70 Anos sem Trotsky: Uma vida dedicada a luta pela revolução

Há 70 anos, enquanto estava exilado no último país que ainda aceitou lhe receber, foi assassinado um dos maiores dirigentes proletários da História. Leon Trotsky lutou por décadas contra a exploração, a fome e a miséria, tanto contra o governo ditatorial de seu país, contra as ditaduras de classe, disfarçadas de “democracias” no resto do mundo.

Após a vitória da Revolução Russa de 1917, nem Trotsky, nem Lênin (o outro principal dirigente desta vitória histórica dos trabalhadores) descansaram ou se acomodaram. Jogaram todas suas forças na expansão internacional da luta socialista, construindo a 3ª Internacional Socialista (ou Internacional Comunista) e desenvolvendo organizações e lutas no mundo inteiro, com a finalidade de acabar com o capitalismo e suas consequências, como o desemprego, a pobreza, a prostituição, a opressão aos negros, mulheres e homossexuais.

Após a derrota internacional da primeira onda de tentativas revolucionárias após a vitória na Rússia, e também depois da morte de Lênin, o Estado operário soviético na Rússia foi tomado por um golpe de Stálin, personagem até então obscuro e secundário, que se apoiou no cansaço e refluxo operário e na adesão em massa de setores oportunistas e pequeno burgueses ao Partido Comunista da União Soviética.

Com este processo, milhões de trabalhadores foram assassinados, levados para trabalhos forçados e perseguidos. Entre eles, a quase totalidade dos dirigentes da Revolução de 1917, sendo o principal alvo, Leon Trotsky.

Trotsky, cujo verdadeiro nome era Lev Davidovich Bronstein, combateu ativamente a degeneração stalinista, que levou ao retrocesso da revolução na Rússia e à contrarrevolução internacional. Primeiramente, constituiu uma oposição interna ao PCUS e à 3ª Internacional, também burocratizada. Depois de que nem sequer a mínima democracia interna existia mais, e que as calúnias, falsificações e traições (como a ocorrida na China em 1927) tinham assumido o controle de tudo, Trotsky rompe organizativamente com o partido que ele ajudou decisivamente a tomar o poder, e com a Internacional de que foi fundador, e chama a construção de uma nova Internacional, a 4ª, fundada em 1938, no México, no mesmo ano em que o “velho” como já era conhecido escreveu o célebre livro “Programa de Transição”.

Por conta de sua trajetória de vida, onde não há manchas, nem nunca se manifestou a covardia ou acomodação, Trotsky foi vítima de quase todos os crimes possíveis.

Viu seus familiares serem perseguidos e mortos (incluindo 3 de seus 4 filhos); foi expulso do partido, deportado e cassado; teve que viver clandestinamente em diversos países, tendo seu último paradeiro no México; foi apagado da História contada pelos stalinistas, e vítima de todas as falsificações e calúnias possíveis; e acabou assassinado “à traição”, literalmente, de modo cruel e covardemente.

Ramon Mercader, um agente stalinista que se infiltrou na residência de Diego Rivera e Frida Kahlo (onde Trotsky estava abrigado), em 1940, atingiu Trótsky pelas costas, com um golpe de picareta na cabeça, colocando assim fim à luta política de um dos grandes dirigentes da Revolução Russa de 1917, mas não a seu exemplo.

A morte de Trotsky pôs fim a sua luta enquanto individuo, mas, do ponto de vista político, sua contribuição e conceitos nunca morreram, e seguem mais vivos que nunca. Graças a Trotsky se combateu a degeneração do marxismo, e se mostrou o caminho iniciado por Marx, Engels e Lênin, de lutar pela tomada do poder pelos trabalhadores, e por um Estado operário como fase transitória para um futuro de liberdade, sem classes sociais e sem exploração: o comunismo.

O “trotsquismo”, que nada mais é que a ciência marxista combinada com a concepção leninista de partido de ação, conspirativo e revolucionário, para destruir o capitalismo e tomar o poder, é comprovado na realidade de hoje, como a única alternativa ao imperialismo e suas guerras. Nem os governos de direita, nem os de esquerda; nem o chavismo, nem os governos de Frente Popular, ou o islamismo; nenhum deles é capaz de representar qualquer esperança de mudança de vida aos trabalhadores.

E, se Trotsky e o trotsquismo seguem vivos hoje em dia, sua concretização só é possível se existirem revolucionários que não abandonem as bandeiras da luta pelo socialismo e pela tomada do poder pela maioria dos explorados, e que sigam dedicando suas vidas à revolução. Como Trotsky nos deu o exemplo.

