Aonde vai Fidel?

O líder máximo cubano, Fidel Castro, tem voltado à vida política pública nos últimos meses. Aos 84 anos de idade, o ex-presidente de Cuba, agora substituído no cargo por seu irmão, Raul, esteve afastado das aparições públicas e dos temas e decisões políticas por cerca de 4 anos, desde que em 2006 se afastou por problemas de saúde, que quase o levaram à morte.

        Neste novo momento de sua vida, pela primeira vez em mais de 50 anos sem ser a principal autoridade formal do país, Fidel tem dedicado quase todos seus textos, pronunciamentos e comentários ao que chama de “ameaça de guerra nuclear mundial”.

        Mas, além deste tema relativamente estranho à luta de classes concreta dos dias de hoje, Fidel tem participado e opinado sobre outras questões ainda mais polêmicas. Nesta matéria, tentaremos abordar um pouco desta atuação de Fidel, e apresentar elementos para que reflitamos sobre para “aonde vai Fidel?”. 

Teoria da Guerra nuclear: a luta de classes em segundo plano.

Fidel tem um assunto recorrente desde que “ressuscitou”, como ele mesmo descreveu. É o risco de uma guerra nuclear no mundo. No começo do mês de agosto, Fidel convocou uma sessão extraordinária na Assembleia Nacional de Cuba, apenas para discursar sobre as ameaças nucleares.

        Na ocasião, ele disse que apenas o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, será capaz de impedir uma guerra nuclear. “Um homem terá de tomar uma decisão solitária. É o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama”, afirmou.

        O líder cubano tem feito estes comentários combinados com críticas constantes também às sanções impostas ao Irã por parte da comunidade internacional. Há quase três meses, o Irã está sob sanções econômicas, votadas pela pressão do imperialismo norteamericano.

        Os Estados Unidos alegam querer impedir o governo iraniano de produzir armas atômicas, embora as autoridades iranianas negam as denúncias. E é exatamente em função deste conflito e tensão (EUA impondo ataques, e Irã reagindo, sustentado na força da massa), que Fidel teoriza que é iminente o risco de um conflito nuclear mundial. Para esta conclusão, porém, Fidel imagina a entrada de outros países no conflito, em tese para defender o Irã e os EUA, de forma a que houvesse uma divisão mundial em 2 lados opostos.

        Esta tese, claramente inspirada na polarização existente na chamada Guerra Fria (contraposição e ameaças mútuas entre EUA e União Soviética), é um disparate completo. O que é realista é dizer que há uma necessidade do imperialismo americano tentar restringir a força do Irã. E que a correlação de forças mundial, a favor das lutas dos trabalhadores, impede qualquer ataque hoje em dia, levando a uma situação delicada, em que o imperialismo está cada vez mais acuado.

        O que não tem nada a ver com a realidade, é que nem o desfecho desta questão pode ser uma guerra nuclear, nem a solução e explicação dos conflitos de hoje em dia se dá no campo militar.

        Na verdade, a ameaça de conflito envolvendo o Irã se deve a um enfraquecimento do imperialismo na região, com as recentes derrotas militares de Israel (Líbano e Faixa de Gaza) e dos próprios EUA (Iraque e Afeganistão). Hoje, há uma multiplicação de greves e protestos no mundo todo, chegando a haver crises revolucionárias em muitos países nos últimos anos.

        Na América Latina, as Frentes Populares têm ganho governos, como forma de manter tudo como está, mas iludindo o povo de que haveria mudanças. No Oriente Médio, outro epicentro da luta de classes atualmente, são os movimentos islâmicos que conseguem prestígio e apoio, por seu discurso antiamericano. É neste contexto que está Ahmadinejad, presidente do Irã.

        Ao Fidel enxergar o mundo dividido em “imperialismo” e “resto do mundo”, e ainda superdimensionar tanto a disposição do Irã reagir, como a de algum país assumir sua defesa em vaso de ataque, mostra o quanto Fidel segue um raciocínio burocrático e superestrutural.

