Reforma Financeira nos EUA

O capitalismo, ao não poder se salvar, tenta disfarçar sua aparência

A cada nova crise, a burguesia assiste seu mundo balançar, suas teses irem abaixo e seus lucros desabarem. A atual crise não foi a primeira, nem sequer a mais intensa da História capitalista, mas a preocupação é de que há quase 80 anos não se via tamanha intensidade, e as crises estão cada vez mais próximas umas das outras. Os capitalistas sabem que, de crise em crise, seu sistema está seriamente ameaçado.

        Diante de cada evento deste tipo, a burguesia precisa inventar respostas rápidas, que impeçam que surja uma saída por fora de seu Estado. Assim, ela semeia a ilusão de que é possível renovar o capitalismo, aprender com os erros, e, para isso, sempre propõe um “novo marco”, “novas regras”, etc. Como se o problema do capitalismo fosse os desvios de seu caminho virtuoso, e não que o sistema todo esteja podre.

        Isso é o que vem acontecendo agora, depois de anos de uma intensa crise no mundo inteiro, que atingiu em cheio o coração do capitalismo, com meses e anos consecutivos de demissões, de arrocho salarial, ataques a direitos trabalhistas e assalto aos cofres públicos, com trilhões de dólares sendo transferidos aos grandes proprietários, para evitar suas falências.

        Como sempre, no que depender dos patrões e dos governos, mais uma vez serão os trabalhadores a pagar por esta crise. Só que nem todos os ataques podem ser chamados de ataques. Como os trabalhadores estão na ofensiva internacionalmente, muitos destes golpes contra a maioria da população acabam sendo chamados de “reformas”.

Obama tenta regular a economia para que grandes empresas ganhem mais e de modo mais seguro

As últimas grandes reformas financeiras, que estabeleceram alguns parâmetros para a economia em nível mundial, ocorreram após a grande crise de 1929, e depois do término da 2ª Guerra Mundial, em 1945. A grosso modo, estes dois momentos impuseram a necessidade de medidas de aumento do controle estatal, seja com concessões sociais e investimentos públicos, seja com expropriações burguesas e controle da produção nas mãos da burocracia estatal.

        Agora, diante da crise mundial e ausência de uma solução concreta, o governo Barack Obama aprova uma nova reforma do sistema financeiro nos EUA, que é uma gota no oceano, mas que aponta no sentido de tentar defender os interesses dos grandes banqueiros e empresários.

        Mesmo que tenha a oposição da maioria dos grandes grupos econômicos e seja apresentada como uma iniciativa a favor do povo, por limitar os abusos financeiros, a reforma de Obama é mais um passo que consolida a exploração capitalista.

        Essa reforma tenta pincelar algum controle sobre o capitalismo financeiro, onde se deu o estopim da crise, e consiste em alguns pontos centrais, como: restringir a tomada de risco por parte dos bancos; criação de um órgão supervisor de cartões de crédito; mudar a forma como o governo lida com empresas que vão à falência.

        Seus pontos e as soluções propostas não vêm no sentido de atacar os interesses das grandes multinacionais e impedir que seus executivos gastem fortunas enquanto as empresas vão à falência. Também não se toca na necessidade de garantir estabilidade no emprego durante a crise; distribuição dos lucros entre os funcionários; ou mesmo no fim dos subsídios a empresas que seguem drenando rios de dinheiro para uma massa falida irrecuperável.

        Ao contrário, essa reforma nada mais é do que a continuidade do que foi visto ao longo de toda a crise, e que ainda segue atingindo os trabalhadores no mundo todo, principalmente na Europa: uma aceleração da remessa de recursos públicos às empresas privadas e a adequação jurídica disto tudo.

Mas é claro que Obama precisa valorizar sua falsa reforma e discursar que “os americanos nunca mais terão de pagar pelos erros de Wall Street” e que “estas reformas representam as mais fortes proteções ao consumidor da História”. Até parece nosso presidente Lula falando, pelo tom ufanista, mas a verdade não é nada disso.

