Ganhe quem ganhar a vida não vai mudar

Mais uma eleição vem aí. É promessa na TV, músicas em carros de som pelas ruas e fotos com números para todo lado. São milhares de candidatos e dezenas de partidos pedindo o voto, mas sem debater o conteúdo de nada.

A discussão sobre o “preço do feijão, do peixe e da farinha”, ou os reflexos disso na “prostituta e no menor abandonado” que nascem desse sistema, não é feita nas eleições.

Os candidatos têm sempre o mesmo discurso, falam as mesmas frases ensaiadas, defendem o mesmo programa capitalista e são pagos pelos mesmos empresários corruptos, que já pagam todos para não terem surpresas: ganhe quem ganhar, sabem que a vida não vai mudar!

Diversos candidatos, da direita mais tradicional até os que se dizem mais de esquerda estão prometendo soluções para resolver todos os problemas da sociedade. No entanto, após a eleição e a decepção com o governo Lula, que significava a esperança de mudança para milhões de pessoas, as ilusões são cada vez menores.

Os políticos eleitos para representar o “povo”, além de roubar dinheiro público como nunca, promovem um amplo ataque ao conjunto dos explorados, por meio de um acordo entre todos eles, que envolve o Congresso Nacional, a Justiça, a imprensa e o governo. O governo Lula, de Frente Popular, foi a medida necessária à burguesia para aprofundar os ataques à classe trabalhadora, por meio de um governo que contou com as esperanças dos trabalhadores, e cooptou as direções dos movimentos de massas do país.

Depois de oito anos de mandato, Lula provou que é igual aos outros e seu governo, que começou com o ataque à Previdência e aos aposentados, passou pelo mensalão e termina abraçado em Jose Sarney, Renan Calheiros e Collor, afundado em corrupção e novos ataques aos trabalhadores, com um plano de privatizações, arrocho salarial e desmonte dos serviços públicos.

Por conta de todas essas experiências, fica difícil para a classe trabalhadora acreditar cegamente nas eleições outra vez. Por ser obrigada a votar, e sofrer um bombardeio para apoiar este ou aquele candidato, a realidade é que a maioria da população vai votar em alguém, apesar da crescente votação em branco e nulo, e das abstenções. Mas este voto, majoritariamente, é um voto de “nariz tapado”, no menos pior, e sem entusiasmo nenhum.

É generalizada a compreensão de que a vida não vai mudar pelas eleições; que os políticos são todos ladrões; e que as eleições são cada vez mais um jogo de cartas marcadas. Um dos reflexos disso é que não se vê mais a população indo para as ruas fazer campanha. Hoje, só existe militância paga e o desinteresse geral não muda até o dia da votação.

Faltando menos pouco mais de um mês para as eleições, e já com a propaganda obrigatória na TV, os comentários sobre as eleições são sempre forçados pela imprensa e pelos candidatos. A população, mesmo, passa à margem deste debate, pois também sabe que “ganhe quem ganhar, a vida não vai mudar”. O processo eleitoral está mais frio do que nunca, depois de anos já sem ânimo algum por parte dos trabalhadores.

A descrença com as eleições cria um cenário favorável ao chamado “voto útil”, porque, “se todos são iguais, eu voto no menos pior dos que podem ganhar”. Este ambiente aumenta a polarização entre Dilma (PT) e Serra (PSDB), que são os candidatos com mais propagandas milionárias e estrutura de campanha.

A preferência por eles é muito mais por exclusão dos demais, vistos como a mesma coisa mas sem chances de ganhar, do que por méritos seus. Assim, quem vota em Dilma, vota muito mais para “Derrotar Serra”, e em função do repúdio a FHC, à privatizações, etc. E quem vota em serra, vota para “Derrotar Dilma”, representante de Lula, e seu governo de decepção histórica e corrupção generalizada.

As outras candidaturas, como a de Marina Silva (PV), que poderiam entrar com mais força entre a polarização do PT e PSDB, acabam esvaziadas, por apresentar um discurso muito similar, sem propostas claras para os trabalhadores e comprometidas com a mesma lógica e programa capitalista, desde seu financiamento até suas propostas e militância paga.

O candidato do PSOL, Plínio de Arruda Sampaio, também é mais do mesmo. Apresenta uma candidatura de defesa explícita do capitalismo, de suas leis e suas instituições. Plínio expressa, como Marina, uma candidatura de direita, no sentido de que tem um programa eleitoreiro, supostamente de “reformas do capitalismo”, mas que é ainda pior que isso: é de defesa do capitalismo quase incondicionalmente, apelando apenas para a “ética na política” e um maior controle social do Estado.

Nada disso tem a ver com a necessidade dos trabalhadores, e nem sequer corresponde à conjuntura política que vivemos, em que as lutas aumentam, junto da experiência dos trabalhadores, e permitem que se lute abertamente contra o governo Lula e suas medidas, atacando o sistema capitalista como um todo e aprofundando o desgaste das próprias eleições como um meio de tentar desviar estas lutas.

