A vitória de Fernando Lugo nas eleições do Paraguai não resolverá os problemas dos trabalhadores

   A história do Paraguai se confunde com a do próprio partido que por mais tempo esteve no governo em um país da América Latina, o Partido Colorado. Este partido governou o país por mais de 109 anos, em apenas um século e meio. Somente de 1904 a 1946 perdeu o governo para o Partido Liberal, que desbancou os Colorados através de uma insurreição, que depois retomaram o poder exercendo uma ditadura, através de  Alfredo Stroessner. Strossner, assim como Pinochet no Chile, comandou a ditadura sem ser substituído, como em outros casos de ditaduras assassinas como a Argentina. Depois de derrubado, mesmo assim, foi abrigado no Brasil, levando uma vida de luxo, conforto e segurança bancada pelos governos desde a ditadura até o ex-trabalhador Lula.

Este fato é apenas mais um de uma História inteira do Paraguai, sempre agredido, ameaçado e roubado pelo imperialismo e por seus vizinhos sul-americanos. O maior exemplo da carnificina de que foram vítimas os trabalhadores paraguaios foi a chamada Guerra do Paraguai, em que Brasil, Argentina e Uruguai se uniram para destruir um país inteiro. Também chamada de Grande Guerra, no Paraguai, foi o maior e mais sangrento conflito armado internacional ocorrido no em todas as Américas. Estendeu-se de dezembro de 1864 a março de 1870. No final dela, segundo alguns autores, até 90% da população pode ter morrido. Mesmo estimativas mais simpáticas aos agressores concordam que pelo menos 20% da população foi assassinada, o que é um genocídio sem comparação. Mulheres foram estupradas, o país todo foi arrasado, territórios foram anexados pelos vizinhos. Muito do que se tornou o Paraguai de hoje em dia, dos desmanches de carro, do contrabando e da pobreza é conseqüência da destruição do país e quase dizimação de sua população nesta guerra financiada pela Inglaterra e grandes potências e levada adiante por três vizinhos do Paraguai.

A ditadura militar de Stroessner, bem como a "ditadura disfarçada" de sucessivos governos Colorados depois da queda do ditador, terminou por deixar o Paraguai endividado, falido, com alto desemprego, violência no campo e na cidade, além de ser um país completamente atrasado, sem indústrias e basicamente rural.

Um presente muito próximo do passado

Até a recente eleição, Nicanor Duarte era o presidente do Paraguai. Ele representava uma das muitas alas do Partido Colorado, então no poder. Na mesma eleição, concorreram Blanca Ovelar, apoiada pelo presidente, e o general Lino Oviedo, ex-presidente deposto pela população, ambos pelo Partido Colorado. Estas divisões entre o partido que se confundia com as próprias instituições paraguaias se dão pelas divisões entre os diferentes grupos empresariais do país. Assim como parte da burguesia nacional é fazendeira, outros são sócios dos brasileiros que têm indústrias no país, outros são ligados ao negócio da usina de Itaipu, que enriqueceu muitos políticos no Paraguai, etc. Estes grupos são a mesma coisa, no fundo, e estão de acordo na exploração aos trabalhadores e pequenos agricultores pobres. Mas, assim como no Brasil, em que PSDB e PT brigam em algumas coisas, os ricos do Paraguai também têm interesses diferentes algumas vezes. Isso pode fazer com que lancem candidaturas rivais, ou mesmo que apóiem um candidato "do povo" para enganar os mais pobres e explorar mais à vontade, igual ao que faz Lula no Brasil.

Foi isto que aconteceu nestas eleições para a presidência do Paraguai. Os dois candidatos colorados dividiram seus votos e ganhou o candidato Fernando Lugo, de oposição, com um discurso que prometia mudanças e que elogiava Lula, Kirchner na Argentina e outros governos, com jeito de diferentes, mas que mantêm tudo igual em seus países.

Nesta eleição, se expressou, de maneira distorcida, a vontade de mudar de vida, por parte da população explorada no Paraguai. Lugo não defende nada que possa dar alguma esperança real a essas pessoas. Bem pelo contrário: pela sua comparação com Lula no Brasil já dá para imaginar o que vai fazer no Paraguai. Ele não vai deixar de pagar a dívida do Paraguai (para onde vai muito do que é arrecadado), não vai romper com o imperialismo, nem vai retirar o Paraguai do MERCOSUL, que serve para empresários argentinos e brasileiros lucrarem à custa do povo paraguaio.