        Em termos práticos, Obama apenas propôs que haja um órgão de defesa do consumidor e que os bancos e financeiras tenham que prestar contas mais detalhadas e seguidas. A lógica não muda nada!

Não é possível reformar o capitalismo, quanto mais apenas um aspecto isolado

A grande demonstração política de que o capitalismo é incapaz de criar alternativas reais para sanar as suas crises é que, hoje, mesmo que de forma parcial e de fachada, o que se discute é uma intervenção maior do Estado na economia. E isso é justamente o oposto ao neoliberalismo, que foi a grande saída apresentada ao longo da década de 90, que levou a privatizações generalizadas, e perda do controle sobre o sistema financeiro.

        Assim, a receita de hoje é o veneno de amanhã. O capitalismo tenta se manter, em meio ao caos, dizendo uma coisa ao contrário da outra, alternadamente, enquanto segue tudo igual.

        Com a crise atual, a grande justificativa para a existência do capitalismo desde a queda do muro de Berlim foi por água abaixo. Agora, novamente o Estado é obrigado a admitir a necessidade de intervir na economia, para seguir ajudando aos patrões e às multinacionais. Por trás dessa manobra de “estica e puxa”, porém, há algo mais profundo: uma grande derrota ideológica, pois se reafirma o quanto uma economia completamente estatal é necessária, o que abre um precedente perigoso à burguesia, fortalecendo a luta por sua expropriação.

        O limite da reforma de Obama, mais do que seus limites específicos, como sequer retomar o controle total do Estado burguês sobre a economia, e ter uma regulação para valer, é que, mesmo que fosse mil vezes mais ousada e ampla, nenhuma reforma poderia realmente salvar o capitalismo.

        O Estado, mesmo interventor e regulador, age assim para estar à disposição dos grandes grupos capitalistas e de seus prejuízos, tirando-os do fundo do poço. A realidade é que o maior limite para qualquer mudança do sistema financeiro é a própria natureza de classe do Estado, que, sem do burguês, mesmo que interviesse sobre toda a economia ainda estaria a serviço da classe dominante e seus interesses. 

        Ao mesmo tempo, em meio à sua inutilidade, a reforma, mesmo com mudanças irrelevantes do ponto de vista estrutural, já ocasiona turbulências entre a burguesia, o que não prova que é uma reforma forte, e sim que a burguesia está fragilizada e pequenas mudanças podem destruir alguns de seus representantes.

        A ABA (Associação dos Banqueiros Americanos) se disse "decepcionada" com a reforma, em um comunicado que contém, segundo ela, "um tsunami de novas regras e restrições para os bancos tradicionais que não têm nada a ver com as causas da crise financeira". Os banqueiros adoraram os US$ 700 bilhões para salvá-los da crise que Obama deu, mas hoje já estão novamente famintos, e querem ainda mais do governo, e nada a menos.

        Os americanos e o povo do mundo todo já tiveram um belo exemplo do que são as reformas de Obama, vide a reforma do sistema de saúde, que em nada de significativo mudou a assistência à saúde nos EUA. Essa é apenas mais uma tentativa de convencer os trabalhadores de que o capitalismo é capaz de se regenerar, produto de um governo que só tem a ilusão como sua aliada contra o desespero dos trabalhadores.

        Enquanto isso, na outra ponta, a classe trabalhadora vem sentindo o preço de cada ação do imperialismo e tem reagido. As greves gerais na Grécia mostram o caminho! Só a luta dos trabalhadores é capaz de impor uma verdadeira mudança e controle sobre a economia, garantindo que a produção esteja a serviço da sociedade como um todo, e não do lucro.

        Nenhum governo é capaz de apresentar essas medidas. Contra as crises do capitalismo cada vez mais fortes e abrangentes, é preciso pôr abaixo o capitalismo como um todo. E a construção de um novo tipo de sociedade pela via revolucionária é a única saída real.

 


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