Trotsky ingressa no partido Bolchevique...

        Trotsky teve seu primeiro contato com Lênin assim que fugiu de seu primeiro exílio na Sibéria. O jovem revolucionário chegou à Inglaterra, na casa onde estava Lênin, sem nem mesmo ter dinheiro para pagar o transporte que o levou a este encontro. Lênin já era então conhecido por organizar o Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR), e foi nesse encontro que Trotsky passa a fazer parte da redação do jornal Iskra (veículo de comunicação do POSDR).

Em 1903, Trotsky participou do II Congresso do POSDR, onde se travou um acalorado debate sobre concepção de partido. Lênin organizava a fração Bolchevique, internamente ao POSDR, defendia um tipo de partido com critérios claros, centralizado em sua ação, como única forma de ter uma direção à altura da tarefa colocada: a tomada do poder pelos trabalhadores.

Trotsky, embora não discordasse de que a classe operária, em aliança com o campesinato, era a única classe capaz de levar até as últimas conseqüências esta tarefa, discordava da concepção de partido de Lênin, e, neste momento, defendia um partido de “todos”, e não somente de revolucionários, como Lênin.

Isso fez com que por alguns anos, mesmo com muitos acordos teóricos estes dois dirigentes, estivessem atuando em organizações diferentes, o que nunca nem o opôs a Lênin nas questões mais importantes, como sequer os impediu de seguir atuando em grande sintonia e colaboração política, por muitos anos.

A própria luta de classes tratou de elucidar essas diferenças, unificando as posições dos dois revolucionários. O desenvolvimento da teoria da Revolução Permanente, por Trotsky, no decurso da revolução de 1917, rompe com suas antigas concepções e ele adere ao Partido Bolchevique, sendo desde o início um dos mais destacados dirigentes.

Costuma-se dizer que a teoria de Trotsky era correta para o partido de Lênin. Ou seja, Trotsky, antes mesmo de Lênin, conseguiu elaborar a política e o programa necessários à classe trabalhadora russa e mundial, que passava pela luta, ao mesmo tempo contra os efeitos imediatos, mínimos, democráticos e econômicos da vida do trabalhador; combinando estes aspectos com a luta final pelo socialismo, interligando e unido as duas tarefas como uma coisa só. Estas concepções deram origem à descoberta da Lei do Desenvolvimento Desigual e Combinado e às concepções não apenas da Revolução Permanente, como da necessidade de um “Programa de Transição”.

Lênin, por sua vez, identificou que só um partido de militantes firmes, abnegados e inseridos na classe trabalhadora, em combate frontal contra o Estado burguês, ao mesmo tempo atuando na legalidade e na ilegalidade, o que foi decisivo para a vitória de 1917.

 O stalinismo foi o responsável por tentar mudar a História, e tentar colocar esses dois dirigentes como inimigos, sendo que, na prática, mesmo quando em frações diferentes, ambos tinham acordos bastante grandes, e formaram parte da direção mais capaz e preparada que os trabalhadores já tiveram em sua História. A Revolução Russa de 1917 tratou de provar que ambos eram indispensáveis para a construção do socialismo, e hoje os revolucionários devem saber atuar e analisar a realidade presente, mas aprendendo com as lições de ambos.

Internacionalismo Proletário

        Após a morte de Lênin em 1923, começou a se delinear uma polêmica, que culminou na ruptura de Trotsky com a III internacional, que degenerou-se completamente sob o comando burocrático de Stálin. Sob a aparência de uma discussão teórica, havia, na verdade, uma diferença e classe e casta a ser defendida.

Teoricamente, Trotsky seria imbatível contra Stálin. Escritor de dezenas de livros e materiais e teórico destacado, Trotsky nunca foi, de fato, combatido por Stálin no campo das ideias. A biografia de Stálin, que seria o autor intelectual do assassinato de Trótsky menos de 20 anos depois, revela que ele era uma figura que tradicionalmente não revelava opinião nenhuma, sempre escondido sob a maioria do partido, em assuntos somente administrativos.