        Em primeiro lugar, o Irã, em si, a partir de seu governo, nunca reagiu a nada. A seu lado, a Palestina é ocupada e sua população é massacrada por Israel, e o Irã não faz nada. O , mesmo com o Iraque ocupado e o Líbano, quando da guerra Israel X Hezbollah. Se alguém pode reagir, são os trabalhadores iranianos, como são os trabalhadores paquistaneses, palestino e iraquianos que estão lutando hoje em dia.

        Da mesma forma, o Irã não tem aliados entre as nações. Nem mesmo Rússia e China, cuja principal razão para defender o Irã era o lucro comercial que tem com o país, seguem dispostas a dizer não ao projeto dos EUA. Tanto é assim, que as sanções foram votadas por unanimidade na ONU.

        O primeiro grande erro de Fidel neste caso é atribuir um risco cataclísmico sobre os Estados Unidos, para justificar sua capitulação a qualquer outro governo burguês. É a “ameaça da direita” elevada ao cubo! E, neste caso, chega a ser uma capitulação explícita a Obama, que poderia deter a “guerra da indústria bélica” imperialista.

        O segundo grande erro é ignorar que existe a luta de classes no meio de tudo isso, e que vai ser a capacidade dos trabalhadores construírem novas direções e lutarem pelo poder o que pode determinar a possibilidade de impedir novas guerras e derrotar os governos nacional-burgueses também.

        Fidel comete estes  “erros”, e não pode alegar “inexperiência” em sua defesa. Ele capitula desta forma porque não lhe interessa falar das greves na França ou na Grécia; no papel de Hugo Chávez reprimindo trabalhadores e garantindo lucros à burguesia na Venezuela; ou da restauração capitalista em Cuba, mesmo.

        Ao invés de falar dos problemas econômicos e sociais reais, do cotidiano do trabalhador, e apontar seus responsáveis (entre os quais estão muitos de seus amigos), Fidel amedronta seus discípulos com a “guerra nuclear mundial”. Assim, também cria e pinta um monstro imaginário que justifica todas as concessões e traições concretas; afinal de contas, seriam parte de uma situação “defensiva”, contra a ameaça de destruição planetária.

Fidel admite crime de homofobia contra trabalhadores

Depois de mais de 50 anos de violenta homofobia em Cuba, durante um governo e regime que se diziam e dizem socialistas, Fidel admitiu que "Sim, foram momentos de grande injustiça, uma grande injustiça! Fomos nós que fizemos, fomos nós...”. O “mea culpa” poderia representar um sincero arrependimento e uma nova postura diante de trabalhadores com uma outra orientação sexual, mas isso não é verdade.

        Logo em seguida, Fidel justifica todos os horrores contra os homossexuais: "Escapar da CIA, que comprava tantos traidores, às vezes entre pessoas próximas, não era coisa fácil.” e "Pense você em como eram os nossos dias nos primeiros meses da revolução: a guerra com os ianques, a questão das armas e, quase simultaneamente, os planos de atentado contra minha pessoa".

        Quer dizer: os EUA tinham conspiradores, tentavam matar Fidel..., logo: se punem, perseguem e agridem os homossexuais. Um escândalo, típico dos regimes mais de direita, que acham um “bode expiatório” para levar a culpa.

        Para que fique claro: em Cuba, os homossexuais foram enviados a campos agrícolas de trabalho forçado! A onda homofóbica foi lançada pelo próprio governo e se baseava em conceitos como os de que “a homossexualidade é um desvio do capitalismo”, para justificar uma ideologia machista, homofóbica e de culto ao “homem viril” na ilha. Pessoas homossexuais, neste caso, eram "contrarrevolucionários".

        Hoje, a homossexualidade não é mais uma “inimiga de Estado” em Cuba, mas o preconceito segue geral, e sem nenhum combate sério por parte do governo. Fidel tampouco se propõe a isso.