Mesmo sem nada real no que se apoiar, no entanto, Lugo personifica a esperança de mudança que a população tem, por ser de "fora" do Partido Colorado. Fernando Lugo é um bispo da Igreja Católica, militante de esquerda e defensor da Teologia da Libertação (tentativa de parte da Igreja de se aproximar dos pobres, mas mantendo o capitalismo). Seu discurso em muito se assemelha com o de Lula (Brasil), Tabaré Vasquez (Uruguai, Evo Morales (bolívia), Correa (Equador) e Chávez (Venezuela).

Embora tenha suas diferenças, e sua forma de discurso seja muito menos "radical" que Hugo Chávez e Evo Morales, por exemplo, em seu conteúdo tem as mesmas características: defende um capitalismo nacional desenvolvimentista, uma proposta de que os pobres tenham paciência, confiem em que aos poucos as coisas vão mudar e tenta convencer os trabalhadores a pararem de lutar e se conciliarem com os patrões, em um governo que seria acima dos interesses de uma classe. É o discurso que a direita muitas vezes já usou, de apaziguar os ânimos, para ganhar tempo e deixar tudo como está.

Neste sentido, Lugo é muito parecido com Lula, pois foi eleito antes de haver uma onda de greves, lutas e protestos, como em outros países. Tanto no Brasil, em 2002, como no Paraguai agora, as Frentes Populares (governos burgueses apoiados pelo movimento dos trabalhadores que se iludem que o governo é seu) eleitas foram preventivas!

Isso quer dizer que não há uma pressão de uma revolução, ou de organismo populares sobre o governo obrigando a que ele tome algumas medidas mais radicais, pelo menos para seguir enganando os trabalhadores. No caso de Lugo e Lula, as Frentes Populares não vieram para acabar com processos revolucionários, mas para impedi-los. Por isso, são governos que discursam para os pobres, mas têm ainda mais necessidade e prestígio para atacar os direitos da maioria da população.

Frente Popular: o lobo em pele de cordeiro

    Lugo apresenta todas as características de um governo de Frente Popular, com respaldo entre a classe trabalhadora, mas que por sua constituição de classe é incapaz de governar para os trabalhadores. Lugo, é preciso que se diga, é um inimigo dos trabalhadores, e por isso foi eleito.

Para esta eleição compôs um Bloco político, que foi chamado de Aliança Patriótica para a Mudança (APC, sigla em espanhol), uma coalizão de diversos partidos e movimentos sociais que vão desde organizações de esquerda com presença no campo, e que defendem ocupações de terra, até setores mais à direita, que defendem os planos diretamente neoliberais de redução de direitos trabalhistas. Nenhum destes diferentes setores, porém, é capaz de defender um programa anticapitalista, muito menos ainda revolucionário.

A campanha de Lugo foi paga por empresários também e tinha como apoiadores governos burgueses da região inteira, com muito dinheiro investido no Paraguai e que sabem que seus negócios estão tranqüilos nas mãos de Lugo.

Ainda em seus discursos de campanha, Lugo, já colocava que em seu governo daria incentivo para uma economia mais "competitiva" (ou seja, onde os trabalhadores custam pouco e não ganham nada), que a reforma agrária que pretende fazer se resume a tirar as terras das mãos dos latifundiários brasileiros para passá-las para os latifundiários paraguaios, e que, em relação à Itaipu Binacional, não vai romper contrato e que tudo se trata de uma questão de vender mais caro a energia. Quer dizer, Lugo quer negociar a exploração e a miséria do povo que acredita nele. Pretende dar migalhas de um lado, para tirar do outro e manter o Paraguai no fundo do poço que se encontra.

Fernando Lugo é mais do mesmo, discurso populista e governo da Burguesia.

