na região.

        Atualmente, a Grã-Bretanha, principal aliado dos EUA no Afeganistão, mantém cerca de 9.500 soldados, a grande maioria baseado na província de Helmand, local onde foram dados os conflitos mais sangrentos desde o início da ocupação

        Esse é um caso exemplar, em que a população britânica já está repudiando mais esta guerra, num processo que pode repetir a rejeição em massa à guerra do Iraque, cujo resultado foi a desmoralização total e irreversível do governo Tony Blair.

        Mesmo com um contingente de 150 mil soldados da OTAN, a resistência continua a crescer, mas, ao invés de recuar, Obama se prepara para votar no congresso norte-americano um aumento dos soldados. Todos os indícios são de um novo atoleiro para o imperialismo, numa repetição do Iraque e, mais longinquamente, do Vietnã, numa guerra que não pode mais ser vencida.

        Bush e Obama duas faces de uma mesma política

        Logo quando Bush começou a investida militarista, os EUA e seus aliados acreditavam que seria uma guerra fácil e rápida, já que as organizações que estariam contra a ocupação seriam facilmente esmagadas. Porém, o imperialismo somente somou derrotas desde seu início. Até agora, não conseguiram capturar Osama Bin Laden, considerado o grande troféu para os EUA, nem “pacificaram” lugar nenhum para seus negócios. 

        As mortes entre os soldados norte-americanos não param de subir, fazendo com que fique mais difícil justificar a guerra. Enquanto os atentados em 2001 às torres gêmeas justificaram as guerras, ao ganhar  trabalhadores para uma política agressiva e lenta internacionalmente, o presente mostra a realidade de mortes dos soldados, que se tornam as recentes tragédias vivas entre a população norte-americana.

        Obama foi eleito com um discurso totalmente oposto ao de Bush. Seu discurso de mudanças, anti-belicista obteve adeptos por propor acabar gradualmente com a guerra no Afeganistão e retirar os soldados do Iraque, assim como fechar a prisão de Guantánamo em Cuba, associada às torturas e ausência de qualquer processo legítimo.

        Obama não só não cumpriu nenhuma dessas promessas, como vem se enredando cada vez mais numa rede que exige ainda mais gastos militares. O problema é que o reflexo disso, na população é uma oposição crescente ao governo. Bush pôde lidar com isso, pois sua base de sustentação era a direita fundamentalista e indústrias bélica e do petróleo. Obama, no entanto, tem sua força combinada pelo apoio patronal e pela sustentação popular. A perda do apoio e confiança dos trabalhadores, para Obama, é muitíssimo mais grave do que foi para Bush, portanto.

        Assim, a burguesia imperialista dos EUA tem cada vez mais dificuldade em aplicar suas decisões. Obama já anunciou que, no fim do ano, terá que rever toda a estratégia que vem sendo usada na invasão, o que não significa que esteja garantida  alguma mudança, mas, ao menos, o governo está se sentindo pressionado para mudar de rumo.

        Porém, por o governo Obama possuir muitas características como as de um governo de Frente Popular, o risco de perder o apoio que os trabalhadores depositam sobre seu mandato pode ter consequências desastrosas a seus interesses.

        Trabalhadores dos EUA, Afeganistão e todos outros países do mundo contra a ocupação, para derrotar o imperialismo.

        A população norte-americana já vem percebendo que não tem nada a ganhar com a ocupação dos países do Oriente Médio ou seu entorno, como o Afeganistão. Quando a burguesia determina a invasão a outro país os trabalhadores do país atacante só tem a perder. Primeiro, com as verbas que poderiam ser destinadas a mais benefícios para os trabalhadores, e que passam a ser usadas para financiar a investida bélica; segundo, pelas inúmeras mortes dos jovens que vão para os fronts.

        Enquanto isso, os trabalhadores do país atacado têm suas vidas totalmente destruídas. Sua casa vai abaixo pelas bombas que são atiradas, os tiroteios são constantes, suas esposas e filhas são estupradas; fazendo com que a única alternativa de continuar vivendo seja a luta.

        No caso do Afeganistão, a combinação de uma guerra sem sentido para a população dos países que atacam, e o ódio da população local e disposição de morrer para expulsar os invasores, cria uma conjuntura em que o imperialismo está impedido de vencer.

        Infelizmente, a principal organização que representa a resistência militar é a Al-Qaeda, que se trata de uma organização burguesa que utiliza métodos totalmente aversos aos métodos de luta dos trabalhadores, mas, mesmo não defendendo os interesses dos trabalhadores estrategicamente, é a expressão prática da luta contra o imperialismo .

         Este tipo de alternativa, inevitavelmente, vai seguir se multiplicando enquanto não houver direções revolucionárias verdadeiramente dos trabalhadores, representando suas necessidades históricas e imediatas. Por um lado, é lamentável que a energia de luta operária e popular seja desviada de seu centro, que deveria ser a luta pelo fim do capitalismo e pela tomada do poder.

        No entanto, por outro lado, fica claro que há espaço para direções combativas e que, à medida que os socialistas consigam somar-se às lutas e iniciem a disputa programática pela defesa de um projeto dos trabalhadores, há condições de apresentar uma alternativa de luta, laica, socialista e revolucionária, integrando homens e mulheres, atuando por meio de ações políticas e militares, legal e ilegalmente.


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