PSOL em crise: fracasso nas urnas e adesismo
ao PT questionam o sentido de existir um partido assim
A esquerda com registro eleitoral sai derrotada nas eleições
O resultado das eleições recentemente apurados deixaram muitos vitoriosos e derrotados individualmente. Mas também há números categóricos quanto ao resultado de partidos inteiros. Entre a esquerda, a maior derrota, sem dúvidas, é a do PSOL. Foi um fracasso político e eleitoral, que põe em xeque o projeto do partido, criado de uma dissidência do PT há mais de 7 anos, e que vem minguando constantemente.
Em primeiro lugar, a esquerda brasileira abandonou a estratégia socialista e revolucionária que determina que a participação eleitoral deve ser como denúncia do regime democrático-burguês e de apoio às lutas dos trabalhadores.
O PSTU, por exemplo, que já teve essa postura e perfil nas eleições, quando dizia que “só a luta muda a vida” e que “eles são todos iguais”, ao se referir aos demais partidos, tinha um discurso “radical”, que inclusive lhe dava mais votos. Hoje, quando aparece com candidaturas que não denunciam mais o conjunto do sistema, não divulgam as lutas dos trabalhadores como antigamente, e muito menos chamam a necessidade de uma revolução, numa versão “moderada” do que representava, o PSTU fez quase 5 vezes menos de votos, desaparecendo na maioria dos lugares.
O PCB e o PCO, cada um a seu turno, também não dialogaram com a população, não apenas por suas votações completamente inexpressivas, mas pelo discurso descolado das lutas reais da classe trabalhadora, e num tom diletante ou claramente alheio à luta de classes atual.
Como um todo, a esquerda que se apresentou nas eleições foi engolida pelo voto no PT, no PV de Marina Silva, ou mesmo em candidatos dispersos.
O PSOL mais uma vez seguiu nanico no Congresso e encolheu nas urnas. Seu candidato a presidente, ao invés dos mais de 6% de Heloísa Helena de 2006, fez meros décimos de um porcento de votos. PSTU, PCB e PCO não elegeram ninguém no Brasil inteiro, o que era previsível, mas saem derrotados eleitoralmente por suas baixíssimas e decrescentes votações, em todos os níveis.
Contudo, o pior resultado desses partidos é o político. Mais do que nunca, na atual conjuntura eleitoral, as intervenções dos lutadores nesse processo deveria refletir aquilo que mais atinge os trabalhadores. Ou seja, combinar a defesa da saúde, emprego, salário, moradia, etc., com a denúncia da podridão do conjunto desse sistema. Não só de um partido ou político específico, mas do sistema eleitoral burguês e dessa democracia que existe hoje, controlada pelos grandes proprietários e a serviço dos corruptos, não servem e são irrecuperáveis.
Isso é o que nós, do Movimento Revolucionário, defendemos como modelo de intervenção nas eleições. Um perfil que combata a miséria e o capitalismo, que diga abertamente que as próprias eleições são uma farsa e que aponte as lutas e mobilizações em curso como alternativa aos problemas sociais. Este papel não foi cumnprido nestas eleições, por nenhum partido da esquerda com registro eleitoral.
PSOL: Um novo partido, com um velho programa,
cada vez mais oportunista!
Desde o surgimento do PSOL, lançado oficialmente em 2004, esse partido representa uma tentativa frustrada de reedição do que foi o PT, nas décadas de 80 e 90. Ou seja, um partido “de esquerda”, que participa das lutas operárias e populares, mas que prioriza a ação eleitoral e parlamentar.
A existência do PT, no entanto, expressou um fenômeno progressivo do ponto de vista das tarefas imediatas, que tinham a ver com a construção de um movimento de classe, só dos trabalhadores, sem patrão, no momento de redemocratização do país. E, inclusive por isto, o PT foi construído de modo massivo, com inúmeros ativistas e um movimento real desde a base.
O PSOL, nem isso. Esse elemento de “surgimento progressivo” parcialmente poderia ser atribuído a ele, visto que nasce quando a Frente Popular de Lula chega ao poder, e há um grupo crítico às políticas mais neoliberais por dentro do PT. Mas, ao invés de representar um avanço, como o PT foi em relação ao MDB, em 1980, o PSOL surgiu sem aprender nada com a experiência do PT.
Com a decepção com o PT, se abriu um espaço privilegiado para os trabalhadores e revolucionários, não eleitoreiro, mas sim da luta direta. O PSOL, no entanto, fez o contrário: um novo partido controlado pelos deputados (os quais chegou a ter 7, e agora são só 3), sem democracia, congressos ou um programa de fato socialista.
Por isso, dizemos que o surgimento do PSOL foi prejudicial à classe trabalhadora, pois atenuou a experiência com o PT e a reorganização aberta com a traição de Lula, que empurraria muitos trabalhadores para as posições revolucionárias. O PSOL surgiu para dizer: “calma, ainda é possível recuperar a ética na política, votar em bons parlamentares, coerentes”, ou seja, “não precisamos de revolução”.
Essa estratégia eleitoreira abriu margem para que o partido não tenha princípio nenhum. De lá para cá, o PSOL já esteve em coligações com o PMDB, e diretamente já teve o PV como seu vice-candidato. Recebeu dinheiro de multinacionais, defendeu e votou ataques aos trabalhadores no Congresso e se transformou apenas em mais um partido daqueles que nasceu condenando.
O PSOL surgiu como oposição de esquerda ao PT. E só. Agora, poucos anos depois, diante de uma eleição em que se discute o balanço do governo petista, o PSOL abre mão até mesmo desse perfil. No Rio Grande do Sul, retirou um de seus candidatos ao Senado para chamar voto no senador Paulo Paim (PT).
