Publicado em 02/09/2009

Abstenção massiva de votos, repressão e atentados nas eleições do Afeganistão, que terão 2º turno.

A situação política que vive o Afeganistão recentemente voltou à tona, por conta das últimas eleições para presidente. O processo eleitoral foi marcado por uma forte repressão da polícia, que fez verdadeiros cercos nas cidades. A capital, Cabul, que conta com 4 milhões de habitantes, estava isolada, e tinha mais de quarenta barreiras policiais, que controlavam a movimentação da população e qualquer tentativa de protesto.

Hamid Karzai, candidato à reeleição depois de governar por 8 anos o país, está sendo acusado de utilizar a máquina do Estado para sua campanha, assim como do oferecimento de favores em troca de trabalho. Karzai é o candidato forte do imperialismo, por ter sido colocado no poder pelas mãos dos Estados Unidos e seu exército invasor, e seguir defendendo a permanência das tropas no território afegão.

Paralelamente à farsa eleitoral, conduzida num país invadido, e cujas alternativas eleitorais são todas produto dos colaboradores com a invasão até agora, houve um chamado do grupo insurgente Talibã (deposto pela ocupação norteamericana) para que se boicotasse o processo eleitoral.

Juntando-se a fraude e descontrole por parte do governo, a falta de candidaturas e liberdades reais aos trabalhadores demonstrarem suas opiniões, e as ameaças dos talibãs; a soma desses ingredientes determinou um número de abstenções altíssimo, e que o clima de instabilidade fosse aumentado no país.

Segundo os últimos dados da contagem fornecidos pelo governo, o atual presidente, Karzai, tinha 45,9% dos votos contra 33,3% Abdulah Abdullah (ex-chanceler do governo e militante da Liga do Norte, guerrilha sem apoio popular e que vinha sendo dizimada pelos talibãs, antes de ser financiada pelos EUA). Com este resultado, será necessária a realização de 2º turno, o que pode agravar ainda mais a tensão.

Um país em guerra civil

Mesmo antes das eleições, as burguesias afegã e imperialista já temiam que a revolta da população causasse “problemas”. Houve ameaças de que, se Hamid Karzai não se elegesse no 1º turno, isso poderia significar a perda do controle da situação. Do outro lado, os demais setores burgueses, mais vinculados à crescente resistência popular à guerra de ocupação, lembravam que uma fraude cometida aos moldes do Irã, em que o presidente fosse reeleito sem 2º turno, é que poderia aumentar a guerra civil.

Nesse momento, vive-se uma instabilidade bastante grande no país, pois os candidatos tiveram votações bastante próximas, e já existem mais de 400 denúncias sobre fraudes. Por um lado, Karzai sofre o desgaste de ter roubado as eleições. Por outro, a fraude não foi suficiente e haverá 2º turno igual, ampliando as disputas interburguesas e espaço de atuação e denúncia dos talibãs.

 

            Esses fatos expressam que as coisas não andam nada de acordo com os planos do imperialismo na região. Há um aumento consistente nos atentados, ações de resistência e mortes de soldados americanos e afegãos no país. E este aumento do descontrole político se dá justamente em um momento que o presidente dos EUA, Barack Obama, aumenta o número de soldados no país. Obama, assim, é obrigado a se chocar com a indignação e revolta da população, que se vê diante de uma tentativa de ampliação da dominação do país por parte dos EUA, no momento em que a resistência cresce. Tudo indica que um novo atoleiro, como o do Iraque, possa estar se consolidando.

A instabilidade e clima de caos que vive o Afeganistão, onde após a votação ambos candidatos que estão no segundo turno se declararam vencedores, demonstrando que ensaiam uma briga entre si pela legitimidade, é uma derrota parcial para os planos imperialistas.

Essa derrota ainda é limitada, pois infelizmente os trabalhadores, e o povo afegão em geral, não contam com uma direção que tenha algum compromisso com uma luta que sirva para cortar o mal pela raiz, ou seja expulsar os invasores e instalar um governo independente, livre e dos trabalhadores.

O Talibã, que expressa o que há de mais radical no que se refere aos métodos de luta, é um grupo que usa do terror individual, em vez de confiar na luta de massas da classe trabalhadora. Ao mesmo tempo, como conteúdo programático, tem o mesmo projeto que o governo, de administrar o capitalismo no país. Sua diferença é que o regime que propõe é o de um governo fundamentalista islâmico, repressor contra mulheres, autoritário e com traços fascistas. Ainda que nos solidarizemos com todas as ações de luta e de resistência ao imperialismo (do Talibã, principalmente), esta não é a alternativa dos trabalhadores.

            A solução não virá através de eleições burguesas, que, por sinal, estão marcadas por denúncias, fraudes e golpes em países de todos os cantos do mundo, e não apenas no Afeganistão. A saída para os trabalhadores só será possível através da luta e mobilização dos próprios trabalhadores e de organismos que sejam criados e desenvolvidos como parte da resistência. Que se ampliem os protestos! Que os trabalhadores decidam os rumos do país, não através de eleições fraudulentas, mas através de seus organismos, através de suas próprias milícias que combatam também militarmente as tropas dos EUA.

            Neste sentido, nem Karzai nem Abdullah representam os interesses populares. É preciso boicotar o 2º turno e lutar nas ruas contra as tropas invasoras e os governos de fachada, seja de que setor burguês ele for.

 

 

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