A CORRUPÇÃO E A CRISE PROLONGADA

A burguesia brasileira encontra dificuldade para superar a atual crise política, desencadeada pelos últimos escândalos de corrupção, principalmente, aquele que envolve o presidente do Senado, Renan Calheiros. No altar de oferendas, para acalmar a ira do povo, ofereceu a cabeça do senador Joaquim Roriz. Desde o início, o governo mobilizou a sua tropa de choque numa enorme “operação abafa”, para proteger o seu “pupilo”, membro das oligarquias arquicorruptas, em companhia de figuras como José Sarney, Antônio Carlos Magalhães, Orestes Quércia, Jader Barbalho, entre outros, flamantes aliados da Frente Popular.

        Nada disso foi suficiente. A oposição tradicional burguesa, PSDB e PFL (Democratas), estava desde o início comprometida com a “operação abafa”. Prova disso foi a declaração do senador Romeu Tuma de que pretendia absolver o senador. Entretanto, novas revelações e a pressão da opinião pública têm levado essa oposição a alimentar controladamente a continuidade do escândalo, em fogo brando, na exata medida das suas necessidades políticas e sem ultrapassar o limite do perigoso. Para isso, contribui também a posição do Psol, a sua representação ao Conselho de Ética e a sua campanha pelo Fora Calheiros, que também defende e respeita a institucionalidade, mas vai um pouco além do gosto da oposição tradicional.

        A corrupção envolve a todos, governo e oposição, mas isso não impede que um dos lados tire proveito político quando o outro é pego com a “mão na massa”, desde que não seja ultrapassado o limite do bom senso e dos acordos de bastidores. Aliás, isso é uma necessidade da tentativa de recuperar a credibilidade das instituições, coisa casa vez mais difícil. Esse é um jogo perigoso para a burguesia. Mesmo que todos estejam comprometidos com os mesmos interesses do grande capital, existem interesses diferentes no que diz respeito a quem melhor o representa.

        O povo tem plena consciência que a corrupção é um fenômeno generalizado. Exemplos não faltam nos últimos anos: mensalão, sanguessugas, compra de votação no Congresso, venda de sentenças judiciais, Operação Furação, Operação Navalha e dezenas de escândalos aparentemente menores. Essa corrupção envolve a todas as instituições: o governo, o Congresso, a Justiça e o exército. É da própria natureza do capitalismo, mais ainda na sua fase decadente. O Estado sempre foi um instrumento do capital. No entanto, atualmente, não vivemos mais a fase da livre concorrência, mas sob o regime dos monopólios, da enorme concentração de capitais. Ou seja: antes o Estado também pertencia ao capital, mas era mais ou menos “democrático”, no sentido de que refletia a disputa entre os diversos capitais. Agora, transformou-se em uma espécie de propriedade de um só e grande capital ou de um consórcio de capitais.

        Nenhum político, juiz ou funcionário de confiança pode fugir desse esquema. Quem não o fizer será afastado: o político não se reelege, o funcionário é demitido e o juiz é pressionado, transferido ou marginalizado. Qualquer prefeito de uma cidade do interior pode receber milhões de reais de propina por uma única concessão a uma multinacional. E quanto mais sobe no escalão do poder, mais essa cifra é multiplicada. Não pode mais existir político burguês ou funcionário de confiança honestos. Com boa vontade, pode-se dividi-los em duas categorias: aqueles que recebem propina e os que são coniventes, por ação ou por omissão. A própria honestidade perdeu o sentido. A corrupção nada mais é do que uma das formas de apropriação do Estado pelo grande capital. É o preço pago pelos serviços dos seus subalternos. O político não se torna corrupto após eleger-se. O faz antes. É a condição da sua eleição, porque se elege quem tem mais dinheiro e esse está concentrado nas corporações. O próprio partido é “comprado” por elas. Existe uma seleção prévia no sentido inverso da moralidade. Não é verdade que o político reflete o povo. Reflete a moral da burguesia “amoral”. Na verdade, o que acontece é o contrário: o povo é influenciado pela imoralidade das elites.

        Dessa forma, o Congresso e as demais instituições caem sob o controle dos capitalistas. E não pode ser diferente no capitalismo. Por isso, o discurso de moralização do Congresso é uma utopia reacionária. O Psol, com a ajuda do PSTU ilude os trabalhadores ao desfraldarem a bandeira do “Fora Calheiros”, por dentro das instituições, e pela moralização do Senado. Qualquer campanha que não coloque em primeiro plano o fim do capitalismo engana os trabalhadores e está à serviço da burguesia. O capital é corruptor por natureza. Somente a sua expropriação pelos trabalhadores pode acabar com a corrupção. A democracia é uma forma de dominação do Estado pelo grande capital. Não existe democracia para o trabalhador, que não pode competir com o burguês no terreno eleitoral. A única democracia possível para os trabalhadores é a democracia dos Conselhos Populares, com representantes eleitos por local de trabalho, onde o poder do dinheiro não tem influência e onde os patrões e seus representantes não são admitidos. 

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