Há um grande espaço que nos permite ir mais à esquerda e denunciar as instituições burguesas, combinando as lutas pelas bandeiras mais sentidas pelos trabalhadores com a necessidade de derrotar os governos de Frente Popular.

Isso é o que deveria fazer a candidatura classista de Zé Maria do PSTU, e o que nós propusemos que fizesse, em frente conosco. Infelizmente, porém, não há nenhuma candidatura com este perfil da luta nestas eleições. Mesmo o PSTU, que combate mais diretamente o governo e fala em socialismo, debate esta questão como “frases rituais”, sem apontar exatamente qual programa, quais campanhas e por meio de quais organizações se pode contrapor as lutas nas ruas contra a reação democrática e a manobra de converter a insatisfação popular em voto para manter tudo como está.

A ausência da democracia para que se compusesse uma frente de fato de todos os lutadores, expressa no veto a que o Movimento Revolucionário falasse em uma atividade de lançamento da pré-candidatura, e a postura de veto político à nossa organização no movimento de massas e sindical; completaram a inviabilidade de que pudéssemos atuar juntos nesta eleição, o que é uma lástima.

Assim, nós do Movimento Revolucionário, por entendermos que a conjuntura nos exige que a luta direta seja o centro do debate e que é preciso derrotar Lula nas ruas, e não através de alternativas meramente eleitorais, chamamos o Voto Nulo. Fazemos isso tanto para indicar a saída das mobilizações para conquistar salário, emprego e direitos, como para disputarmos a consciência dos trabalhadores para o debate de que há, sim, a possibilidade de um futuro diferente.

Assim, o voto nulo que chamamos, como os revolucionários algumas vezes são obrigados a chamar, não é algo abstrato ou que se confunda com o abstencionismo ou negação infantil e idealista do processo eleitoral e do Estado burguês. É um voto nulo de protesto e de luta, que aponta a necessidade da classe trabalhadora derrotar o governo de Frente Popular e a burguesia como um todo, por meio de greves, protestos e ocupações.

Nós dizemos que as eleições não mudam nada, mas que a luta muda a vida e que não só é preciso, como é possível, lutar pela redução da jornada de trabalho, por um salário mínimo maior e por emprego com direitos trabalhistas. E que a maneira de se alcançar isto é lutando, com toda a força, nas fábricas, nas empresas, nos bairros e nos locais de estudo.

Lutar para derrotar Lula e a Frente Popular!

Os 8 anos de governo Lula aplicaram um duro golpe contra os trabalhadores e a juventude. O poder aquisitivo caiu, os funcionários públicos perderam direitos, a aposentadoria ficou mais difícil tardia, e os serviços públicos foram sucateados.      

Lula manteve o que FHC tinha de ruim, como as privatizações (venda de ações no BB, partilha do petróleo e ameaças aos Correios), e não garantiu nenhum avanço significativo. Os trabalhadores não podem permitir que mais um semestre ocorra repleto de ataques, e por isso é preciso lutar. Em setembro, isto quer dizer, desenvolver as greves de bancários, petroleiros e dos Correios!

Eleitoralmente, temos que chamar a que se vote contra o governo e seus candidatos, pois é mentira que será a “volta da direita” que trará ataques aos trabalhadores. Estes ataques já existem! Mas, por outro lado, também temos que derrotar a tal “direita”, que governa igual ao PT, mas que já foi varrida do poder em 2002.

Assim, o conteúdo verdadeiro do que representa os interesses dos trabalhadores deve permanecer o mesmo que vimos apontando: lutar para derrotar Lula! As eleições não podem nos fazer dispersar forças. É preciso, mais do que nunca, responder com greves e lutas ao governo de Frente Popular, lutando onde efetivamente Lula pode ser derrotado: nas ruas.

Por termos a compreensão de que o governo de Frente Popular tem este caráter de frear as lutas, e por também avaliarmos que os trabalhadores não acreditam mais numa solução mágica para melhorar suas vidas, temos como tarefa agitar a bandeira de “Derrotar o Governo Lula” em cada uma de nossas lutas e debates.

Votar nulo para derrotar Dilma e Serra

Considerando-se que as demais candidaturas não são nem cogitadas pela grande massa de trabalhadores, e que as eleições de 2010 terão praticamente duas únicas possibilidades de voto, qualquer outra campanha depara-se com a dificuldade de explicar porque não votar nem em Dilma nem em Serra, e apresentar uma alternativa.

        Votar Nulo não é mais difícil ou mais incompreensível para os trabalhadores do que votar em qualquer outro candidato “nanico”, como a imprensa burguesa trata. É até mais fácil, dado o crescente voto neste sentido no Brasil, e a decepção geral com o sistema a que se assiste. No entanto, o voto nulo revolucionário não é o voto do ceticismo, ou da desistência.

