40 Anos do Maio de 1968: O poder está nas ruas

Em maio de 2008 completaram-se 40 anos das mobilizações do chamado "Maio de 68". Neste ano, aconteceram grandes manifestações no mundo todo, e particularmente os acontecimentos de Paris tiveram lições, que seguem vivas até hoje. O Movimento Revolucionário aproveita essa data para debater a essência dessas mobilizações e a sua importância para a história da classe trabalhadora, dos estudantes e de todos os oprimidos e explorados dentro do capitalismo.

O Maio de 68 foi produto de uma sociedade burguesa em que os amplos direitos concedidos à população no final da 2ª Guerra Mundial, principalmente na Europa, foram sendo retirados. No pos guerra, os países estavam destruídos, a resistência que tinha se organizado era ligada à luta socialista e a URSS foi quem derrotou o nazi-fascismo. O perigo de que a classe trabalhadora tomasse o poder era muito forte, e, tanto nas França, como na Itália e muitos países, se chegou muito perto de construir Estados operários.

A continuidade do capitalismo, que estava destroçado, só pôde acontecer por causa da traição dos Partidos Comunistas oficiais (ligados a Moscou) que aceitaram defender o capitalismo e a reconstrução burguesa dos países europeus, junto com o investimento bilionário do imperialismo. O Plano Marshall, de recuperação econômica, foi um investimento massivo na Europa, que garantiu uma rede de previdência, saúde, aumento de salários e direitos, que ficou conhecida como Estado do Bem Estar Social. Foi uma política do imperialismo de "perder os anéis para não perder os dedos". Quer dizer, aceitar diminuir seus lucros e dar melhores condições aos trabalhadores, porque, na verdade, os trabalhadores estavam arrancando isso à força, e poderiam tomar absolutamente tudo!

Mas estas concessões arrancadas da burguesia tinham hora para acabar. 1968 marca o choque destes dois movimentos. A maioria da população querendo ganhar o que não tinha, contra instituições autoritárias, repressivas e patronais que tentavam retirar o que havia de conquistas sociais. O conflito dos capitalistas com a União Soviética estava no auge, numa fase bem tensa da chamada "Guerra Fria". Menos de 10 anos antes, a guerrilha cubana dirigiu um processo de massas vitorioso e, desde então a juventude estava incendiada pelo exemplo de Che Guevara. No Vietnã, a população combatente começava a derrotar a ocupação dos Estados Unidos, e dentro do próprio EUA, os negros andavam armados, dirigidos pelos Panteras Negras, que defendiam um programa tanto contra o racismo, como quanto o poder burguês e o capitalismo.

É neste cenário que estudantes se rebelam contra a proibição de que, homens e mulheres, pudessem freqüentar os dormitórios uns dos outros, já que eram separados por sexo. A repressão sexual era mais uma face da política conservadora e autoritária contra a vontade de mudança dos jovens e dos trabalhadores. Deste protesto, e de muitas outros questionamentos, a luta se transformou num questionamento generalizado contra o conjunto da educação, dos conteúdos ensinados, contra a "autoridade" do professor, da polícia e do próprio Estado. Estudantes tomaram as salas de aula, e reinstituíram quem daria aula para quem, entre eles mesmos, assumindo o poder dentro das universidades. Destas lutas e da ocupação das universidades, se produziram grandes enfrentamentos, quer se generalizaram por toda a sociedade. De greves e mobilizações inicialmente estudantis, o Maio de 68 na França foi abraçado por trabalhadores, entre os dias 3 e 30 de Maio, e virou uma luta política geral contra o capitalismo e o governo do General Charles De Gaulle.

Os estudantes deflagram uma revolução

   As mobilizações tiveram o seu início cerca de um mês antes, quando os estudantes da Universidade de Nanterre promoveram uma ocupação em protesto à estrutura acadêmica e curricular. Em 3 de Maio, a reitoria decide fechar a universidade, sendo o estopim para toda a crise.

Uma greve geral de estudantes das universidades e de colégios secundaristas, contando com ocupações de fábricas promovidas por cerca de 10 milhões de trabalhadores (quase 2/3 da classe trabalhadora francesa) tomou conta do país, deixando o governo De Gaulle completamente imobilizado. Os manifestantes guiavam-se por ideais, predominantemente, da esquerda; comunistas e anarquistas, expressando isso em palavras de ordem como "É Proibido Proibir", "O Poder Está nas Ruas" e "A Imaginação no Poder". Também escreviam nos muros lemas como "O PC tem medo da revolução", ridicularizando o Partido Comunista oficial, que defendia a luta parlamentar e reformista. O programa dos que lutavam não era conscientemente revolucionário (no sentido que não se dava junto da construção de uma direção para a tomada do poder), mas era nitidamente contra o capitalismo como um todo. Diziam "sejamos realistas: exijamos o impossível", contrariando a máxima dos partidos covardes que se dizem revolucionários e de esquerda, mas tem medo de pôr isso em prática.