Teoricamente, quando se posicionava, Stálin expressava posições nacional-chauvisnistas (contra os direitos das nacionalidades oprimidas), oportunistas e frente-populistas (Stálin defendia o apoio crítico a Kerenski – justamente o governo derrubado poucos meses depois por Lênin e Trotsky), etc. Tudo o oposto de Trotsky. Assim, a “teoria” stalinista, de “socialismo num só país”, era menos uma teoria de verdade, e mais uma justificativa para paralisar a revolução, e permitir à burocracia soviética stalinista manter seus privilégios e acomodação.

A “vitória” dessa tese sobre o internacionalismo defendido por Trotsky (e que era uma das bases do marxismo e leninismo) foi o golpe de misericórdia sobre a classe trabalhadora, e permitiu a ascensão do nazi-fascismo na Europa.

Com essa teoria, o stalinismo foi responsável por derrotar a revolução na Alemanha, permitindo que o nazismo ganhasse força. O isolamento da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) aumentou o poder da burocracia soviética e esvaziou cada vez mais os organismos de massas dos trabalhadores, permitindo que, ao correr dos anos o capitalismo fosse restaurado.

A construção da IV Internacional, em 1938, a partir da reafirmação do programa dos revolucionários em contraposição ao revisionismo deste programa por Stálin se deu a partir da luta pelo Programa de Transição, um divisor de águas na luta pela tomada do poder a nível mundial, apesar do momento de auge do Nazismo e do Fascismo, como alternativas violentas da burguesia.

Trotsky, mais uma vez, contra a corrente, defendeu que o fato de a classe operária estar sendo asfixiada tanto pelo Nazismo e Fascismo, como pelo Stalinismo, colocava na ordem do dia, mais ainda, a construção de uma nova internacional, que revitalizasse a luta pela tomada do poder. Questões como o direito ao voto, à liberdade de ir e vir, à liberdade de imprensa, ao emprego, à educação, etc., só poderiam ser conquistadas se o capitalismo também fosse derrubado.

Exército vermelho

        Antes da campanha infame de que foi vítima, Trotsky, além de um grande agitador político, teórico e colaborador direto de Lênin enquanto este estava vivo, cumpriu papel destacado como dirigente militar!

Foi presidente do Soviet de Petrogrado, Comissário do Povo para negócios estrangeiros, dirigente internacional, redator dos documentos mais importantes adotados pelos bolcheviques em muitos congressos, e, além disso, foi organizador do maior exército revolucionário já visto na História.

À frente do Exército Vermelho, foi responsável por organizar a resistência frente às potências capitalistas que invadiram a Rússia, começando uma sangrenta guerra civil, em que tentavam de qualquer jeito destruir a Revolução Russa.

Com bem menos recursos, e contra uma aliança que unificou a burguesia de todos os países que antes estavam em guerra, e até mesmo os operários traidores e contrarrevolucionários mencheviques e anarquistas, que lutaram junto com o “Exército Branco”, Trotsky, o Exército vermelho e os trabalhadores venceram!

        Para os revolucionários, a revolução não se dá de forma gradual, muito menos amistosa ou pacífica. Isso porque, para que os trabalhadores tomem conta do que lhes pertence, da produção que eles geram com seu trabalho, das riquezas que eles produzem de sol a sol, etc., a única forma é tomando isto à força da burguesia. Porque a burguesia usou a força para explorar e roubar isto tudo dos trabalhadores.

O Estado burguês, mesmo sob a forma de regimes “democráticos” é uma ditadura da burguesia contra os trabalhadores, e a Justiça, o Congresso e o governo são permanentemente voltados para reprimir, coagir e punir os trabalhadores. As Forças Armadas e a polícia são seu último e mais importante recurso, estruturalmente falando, para impedir que a maioria da população resolva dar um basta nesta realidade.

Assim, só a auto-defesa dos operários, a formação de milícias populares, e a constituição de um exército revolucionário, como o dirigido por Trotsky, podem garantir aos trabalhadores que interrompam as chacinas, genocídios e violência sistemática dos burgueses.

A existência do Exército Vermelho, com um disciplina férrea, mas ao mesmo tempo uma democracia interna nunca vista em exércitos burgueses, com a proibição de castigos, humilhações e chefes “de berço”, foi algo extraordinário. Como poucas vezes, os soldados sabiam pelo que lutavam, e defendiam, de armas na mão, seus próprios interesses e não o de seus patrões.

Trótsky não tinha formação militar, tampouco defendia a violência com um fim em si mesmo, mas por sua concepção revolucionária da sociedade fez com que até mesmo nesse campo, o militar, se tornasse um dos grandes expoentes e em grande sentido responsável pela vitória e resistência do Exército Vermelho.

