Publicado em 07/04/2009

O leste europeu 20 anos depois da queda do muro:
Geração pós-queda do muro de Berlim diz não ao capitalismo no Leste Europeu

Húngaros, checos e eslovacos enfrentam recessão e questionam efeitos da entrada na União Européia e do próprio capitalismo

20 anos depois do que ficou conhecido como a "Revolução de Veludo", processo que derrubou o regime stalinista na ex-Checoslováquia e países do Leste Europeu, e em plena crise mundial, a geração dos nascidos já no capitalismo está descobrindo que a adesão à União Europeia e o novo tipo de Estado e relações de produção em seu país só lhe trouxe mais miséria e exploração. 

2009 era para ser o ano de celebrações dos capitalistas no Leste Europeu. Além dos 20 anos do marco da queda do muro de Berlim, que simboliza a restauração capitalista, a região completa o quinto aniversário da expansão da UE para o Leste, e ainda o ano da entrada do primeiro país da Europa Central na zona do euro, a Eslováquia. Mas a crise mudou o cenário festivo, e os trabalhadores começam a se questionar mais fortemente se a adesão à UE, ao capitalismo e mesmo à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) são fatores suficientes para garantir o bem-estar da população. A resposta tem sido de que NÃO!

Simplesmente, três governos na região já caíram diante da crise e outros enfrentam protestos violentos. A insatisfação popular crescente na ex-cortina de ferro é produto de um fenômeno que a região não conhecia nos anos do Estado operário: a desigualdade social. Hoje, o salário médio de um eslovaco é sete vezes maior, nominalmente, que a média de 1989. Mas um estudo da Universidade de Bratislava mostrou que, na realidade, o poder de compra ainda é o mesmo de há 20 anos. Ou seja, o que uma pessoa ganha lhe dá a possibilidade de comprar exatamente o que adquiria em 1989. A inflação e os preços "europeus" fizeram despencar o poder de compra, corroendo o aumento salarial.

Agora, porém, há uma grande diferença: além de que o dinheiro que se tem na mão compra apenas o que já se comprava 20 anos atrás, faltam os recursos para pagar o médico, o hospital, a escola, a aposentadoria, o transporte e o lazer, que antes eram gratuitos ou subsidiados pelo Estado.

Só 30% dizem viver melhor do que no  "comunismo"

Um estudo do Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento concluiu que apenas 30% da população do Leste Europeu afirma que vive melhor hoje que no período "comunista" (termo inadequado para descrever a realidade stalinista, mas que foi o objeto da pesquisa). Mesmo descontando os que acham que a vida segue equivalente, mais da metade da população preferia a vida tutelada pela burocracia pró-Moscou, a obsolescência tecnológica e todas as dificuldades dos ex-Estados operários em relação ao caos e desespero capitalistas, que trouxe a miséria, o desemprego e a prostituição ao Leste Europeu.

Só 15% da população acha que hoje a corrupção é menor. Esse dado talvez seja ainda mais chocante, pois é famosa a corrupção que havia por parte da burocracia nestes países, encastelada no poder, sem nenhum controle popular. Mesmo assim, o capitalismo e as máfias que trouxe consigo, deixou no chão as maracutaias do período soviético. Hoje são centenas de bilhões roubados à luz do dia por multinacionais imperialistas em associação com burgueses húngaros, tchecos, búlgaros, eslovacos, etc.

A revolta diante do capitalismo não é para menos. Nos primeiros anos da restauração capitalista, a produção caiu em 70% no Leste Europeu. Na última década, o crescimento voltou, impulsionado por "maquiladoras" ao estilo mexicano. São enormes plantas de fábricas e ramos de produção que são transferidos da Alemanha e Reino Unido, por exemplo, para esta região, devido à mão de obra barata e sem direitos trabalhistas.

Diante desse dados maquiados, a esperança dos analistas burgueses era de que 2009 terminasse com uma alta de 25% na produção da região, em comparação a 1989. Mesmo se isso ocorresse, seria um fracasso! Crescer 25% em 20 anos quer dizer apenas 1% ao ano, o que, na prática, levando em conta o crescimento populacional e mundial, significa que com essa estimativa "dando certo", mesmo assim, o PIB teria encolhido, em termos percapita!

Mas a crise mudou o cenário para ainda pior. 2009 vai terminar com a diferença entre o PIB per capita no Leste Europeu e da UE sendo maior que a diferença em 1989. Quer dizer que os países do leste estão ainda mais pobres do que o resto da Europa, comparativamente, do que antes. E isso que antes, mesmo sem dinheiro circulando ou disponível, a população tinha suas necessidades básicas atendidas pelo próprio Estado, não havendo necessidade de movimentar dinheiro para isso. Agora, após o desastre econômico, algumas estimativas apontam que a região precisará de pelo menos dez anos para completar as promessas dos líderes de 1989 de retomar o padrão de vida anterior. Estas estimativas, porém, assim como já fracassaram, vão fracassar de novo, pois são completamente irreais, já que se baseiam numa tendência de crescimento capitalista, apenas interrompido por "anos ruins" de crise. Como a crise capitalista é muito mais séria que isso, e é estrutural, não podemos compartilhar destas mesmas previsões artificialmente otimistas.

A dura verdade é que o capitalismo há muito deixou de crescer e a incorporação de países como os do Leste europeu no mercado mundial ocorre apenas para superexplorá-los e garantir a taxa de lucro das multinacionais. Não há mais lugar para crescer no mundo capitalista. O que as massas do leste europeu estão concluindo, em um número cada vez maior, é que é preciso fazer novas revoluções socialistas nestes países, desta vez colocando o Estado sob controle da base operária e dos trabalhadores em geral.

 

VOLTAR

 
Notícias Relacionadas

• Crise põe PIB mundial em queda livre: Pela 1ª vez, economia mundial deve ter recessão anual

• Uruguai aprova o direito à eutanásia!

• Jogar sapatos em Bush dá cadeia! Jogar bombas em civis iraquianos e palestinos, não! Al-Zaidi é condenado a três anos de prisão

• A FRANÇA MOSTRA O CAMINHO: Trabalhadores da Sony ocuparam fábrica e prenderam diretoria e o presidente da empresa no escritório na luta contra as demissões.

• E o Estado salva os banqueiros: Grã-Bretanha avança estatização do Lloyds, 3º maior banco britânico

• Casa só para quem ganha Oscar: Os dois principais atores mirins de "Quem Quer Ser Um Milionário" vão ganhar casas novas de governantes indianos, depois de o filme feito com orçamento pequeno ter sido o grande vitorioso do Oscar, recebendo oito estatuetas.

• QUEM DEFENDE A CAUSA PALESTINA? APROXIMADAMENTE MIL PALESTINOS FORAM MORTOS NA FAIXA DE GAZA EM DUAS SEMANAS DE GENOCÍDIO