O descontrole era tanto que o governo teve de criar um quartel general de operações militares para lidar com a rebelião, dissolver a Assembléia Nacional e marcar eleições parlamentares para 23 de Junho de 1968. De Gaulle chegou a se refugiar numa base aérea da Alemanha, tamanho o seu desprestígio.

Mas como disse Trotsky, o maior problema da humanidade consiste na falta de direção. Ou seja, quem dirigia essa movimentação? Que papel cumpriu o Partido Comunista Francês e as organizações da esquerda? Qual o objetivo concreto dessa luta? Resumidamente, o processo não tinha um fim, uma proposta concreta, e o Partido Comunista Francês, juntamente com a Confédération Générale du Travail -a federação sindical da esquerda francesa- cumpriram o papel de desarticulação da greve e de organizar os trabalhadores para o seu retorno à rotina de empregados.

Fundamental salientar que o papel cumprido pelo Partido Comunista não foi uma exceção, e sim a prática comum desse período. As organizações comunistas, de orientação stalinista e ligadas à Internacional de Moscou, cumpriram um papel sistemático de desmobilização da classe trabalhadora e de canalização de suas revoltas para uma via eleitoral ou, simplesmente, para o vazio, para a falta de precisão em suas propostas e objetivos, no que ficou conhecido como "eurocomunismo".

Outros grupos como os maoístas e anarquistas também não podiam dirigir a revolução até a tomada do poder, por não compreenderem de modo científico (marxista) a tarefa de ligar as reivindicações mais urgentes do povo trabalhador francês com a luta pela derrubada do capitalismo e construção de um estado operário, a partir dos trabalhadores e seus organismos de luta, e governado por eles.

Assim, o Maio de 68' terminou em uma forte repressão pela polícia do governo de Charles De Gaulle que, nas eleições de Junho de 1968, viu o seu Partido Gaullista ser reeleito e voltar ainda mais forte ao parlamento francês.

Logo, vemos que um partido que estava completamente desmoralizado, acuado pelos trabalhadores e estudantes e imobilizado pela força do movimento de massas, fortaleceu-se a partir da traição de organizações inseridas na própria classe trabalhadora.

O mundo todo contra o capitalismo

   Evidentemente que o Maio de 68 não foi uma rebelião isolada dentro da conjuntura mundial. O mundo, já desde o início da década de 60, vinha sendo sacudido por fortes movimentos de contestação ao capitalismo e ao imperialismo. O movimento negro norte-americano, a partir de líderes como Malcolm X e Martin Luther King, fortalecia cada vez mais a luta contra o racismo e a segregação racial existente nos EUA e no mundo inteiro. Assim como o movimento hippie, que se somava aos gigantescos protestos contra a guerra do Vietnã e sua ocupação pelo exército ianque. A luta contra o capitalismo nem sempre se manifestava do modo mais político. A luta pela liberação das mulheres, pelos direitos dos negros e contra o "sistema" em geral, manifestava-se em greves e ocupações, mas também em movimentos de "fuga" do capitalismo, em opções "alternativas", culturais e psicodélicas. Ao mesmo tempo em que a luta de classes organizava muitos trabalhadores e estudantes, a alienação e as drogas eram outras formas de se afastar de uma sociedade que não tinha nada a oferecer.

Neste momento, a juventude latino-americana travava fortes batalhas contra a ainda inicial ditadura militar, que se espalhava por diversos países do continente, reprimindo, torturando e matando opositores do regime militar (financiado pelos EUA) e do próprio capitalismo. Desse modo, o Maio de 68 insere-se numa conjuntura tumultuada, de fragilidade das direções da burguesia e de grande poder de mobilização dos trabalhadores e estudantes.

A insurreição francesa se junta a tantas outras para nos deixar a lição da necessidade da luta, entre trabalhadores e estudantes, de forma organizada, contra o capitalismo e seus aliados. Se vimos tantas lutas serem derrotadas pela falta de uma direção revolucionária, com um programa claro de derrubada desse sistema, o que nos resta é justamente construir essa direção.

Uma direção composta por trabalhadores, inserida na classe, e que conduza essa para as lutas, com objetivos definidos e um programa claro, que vete as alianças com os partidos burgueses, corruptos e dos empresários, e busque a construção de uma sociedade sem exploração, sem miséria e sem opressão, quer dizer, uma sociedade socialista.

Até hoje estas lições estão cobrando seu aprendizado. Quais são estas lições? Mesmo em países imperialistas, a burguesia pode ser derrubada. A mudança de algo mínimo, como a democracia na educação, precisa de uma revolução para ser conquistada. Uma revolução só pode ser vitoriosa se tiver uma organização revolucionária na sua direção.

 

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