        Para nós, votar nulo é a expressão de que se deve derrotar as saídas burguesas de Dilma e Serra, e de que é possível derrotá-los. Na urna, já é certo que ou um ou outro irá ganhar, e nada vai mudar. Mas a aplicação dos planos de governo que ambos defendem, de pagamento da dívida externa, incentivos fiscais aos grandes empresários, etc., não só não está garantida, como pode ser completamente derrotada.

        Para isso, é preciso lutar! E, nas ruas, é possível impor um programa dos trabalhadores, que na eleição é impossível. Os partidos de esquerda que lançaram seus candidatos não apostam neste caminho. Eles lançam seus candidatos como saídas para os problemas dos trabalhadores por dentro do próprio sistema capitalista.

        A candidatura de Dilma (PT) nada mais é que uma continuidade do governo Lula que provou ser inimigo dos trabalhadores. Dilma nunca fez nada pelos trabalhadores nem pelas mulheres trabalhadoras, especificamente. Serra, do PSDB, é uma continuidade do governo FHC, ainda que com um discurso “esquerdista” perto dele

Os dois são tão iguais no conteúdo e até mesmo na forma com que se apresentam, que os trabalhadores têm uma tarefa: derrotar ambos, sem escolher o “menos pior” ou uma 3ª via, igualmente incapaz de resolver qualquer coisa pelo voto: é preciso votar nulo contra Dilma e Serra e apostar nas lutas como a saída.

Só a luta muda a vida

Foi somente através das lutas e mobilizações que os trabalhadores e a juventude conseguiram historicamente garantir seus direitos. Devemos converter cada luta econômica numa luta política. Transformar e combinar a defesa do 13º salário, das empresas estatais, e a reivindicação de que se dobre o salário mínimo, que diminua a jornada de trabalho, se garanta a licença-maternidade de 6 meses, as cotas raciais, o direito ao aborto, etc., numa luta geral contra o capitalismo.

        A forte crise econômica mundial, que também chegou ao Brasil, provou que o sistema capitalista não é eterno e nem infalível, como afirmava a burguesia. E que, diante da crise, para salvar os ricos, os governos depositaram a conta nas costas dos trabalhadores.

        Mas os trabalhadores não se calaram e reagiram no mundo inteiro com greves e mobilizações. E é este o caminho que precisamos mostrar!

        Por isso, nesse momento no qual se veem diversos políticos prometendo mundos e fundos, como se diz popularmente, cria-se uma necessidade ainda maior de impulsionar as lutas, mobilizações, greves e organizações de bairro, para não somente lutarmos pelos nossos direitos, mas também para impor uma derrota para os governos de Frente Popular e ao conjunto do imperialismo. 

Não há capitalismo sem opressão

As opressões contra as mulheres, negros e homossexuais são utilizadas para melhor explorar os trabalhadores e dividir a luta de classe operária. Por isso, o fim das opressões só pode ser produto do fim do capitalismo.

        Nós defendemos um programa contra o machismo, nas ruas e nas eleições, pela legalização do aborto, licença- maternidade automática e sem isenções fiscais por 6 meses, salário igual para trabalho igual e fim da violência à mulher.

        Também lutamos contra o racismo, por cotas para negros nas universidades, empregos públicos e privados. E lutamos contra a homofobia, por um movimento GLBTTs combativo e antigovernista.

        Estas são lutas fundamentais que precisam ser unificadas com o resto das lutas da classe trabalhadora para derrotar este sistema e construir um novo sistema onde não exista a exploração e os preconceitos: uma sociedade socialista!

Pelo socialismo e a revolução.

Convidamos a todos os trabalhadores e estudantes que estão discutindo conosco a se somar na campanha do Voto Nulo. Mas, mais do que isso, convidamos a que entrem para o Movimento Revolucionário e nos ajudem a construir um partido para as lutas, greves, ocupações e para a revolução da classe trabalhadora.

Nestas eleições, podemos fortalecer uma alternativa que está fazendo 3 anos e crescendo, com um programa revolucionário na teoria e na pratica, que se dedica a avançar as lutas e a consciência dos trabalhadores e da juventude para derrotar o capitalismo.

Nossa política de denúncia do capitalismo e fortalecimento das organizações operárias e populares é permanente, mas fazemos isso a partir do único local onde esta crítica pode sair da contestação e ir para a transformação: da intervenção na luta de classes,conhecendo e partindo da necessidade mais básica do trabalhador e discutindo que no capitalismo, nada vai ser concedido.

Em cada greve, campanha salarial, mobilização e protesto de rua, apresentamos esse programa, e cada membro de nosso partido é parte fundamental neste processo. Nossas portas estão abertas e só com a unidade dos revolucionários é possível construirmos outro mundo. Venha construir um partido revolucionário, de ação e dos oprimidos, porque ganhe quem ganhar as eleições, a vida não vai mudar, e só a revolução muda a vida.


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