Além do fato em si, que significou um apoio ao governo Lula e aos candidatos da futura bancada petista, o PSOL justificou esta pseudo-coligação, com a qual não ganhou absolutamente nada, apenas por um suposto perigo de facilitar a eleição da direita, expressa pelos candidatos do PP e PMDB.
É uma vergonha um partido que tentava ser de oposição ao que o PT virou, mude de discurso e passe a achar que o PT e seus congressistas são lutadores e que é importante elegê-los, como se de direita fossem somente os outros. Mas pior ainda é que, neste caso, tanto PP como o PMDB são da base de Lula. Ou seja, o apoio do PSOL foi para tirar algum governista de direita, e colocar no lugar um governista de “esquerda”. Nada mais “6 por meia dúzia”.
Não passou de uma tática 100% eleitoreira para, na sombra do petista, tentar ser visto como um partido “amigo” do PT, buscando eleger alguém, como partido satélite da Frente Popular.
Mas, se quisesse levar a sério seus próprios argumentos, o PSOL deveria defender que a maioria do Senado fosse formada por petistas e por governistas, diante do perigo da direita. E o mesmo para a Câmara dos Deputados e, principalmente, para a disputa dos governos estaduais e federais. E teriam a obrigação de entre Serra e Dilma, defenderem com tudo a Dilma. No final, deveriam nem ter lançado seus candidatos, e ter apoiado de dentro de uma coligação formal (e não produto de um apoio unilateral), os candidatos governistas, ao menos tentando colocar alguns de seus pontos de vista.
Isso seria coerente com a política de apoio a Paim, o que não diminui o tamanho da traição.
O PT de Paim, Lula e Dilma é hoje o responsável pela fome, pela falta de moradia e pela entrega das riquezas do nosso país às multinacionais estrangeiras. O governo do PT é mais adorado pelo Banco Mundial, pelos EUA e FMI do que foi o governo de FHC. Por isso, Lula é “o cara”.
Entre a velha direita e a nova burguesia petista, tão corrupta e pró-imperialista, os trabalhadores não tem alternativa. Qualquer organização minimamente classista tem a obrigação de preparar a luta para derrotar qualquer governo eleito nesse segundo turno, Serra ou Dilma.
Paulo Paim não foge desse conteúdo do governo Lula. Foi igualmente responsável por aumentar a idade mínima para se aposentar, votando a favor da Reforma da Previdência em 2003, e em tantos outros projetos nefastos aos trabalhadores, como o Estatuto da Igualdade Racial, onde passou por cima de várias entidades do movimento negro, que diz representar, acabando com a defesa das cotas raciais e abandonando qualquer coisa concreta no sentido do combate ao racismo.
O PSOL, ao rechaçar seu próprio candidato para apoiar Paulo Paim, expressa uma política que contraria as necessidades do conjunto da classe trabalhadora, que precisa organizar a luta contra os planos do próximo governo eleito. O PSOL, mais que isso, mostrou que não passa de um braço do PT.
É preciso um partido socialista de verdade
Ao contrário do que disse algumas vezes Plínio de Arruda Sampaio, candidato a presidente pelo PSOL, de que ele era o candidato “contra o sistema”, a candidatura do PSOL falou abertamente que a luta pelo socialismo não é para este momento; não falou nada sobre fazermos uma campanha para o aborto ser legalizado; não divulgou, nem apontou como saída, luta alguma. Plínio foi um candidato totalmente pró-sistema.
Mas o pior é que, mesmo tendo sido um candidato comportado, Plínio fez uma votação lamentável. Único candidato da esquerda chamado aos debates, com cobertura diária da grande imprensa e um espaço jamais concedido a outros candidatos ditos socialistas, Plínio fez sofríveis 0,8% dos votos válidos.
Nos estados, o PSOL decaiu vertiginosamente. No RS, a deputada Luciana Genro baixou 1/3 de seus votos e não se reelegeu. Dirigentes e figuras públicas do partido saíram muito derrotados da votação, como Roberto Robaina (RS) e Heloísa Helena (AL). O PSOL já não é mais tão novo (saiu do PT há 7 anos) e não consegue crescer. Saiu menor desta eleição! E os que se elegeram foram de sua ala direita, sem vínculo com o movimento social.
Ainda que as soluções históricas e imediatas reivindicadas pela classe trabalhadora só possam ser alcanças através da ação direta, das mobilizações de rua, greves, ocupações e da ruptura com o grande capital através da via revolucionária, reafirmamos a concepção de que é preciso utilizar todos os espaços e aproveitar todas as oportunidades para fazer avançar essa estratégia de transformação social.
Nesse marco, ainda que secundariamente, é fundamental a participação dos trabalhadores e suas organizações de luta no processo eleitoral, que sabemos ser um jogo de cartas marcadas, anti-operário, onde ganham os candidatos mais ricos, que mais gastam com campanha e que representam a maioria da atual política podre do país.
Mesmo assim, e apesar de tudo isso, é decisivo que participemos desse processo, para fazermos agitação política revolucionária e estabelecer um diálogo com amplos setores de massas, no sentido de ganhá-los para a luta, para as mobilizações e para a consciência de que só dessa forma é que se conquista alguma coisa, inclusive divulgando amplamente a necessidade de combater o próprio processo eleitoral antidemocrático.
O PSOL não fez nada disso. A pergunta que parece se responder cada vez mais por si mesma é: há espaço para um novo PT? Qual o sentido de existir o PSOL, se é para fazer o que vem fazendo, como simples linha auxiliar do PT?
VOLTAR
|