Greve dos bancários:
um exemplo de luta e da força dos trabalhadores.
A greve dos bancários iniciou no dia 29 de setembro, colocando em movimento quase meio milhão de trabalhadores em todo o Brasil, que cruzaram seus braços em um setor que obteve os maiores lucros de todo a economia brasileira.
Enfrentando banqueiros e o governo Lula, patrão na Caixa Econômica Federal e no Banco do Brasil (BB); a imprensa, que só atacou a greve; e os próprios sindicalistas vendidos; a base dos bancários fez uma greve histórica, por sua força e indignação. Nos dias 13 e 14 de outubro, a greve chegou ao fim. Mas as suas lições, algumas conquistas e a luta do trabalhador vão ter continuidade.
O acordo fechado, do ponto de vista econômico, é indecente. Há um acumulo de perdas do poder aquisitivo, desde o Plano Real, em torno de 23,5% nos bancos privados, 80% no BB e 90% na Caixa. Somente os maiores bancos do país lucraram mais de R$ 30 bilhões até agora, resultado da exploração dos clientes, com juros altos e tarifas abusivas; e do arrocho dos funcionários, pressionados por metas inatingíveis e sobrecarga de trabalho. Em troca, após muita luta, recebemos um reajuste de apenas 7,5%.
Enquanto outras categorias como metalúrgicos e petroleiros receberam índices entre 9% e 11%, os bancários ficaram no fim da fila outra vez. Mesmo após o reajuste, o salário de ingresso na maioria dos bancos será de R$ 1250, um valor incompatível com a sobrevivênccia digna, já que o salário mínimo calculado pelo Dieese para manter um trabalhador deveria ser de R$ 2100. Ainda seria necessários reajustar o salário do bancário em cerca de 70% para alcançar este valor.
Num trabalho estressante, sob risco de assaltos e que produz tanto lucro, é uma provocação e falta de respeito pagar tão baixo.
Outras reivindicações, como a isonomia (mesmo direitos para todos, antigos e novos funcionários) também não saíram do papel. A Participação nos Lucros e Resultados (PLR) também vai baixar neste ano, numa conta absurda, em que os lucros cresceram em média quase 50% de 2009 para 2010, mas quem os gerou vai receber menos.
A greve, portanto, mesmo que saia com um reajuste formalmente acima da inflação, e com um índice melhor que o do ano passado, teve uma relativa derrota econômica. Mas não foi por culpa dos bancários.
Ao mesmo tempo em que a cúpula sindical negociava um acordo de cavalheiros com o governo Lula e os banqueiros privados, a base fazia assembleias massivas, piquetes em milhares de agências e interrompia parte da ciranda financeira do país. Os bancários fizeram o que esteve a seu alcance, na maior greve que existiu no ano inteiro no Brasil, e deram a prova de que há espaço para a luta, e que a saída passa pelo controle da base e uma radicalização cada vez mais fortes.
Os sindicatos governistas traíram a categoria
Enquanto os trabalhadores davam exemplo de força e dedicação, os sindicatos governistas faziam o que melhor sabem: trair. A greve, desde seu início, foi montada para agradar os patrões e não atrapalhar as candidaturas do PT. A entidade sindical que representa majoritariamente os bancários, a Contraf, é filiada à CUT, e passa cada dia do ano sendo pelega e recebendo por isso. Os sindicatos regionais, também por ampla maioria, são tão vendidos quanto.
Assim, a reivindicação salarial neste ano foi de 11%. O índice era tão rebaixado, que no BRB (banco de Brasília), o acordo foi fechado em 12%. Quer dizer: dependendo do lugar, até o banqueiro achou pouco o que pediu a Contraf, e deu mais. Os 7,5% de reajuste obtidos não poderiam ser muito diferentes disso, ao ter se pedido tão pouco.
Contudo, a traição aos trabalhadores, que já existiu durante o ano todo, e se materializou numa campanha fantasma, sem mobilização nenhuma e com um índice baixo sendo reivindicado, chegou ao auge do oportunismo no fim da greve.
Mesmo com uma greve histórica, com uma adesão massiva, os sindicatos se utilizaram de todos os expedientes possíveis, incluindo desmontar os piquetes aos poucos, gerar medo na categoria e ajudar a levar gerentes e fura-greves para as assembleias. Nós não podemos ter dúvidas: foi a CUT e seus sindicatos que acabaram com a greve, e não os banqueiros ou a falta de adesão.
Apesar disso, houve inúmeras rebeliões de base, e em vários locais a orientação do sindicato foi atropelada. No Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul, por exemplo, contra a orientação nacional e local, os bancários seguiram em greve mais um dia.
Ao final, o desmonte da greve prevaleceu. Mas a resistência aos governistas cresceu e o recado foi dado: a oposição cresce e há espaço para um grande movimento de luta, democrático e pela base no país inteiro.
É hora de mudar e colocar a base no poder. Fora a Contraf/CUT.
Nos próximos meses, acontecerão eleições sindicais em duas das principais bases do país: SP e RS. Estará em jogo não apenas o futuro dos bancários destes estados, mas da categoria em nível nacional. E, no caso de vitória de uma chapa classista e completamente anti-governista nestes locais, pode-se "virar a balança" num setor que poderia alterar toda a correlação de forças das lutas em âmbito nacional.
A primeira obrigação é que se construam chapas e um movimento com esta característica de combatividade e oposição, sem ceder à tentação dos cargos ou de se vender para chapas do "governismo de esquerda", nem aceitar pelegos e traidores no nosso meio. Outra necessidade, é que o conjunto dos sindicatos, da Conlutas e demais entidades progressivas e de luta, tomem estas eleições como suas, e joguem todo o peso possível nelas.
A base mostrou o caminho, e deixou claro que quer mudanças. Não podemos deixar este momento passar. Vamos à luta, continuando a apostar numa categoria que fez tudo que pôde nesta greve, e que ainda pode fazer mais no ano que vem: nas eleições sindicais e na greve - uma fortalecendo a outra.
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