Tiririca e 2º turno: o que significa o resultado de 03 de outubro?

As eleições burguesas acabaram revelando algumas surpresas, cuja maior, sem dúvida, está relacionada à presidência do Brasil. Enquanto todas as pesquisas apontavam a vitória da petista Dilma Rousseff já no primeiro turno, a realidade conduziu o processo a um segundo turno, entre ela e o tucano José Serra.

        “Pela primeira vez na história desse país”, vimos o atual presidente ir ao horário eleitoral e engajar-se pessoalmente na eleição de sua sucessora. Para cada ataque a Dilma, vinha o próprio Lula responder e rebater. E defendia a candidata, que não passava de um quadro técnico e interno do partido, mas que foi o que sobrou, diante do desmanche do “quarteto fantástico”: Zé Dirceu, Palloci, Genoíno e Gushiken.

        A aprovação de 80% de Lula mostrou-se bem mais frágil do que a maioria supunha. 51% da população, que foi às urnas obrigada, votou contra Lula.

        uma das primeiras questões levantadas para explicar a suposta “transferência de votos na última hora” seria a “onda verde”: marina silva (pv) teria abocanhado votos de dilma, quebrando a polarização e concretizando o segundo turno.

        Cabe aqui avaliar como a candidatura de Marina, que fazia fraquíssima oposição ao governo Lula e até a FHC, conseguiu criar, sim, uma nova alternativa de votos. Ela, cuja postura chegava a ser reacionária diante de questões como aborto e casamento gay, diante da sua “especialidade” -o meio ambiente e o desenvolvimento sustentável- era extremamente evasiva, sem propostas concretas e um plano objetivo. Entretanto, sua votação acabou provando que os altíssimos índices de aprovação de Lula não foram suficientes para elegerem a sua candidata “de primeira”.

        Na verdade, a população votou de forma fragmentada. Mas tanto os votos em Serra como em Marina foram votos “contra Dilma”, o que quer dizer, contra o governo. As pesquisas que demostram a aproximação de Serra, se não estiverem novamente erradas, também expressam que o voto que não foi de Dilma, realmente, é majoritariamente um voto “anti-Dilma”. E foi um voto essencialmente pela “esquerda”, já que Marina é vista assim pela maioria, e até mesmo Serra escondeu seu programa de direita, e ganhou votos concentrando-se em “reestatizar as estatais como os Correios” e “aumentar o salário mínimo para R$ 600”. Não sobrou espaço para defender as privatizações, ou qualquer outra questão neoliberal.

        Isso prova que, dos que votaram, há um grande descontentamento, ao mesmo tempo em que as pessoas seguem pela esquerda.

        A postura da “esquerda”, por sua vez, colaborou para esse quadro de polarização entre candidaturas da burguesia. PSTU, PSOL, PCO e PCB: nenhuma das quatro legendas foi capaz de apresentar uma candidatura revolucionária, que dialogasse diretamente com os trabalhadores denunciando todas as mazelas trazidas -ou mantidas- pelo governo de Frente Popular. Diante disso, que alternativa os trabalhadores enxergaram? Marina, Serra e Dilma. Apenas ilusões

A eleição da palhaçada!

Novamente, uma eleição fria e desmoralizada.

Se para presidente não era possível, para Deputado Federal e Estadual choveram candidatos ridículos que se elegeram com votações astronômicas. Em São Paulo, a sensação foi Tiririca! O palhaço que debochava explicitamente das eleições foi o m ais votado no Brasil inteiro, com mais de 1,3 milhão de votos.

        No RS, RJ e MG, o sucesso coube a ex-jogadores de futebol (Danrlei, Romário e Marques, respectivamente) que, com todo o respeito que mereçam enquanto ex-atletas, não possuem qualquer história na política que justifique sua eleição! Mas a obtiveram, e por quê?

        Porque os organismos da política burguesa são tão inacessíveis aos trabalhadores e tamanha é a palhaçada que, entre um ladrão que não faz nada e um palhaço, prefere-se o palhaço!

        Com a ampla coalizão e enorme financiamento privado envolvendo a frente governista, em caso de vitória de Dilma, haverá uma sólida maioria parlamentar, que garantirá uma margem confortável e com menos oposição aos planos do governo nos próximos 4 anos. Porém, o  regime não sai fortalecido. Sai mais desacreditado e desmoralizado, diante de um sentimento contra o regime democrático-burguês, de que “eles são todos iguais”.

        De toda forma, é inegável a derrota política já sofrida pelo governo, provada pela concretização do segundo turno. No Congresso, o crescimento da bancada do PT e de sua base aliada não pode ser ignorado, assim como a diminuição da direita tradicional (Democratas), mas isso não quer dizer que o PT tem muita aprovação, e sim que as montanhas de recursos aplicados surtiram efeito, numa eleição ganha pelo poder econômico.

        A candidatura que mais atraiu simpatizantes e investidores da burguesia foi a de Dilma -assim como foi a de Lula em 2006-. Isso porque os banqueiros e megaempresários nunca lucraram tanto como durante o governo Lula, contribuindo para isso as entidades que travam a classe trabalhadora contra sua situação de miséria e exploração (como a CUT, que se transformou em braço concreto do governo no movimento nos últimos oito anos).

        No fim das contas, podemos dizer que esta foi uma eleição em que o voto de protesto ou de revolta foram muito grandes, do mesmo modo que o voto despolitizado em figuras carismáticas, ou simplesmente o voto pago, também cresceram. Sintomas de que o atual sistema representa cada vez menos os trabalhadores, que ainda precisam de uma alternativa para seguir.


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