Uma vida dedicada à revolução

        O próprio trotsquismo enquanto corrente política surgiu não do personalismo deste dirigente, mas sim como uma tentativa do stalinismo de desmoralizar aqueles que se agrupavam em torno das teorias defendidas pelos verdadeiros marxistas. Assim, “trotsquismo” surgiu como uma denominação pejorativa, uma acusação.

No entanto, mesmo que ser trotsquista nada mais seja do que manter a luta e programa do marxismo e leninismo, dizemos que somos trotsquistas também, por este ser um adjetivo que entrou para a História como sinônimo da Revolução Permanente, da luta pelo internacionalismo proletário e pela democracia operária!

 Trotsky, 70 anos depois, ainda tem muito a nos dizer, à espera de que se leiam seus livros e se lute na vida real, comprovando o marxismo na prática. Ele viveu e morreu como um exemplo, de convicção comunista e serenidade, sabendo que, pacientemente, ao mesmo tempo que com ousadia para aproveitar cada oportunidade, o futuro pertence aos trabalhadores e a luta pelo socialismo é o horizonte à nossa frente.

 

“Mas, sejam quais forem as condições de minha morte, morrerei com uma fé inquebrantável no futuro comunista. Esta fé no homem e em seu futuro dá-me, mesmo agora, uma tal força de resistência como religião alguma poderia me fornecer.”

Trecho do testamento de Leon Trotsky

3 de março de 1940.

“Programa de Transição” hoje. A luta contra os falsos trotsquistas.

O trotsquismo vai muito além do indivíduo Trotsky, e de seu culto, o que repudiamos e é característico dos stalinistas. Mas é preciso reconhecer que Trótsky teve um grande mérito, de clarificar quais eram as tarefas da classe operária diante das tantas traições e degeneração no PCUS, surgido dos bolcheviques.

Por isso, é inaceitável que admitamos ou permitamos, os revolucionários, que tentem matar Trotsky outra vez, manchando seu legado e sua vida. Hoje, com o fim da ex-URSS e a queda do muro de Berlim, ficou “feio” defender Stálin, e, ou se passou de mala e cuia para a defesa do capitalismo, ou, dos poucos grupos que ainda não admitem explicitamente que abandonaram o marxismo, ficou mais “simpático” ser “trotsquista”.

Nós entendemos que isso é um crime e é preciso lutar para que se chamem aos grupos por seus verdadeiros nomes. Mesmo sendo chamado de “Partido dos Trabalhadores”, o PT hoje é o partido que melhor defende os banqueiros contra os trabalhadores; assim como o Partido Socialista Brasileiro (PSB) e o Partido Popular Socialista (PPS) não só não são socialistas, como são burgueses. O primeiro tem como filiado Paulo Skaf, o ex-presidente da FIESP, maior entidade patronal do Brasil; e o último é aliado de toda hora do DEM, antiga ARENA, sustentáculo da ditadura.

Nomes podem não dizer nada, portanto.

Ser trotsquista hoje vai muito além de enaltecer Trótsky. Ser trotsquista hoje quer dizer reafirmar e adequar toda a teoria e táticas marxistas à realidade atual, preservando seus princípios. É se postular contra todos aqueles que colocam a revolução para os dias de festa, e não como uma das tarefas mais prementes para o movimento operário a nível mundial. E é, antes de mais nada, lutar contra todo e qualquer governo capitalista.

Isso nos opõe frontalmente aos falsos trotsquistas ou seus simpatizantes, o que até o presidente burguês da Venezuela, Hugo Chávez, já declarou ser. Não é! Nem ele, nem os “trotsquistas do PT”, nem Heloísa Helena do PSOL (a “trotsquista cristã”), nem as correntes tão comuns na América Latina, que se chamam de trotsquistas enquanto atuam como stalinistas ou mencheviques, para usar inimigos históricos de Trotsky. Estes setores, na verdade, são inimigos do trotsquismo e da revolução, colaborando com a burguesia ao impedir a construção real de uma direção revolucionária dos trabalhadores.

Aos militantes honestos dessas organizações, e dispersos pelo movimento de massas,m porém, é preciso fazer um grande chamado a nossa unificação.

Pela emancipação dos trabalhadores, o socialismo e a revolução, Viva Trotsky, 70 anos depois!

E vamos à luta, na teoria e na prática, construindo as greves, as lutas e um novo e grande partido revolucionário, no Brasil e no mundo.

 

 


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