Modelo econômico de Cuba não funciona mais, diz Fidel

        "O modelo cubano não funciona mais nem para nós", teria dito Fidel ao jornalista Jeffrey Goldberg, seu amigo. A declaração de Fidel, mesmo falando algo que todo mundo já sabe, é espantosa, por vir de quem vem. Mas, se Fidel estivesse se referindo ao novo capitalismo que ele mesmo permitiu que se reinstalasse na ilha, privatizando a telefonia, o serviço de água, o turismo e até mesmo praias e locais turísticos inteiros, seria compreensível.

        Hoje, Cuba é um país cada vez mais pobre, cujas conquistas sociais vêm se perdendo, retornando a prostituição, decaindo nos esportes e na educação. Este é o reflexo do fim do Estado Operário em Cuba, promovido por Fidel na década de 90. As recentes medidas de Raul Castro, avalizadas por Fidel, são apenas mais um passo nesta direção, de abertura geral da economia aos antigos “inimigos”.

        Mas não é contra o drama dos cubanos e este novo sistema falido que Fidel está falando. O “sistema que não funciona mais”, segundo sua declaração, é o sistema planificado, típico do Estado operário.

        Ou seja, Fidel acabou com a experiência de Estado operário, destruindo a planificação econômica, acabando com o monopólio do comércio exterior (dois pilares da economia de um Estado operário) e privatizando empresas, e, de modo ainda pior, atribui os efeitos da restauração capitalista a um suposto “socialismo” que não existe mais, nem como referência.

        É uma vergonha que Fidel, que foi muito importante na luta contra o ditador Fulgêncio Batista, e se destacou como líder da gloriosa revolução cubana de 1959, tenha vivido para rasgar tudo o que esta revolução conquistou. Apesar de seus erros e postura burocrática em muitas questões (a própria homofobia, o repúdio ao internacionalismo, a perseguição aos lutadores independentes, a burocratização, etc.), Fidel foi um personagem histórico admirável, por ter se enfrentado corajosamente contra a maior potência que o planeta já viu, ter sobrevivido a dezenas de atentados, e ter colocado sua vida a serviço dos trabalhadores, quando atuou na guerrilha, sem meios, dinheiro nem gente para tamanha empreitada. Fidel pode se orgulhar de ter sido parte de uma revolução! Quantos outros podem dizer isso? Em 1959, ele não adotou o caminho mais fácil, de escrever artigos contra Batista, do exterior. Ele organizou o desembarque de um grupo revolucionário, sua luta em Sierra Maestra e sua vitória.

        Mas esta biografia incrível foi manchada para sempre com a restauração capitalista, que marcou a rendição total de Fidel, que de posições equivocadas (e algumas criminosas) passou diretamente para o campo dos governantes capitalistas. Declarações como as dada ao jornalista Goldberg só são parte de um novo discurso de que "o Estado tem um papel grande demais na vida econômica do país".

        Raul Castro, por exemplo, programa uma “reforma político-administrativa” que vai demitir milhares de funcionários e aplicar as medidas clássicas do neoliberalismo, alegando que “em Cuba, as pessoas pensam que não precisam trabalhar”. Triste... Ex-lutadores como porta-vozes do capitalismo e seus planos.

Autocrítica do que deveria ser exemplo

        Fidel também criticou suas próprias ações durante a chamada Crise dos Mísseis, em 1962, quando ele aceitou a instalação de ogivas nucleares soviéticas na ilha, em reação às mesmas armas apontadas pelos EUA contra o Estado operário na União Soviética.

        Cuba teve o desprendimento revolucionário de autorizar que seu próprio território fosse usado para “responder” aos EUA, o que forçou a retirada das armas que ameaçavam a república dos soviets. Cuba se dispôs à “imolação nacional” como disse Ernesto Che Guevara. Ou seja, aceitou correr o risco de ser varrida do mapa, sob um enorme cogumelo atômico que incendiasse todo o país, se isso resultasse na libertação mundial dos trabalhadores e no enfrentamento ao imperialismo.

        Agora, Fidel diz que "não valeu nada a pena". Mais uma vergonha! Fosse outro dirigente a dar tais declarações, já seria uma traição. Vindo de Fidel, não há palavras para descrever tal gesto.

 

 


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