A África também luta contra o capitalismo

A luta dos trabalhadores contra os governos que os exploram cresce no mundo inteiro. Em alguns continentes a situação é de conflito aberto, como no caso do Oriente Médio, onde as massas estão resistindo e impondo ao imperialismo norte-americano sua maior derrota militar. Os objetivos de Bush no Iraque foram derrotados, graças à heróica resistência do povo oprimido e explorado. Na América Latina, somente neste início de século, já ocorreram diversos processos revolucionários, onde os trabalhadores foram às ruas, enfrentaram a repressão policial e, em alguns países, como Argentina e Equador, puseram abaixo presidentes por serem responsáveis pela situação de aumento da pobreza que toma conta do continente. Na própria Europa, continente modelo do capitalismo, está havendo mobilizações de massas: greve geral na Itália, na França...

De certa forma é curioso que a África estivesse mais atrás do que os outros continentes quando se trata da ofensiva das massas de trabalhadores contra a burguesia. Numa visão inicial, onde há mais exploração existe mais necessidade de lutar. E a África é o continente mais pobre e miserável do planeta. Porém, em função da exploração na África ser tão grande, os elementos de barbárie também são mais acentuados nesse continente. Ou seja, não há sindicatos, os trabalhadores são massacrados por conflitos capitalistas disfarçados de tribais, as ditaduras são recorrentes, a fome consome a capacidade produtiva de milhões; há menos fábricas, indústrias e formas tradicionais de produção capitalista, que são exatamente os ambientes em que o "exército" de trabalhadores convive, conspira e se organiza.

Na atual situação que vive o Quênia, por exemplo, onde mais de mil pessoas já foram mortas desde que Mwai Kibaki foi reeleito sob suspeita de fraude no pleito eleitoral, é comum ver trabalhadores matando outros trabalhadores, no caso eleitores de candidatos opostos e membros de etnias também opostas (os Luo, etnia do oposicionista Raila Odinga, e os Kikuyu, etnina de Kibaki). Pelo estado de caos e barbárie, toda a luta de classes na África é expressa distorcidamente, sob forma de luta étnica. Mas o conteúdo dessas lutas é, em seu conteúdo, contra as condições de vida que o imperialismo impõe ao continente africano.

Um continente marcado pela exploração e crimes imperialistas

A África foi colonizada pelos países que representam o estágio mais avançado do capitalismo, em sua riqueza e violência contra os trabalhadores, o imperialismo. Isso ocorreu para que os burgueses pudessem adquirir mão-de-obra barata e matéria prima para produzir mais e lucrar mais. Historicamente, toda a região está a serviço dos grandes negócios da burguesia internacional.

Foi na África que os países ricos europeus, e depois exploradores também nas Américas, como o Brasil, foram escravizar a população, que era arrastada para navios sem nenhuma higiene ou condição humana, morrendo aos milhões, sofrendo torturas e abusos de todo tipo. Foi na África que, séculos mais tarde, ao redor de 1900, criaram-se as condições para a 1a Guerra Mundial, que explodiu em 1914. Os países ricos já haviam partilhado o mundo (e a África em particular) para roubar a riqueza dos povos. Países como Alemanha e Itália, de unificação nacional e capitalismo moderno mais atrasados, ficaram sem colônias, e foi esse o principal motivo da disputa inter-imperialista que iniciou a guerra.

Nós sabemos que só existe riqueza para alguns porque existem pessoas miseráveis espalhadas pelo mundo inteiro, e não é possível que essa exploração não resulte em conflito. A África sempre foi o lado mais fraco neste conflito, sendo roubada por séculos, colonizada com a ajuda de líderes traidores e dividida para fazer o imperialismo lucrar. É contra isto que hoje lutam os povos no Chade e no Quênia, para falar dos casos mais recentes.

É contra o capitalismo que as massas lutam no Quênia

O Quênia é a economia mais forte do continente e era considerado o paraíso para os investidores, além de um exemplo de democracia e ordem. Mas essa aparência produzida pelo imperialismo acaba de ser despida. O país passa por uma situação revolucionária e não é possível saber até onde vai a guerra civil.

No Quênia, a luta das massas está tomando um caráter de ser contra o governo reeleito à base de fraude, que defende o imperialismo na região. Isso significa uma politização da luta.

Este processo é marcado pelo avanço da consciência daqueles que lutam. Em geral, a ação política e a luta cumprem exatamente este papel, o de fazer com que as ilusões e a confusão inicial de um movimento vão se transformando, pela experiência. Por isso, os marxistas observam os fatos, os analisam, mas tomam o aspecto aparente destes fatos para chegar às conclusões mais profundas, à essência das coisas.

E se, aparentemente, a luta dos quenianos é tribal, ou está passando a ser contra o governo; em termos de conteúdo, ainda que inconscientemente, a luta é contra a miséria, a fome, o desemprego, as doenças e contra o capitalismo, portanto. As reivindicações da massa queniana, por mais distorcida que possa ser a luta dela, só podem ser atendidas pelo socialismo, e é o socialismo que a massa em ação representa quando abala o governo e, junto dele, o próprio regime democrático-burguês e os interesses imperialistas na região.

Por uma revolução socialista no Quênia

Nós defendemos que o povo queniano derrube o governo Kibaki e construa um governo socialista dos trabalhadores. A oposição de Odinga não é alternativa política para o povo queniano, mas seu bom desempenho nas pesquisas anteriores às eleições expressava a necessidade de o país ser governado por alguém que não fosse diretamente ligado ao imperialismo. A única solução possível para que o país seja de fato independente é a mesma para qualquer outro país do mundo: a união e a organização dos trabalhadores para que lutem e usem sua violência contra quem os explora e não contra si próprios. E isso significa a construção de um partido revolucionário e da luta por um programa revolucionário e socialista.

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