   A América Latina tem sido palco de grandes acontecimentos na luta dos trabalhadores contra a burguesia e seus governos. Em 2001 e 2002, na Argentina, os trabalhadores derrubaram através de suas lutas 5 presidentes e saíram às ruas exigindo "que se vayan todos" (fora todos), na Bolívia, a partir de 2003, também como conseqüência das mobilizações caíram 2 presidentes e surgiram embriões de organismos de duplo poder. Em alguns outros países, como o Chile, a juventude foi responsável por grandes protestos contra os ataques dos governos, ficando mais conhecida a Revolta dos "Pingüins" (apelido dado aos estudantes no país).

Depois passar a década de 90 inteira sofrendo grandes ataques do capitalismo, com privatizações, demissões e avanços das multinacionais, que retiraram conquistas históricas da classe trabalhadora, a população resolveu reagir. Por estar cansada de ficar tomando só pancada, a população pobre destes países saiu às ruas. A burguesia precisou se utilizar de uma de suas últimas alternativas para momentos de crise, os governos de Frente Popular. Com respaldo entre os trabalhadores, candidatos de partidos de esquerda, passado de lutas, ou mesmo apenas um discurso de transformação, são apoiados e fazem frentes com organizações de massa dos trabalhadores, muitos deles falando até em nome do socialismo.

Mas as Frentes Populares, por mais que sejam governos burgueses atípicos, são burguesas. No mundo não há como um governo não ser nem de uma classe nem de outra. As Frentes Populares não governam para a classe trabalhadora, porque governam para os fazendeiros, multinacionais e banqueiros. As Frentes Populares são governos que se mantêm dentro das leis da democracia burguesa. Governam baseadas na Justiça, Forças Armadas, Parlamento e demais instituições do capitalismo. Os trabalhadores só podem mudar de vida de romperem com as Frentes Populares também como fizeram com os governos que assumiam que eram neoliberais.

A única chance da maioria da população ver suas esperanças de mudança realizadas é se derrubarem aqueles que se elegem em cima dessas esperanças. Só com revoluções, que ponham abaixo todo este sistema é possível mudar de vida. Felizmente, muitos povos já estão entendendo isso, e todos os outros vão fazer esta experiência. O povo trabalhador do Paraguai, mais cedo ou mais tarde, vai fazer sua experiência e construir grandes lutas, contra o Partido Colorado, Fernando Lugo e todos os traidores. A realidade é mais forte que qualquer Frente Popular e ninguém pode deter a luta de uma classe forte e tão explorada como é a classe trabalhadora paraguaia. A derrota do Partido Colorado e das instituições e regime com que ele tanto se identificava são apenas o começo de um processo muito maior.

Nesse sentido entendemos que a eleição de Lugo expressa de maneira distorcida uma vitória das massas contra o partido que foi o maior responsável por jogar o Paraguai no atraso. Mas ao mesmo tempo entendemos que Lugo será incapaz de fazer um governo que supra as necessidades dos trabalhadores paraguaios. Em primeiro lugar por que este não se propõe a romper com o capitalismo e sim administrá-lo, torná-lo mais "humano". E a própria experiência com os governos deste tipo na América Latina já nos dá a lição de que isso é tarefa impossível sem apontar a ruptura revolucionária com o capitalismo.

Em segundo lugar por que Lugo tem compromisso direto com a burguesia paraguaia, expressa nas alianças que conformou para se eleger. Os trabalhadores devem exigir de Lugo que faça a reforma agrária, que exproprie as terras dos latifundiários, sejam eles brasileiros ou paraguaios e as coloque nas mãos dos camponeses pobres. Devem exigir também que este pare de pagar a dívida externa aos EUA, bem como que assuma o controle do que é direito do Paraguai em Itaipu.

Só o que vai garantir qualquer mudança no Paraguai, por menor que seja, é a luta dos trabalhadores; são as greves, protestos de rua e manifestações contra a burguesia.

Nenhuma confiança no governo Lugo

Reforma Agrária já! Pela expropriação sem indenização do latifúndio, paraguaio e brasileiro

Não pagamento das dívidas públicas

Estatização dos bancos, grandes empresas e multinacionais

Por um plano imediato de industrialização do Paraguai, controlado pelos trabalhadores

Pelo aumento real do salário mínimo, diminuição da jornada de trabalho e extensão dos direitos trabalhistas a toda população

Pela ruptura com o Mercosul!

Pela construção de uma alternativa revolucionária para a direção das lutas no Paraguai

Por uma Revolução Socialista no Paraguai e no mundo inteiro

 

 

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