ITAIPU: Brasil paga migalhas e segue explorando Paraguai. Lugo e Lula fazem acordo que consegue ser ruim para os trabalhadores dos dois países
Lugo na corda bamba
Após 11 meses desde a posse de Feranando Lugo como novo presidente do Paraguai, foi finalmente selado um novo acordo sobre Itaipu, com o Brasil. Quando o presidente do Paraguai estava em campanha eleitoral, e desde que foi eleito, este sempre foi um dos temas mais importantes de sua propaganda: o tratado em relação à hidrelétrica de Itaipu. Lugo dizia que uma das principais medidas que tomaria seria aumentar o custo da energia “vendida” ao Brasil, ao que o governo Lula respondia que não mudaria as regras do contrato.
Após um ano bastante turbulento e cheio de crises políticas, Lugo mudou radicalmente seu discurso. Primeiro, ele foi acossado pela revelação de que mentiu aos eleitores e à Igreja ao fingir que cumpria seu voto de castidade como bispo, enquanto mantinha relações com menores de idade, abusando de sua função religiosa e de poder econômico. Depois, a acusação de que é pai de 3 filhos não reconhecidos mostrou o lado pessoal machista e opressor de um pai que deixou filhos e mulheres com quem se relacionou no desamparo.
Estes escândalos, porém, não chegaram nem perto da desmoralização política do governo Lugo provocada pela ruptura de importantes setores do movimento camponês e rural, indignados com a traição do governo. Lugo, que havia se comprometido com a reforma agrária e ganho a eleição com apoio nos trabalhadores mais pobres, em especial do meio rural, passou a defender os latifundiários. Depois de eleito, mas ainda antes de ser empossado, Lugo já se pronunciava contra a onda de ocupações que então se multiplicavam contra fazendeiros ricos e situados muitas vezes em áreas ilegais e roubadas do governo ou pequenos agricultores. Depois de assumir, Lugo se distanciou ainda mais dos camponeses pobres e sem-terra, e abertamente deu apoio aos fazendeiros armados que formavam milícias para defender seus latifúndios, além de resguardar a propriedade de proprietários brasileiros, em geral donos de terras confiscadas de trabalhadores pela ditadura de Strossner, e revendida a estrangeiros.
Diante de tudo isso, Lugo viu seu governo balançar. No fim das contas, foi obrigado a engrossar o tom das reclamações contra o Brasil e a exploração feita em Itaipu. E foi por esta pressão popular (encampada muito fragilmente por Lugo) que Lula foi obrigado a negociar, além, evidentemente, da compreensão do governo brasileiro de que era melhor ceder em pontos pequenos e preservar um governo amigo e frente-populista como vizinho, acalmando as massas e os protestos mais radicais.
Tratado de Itaipu é uma exploração
Depois de muito jogo de cena, o governo paraguaio, justamente em seu momento mais enfraquecido, assina uma revisão no acordo sobre Itaipu. É evidente que, nestas condições, as novas regras não são as que o Paraguai conseguiu impor, e sim as que o Brasil aceitou conceder. No fim das contas, foi o Brasil quem saiu ganhando. Isso porque, apesar dos protestos paraguaios, o governo vai seguir se apropriando dos recursos do vizinho, a preço de banana. Segundo o acordo, os dois países dividem meio a meio a energia de Itaipu.
Esta regra é absurda, pois é claro que o Paraguai, com uma população muito menor que a brasileira, e resumido a uma economia subalterna e agrária, não tem demanda para consumir metade da energia de Itaipu. E, diante deste fato já sabido por antecipação, o governo da ditadura brasileira (época da construção da usina) obrigou o Paraguai a vender a energia que "sobra" para o Brasil, por alguns centavos.
No fundo, isto é um enorme roubo. A ditadura, e alguns "esquerdistas" de araque ou "especialistas" metidos a técnicos, alegam que esta exploração do vizinho pobre é justificada porque foi o Brasil quem investiu na usina. Este é o mesmo argumento dos donos de escravos, que não pagavam salário porque "descontavam" os gastos que os escravos davam.
O fato é que o Brasil atua como uma sub-metrópole na América do Sul. Mesmo que seja explorado pelo imperialismo, o Brasil serve como testa de ferro para explorar ainda mais países miseráveis como o Paraguai. Os brasileiros não ganham nada com o roubo dos paraguaios. São apenas os empresários que desfrutam da energia barata subtraída de nossos vizinhos.
Tanto para a venda como para consumo próprio, o Paraguai só consome 5% de sua metade de Itaipu, mas não pode vender para quem quiser o restante, sendo obrigado a praticamente dar de graça essa energia ao governo brasileiro. Pelo novo acordo, isso vai permanecer igual. O que muda é que as migalhas que o Brasil paga serão aumentadas (mas seguirão migalhas), e que até 2023 (olhem só!!!), o Paraguai poderá, lenta e gradualmente, ter ampliado o direito de vender a energia para outros compradores, desde que sigam sendo brasileiros. Isso é uma agressão ao povo paraguaio.
Nós não reconhecemos a "dívida" que o Brasil alega que o Paraguai tem. Essa dívida já foi paga muitas vezes com a energia quase gratuita que o Brasil confisca do Paraguai. O acordo fechado por Lugo não é nenhuma conquista, mas uma rendição, que deve ser repudiada e derrotada, dando início a um processo ainda maior de lutas pela autonomia e soberania imediata e integral dos paraguaios sobre sua metade de Itaipu.
Existe uma forte e correta pressão por parte dos trabalhadores paraguaios para que a energia produzida lá seja voltada para satisfazer as necessidades do povo paraguaio, seja consumindo-a, seja vendendo, e não doando essa energia para aumentar a riqueza e exploração de um outro país sobre a população do Paraguai. O que agora já fica mais claro para mais setores da população, é que esta luta não pode contar com Lugo, que acaba de trair suas promessas. Esse acordo não passa de um jogo de cena para conter a pressão do povo paraguaio sobre Fernando Lugo.
O que muda com o novo acordo?
No novo acordo entre os dois países o que mudou é que o Brasil vai pagar mais pela energia que o Paraguai é obrigado a vender. Até então o Brasil pagava cerca de US$ 120 milhões por ano, agora pode chegar a US$ 360 milhões. Mas nem mesmo esses US$360 milhões seriam todos pagos, pois US$50 milhões na verdade seriam investidos em um fundo para a construção de novas obras entre os dois países.
Esse acordo não é nem de perto o que necessita o povo do Paraguai. Pelo contrário: segue o Brasil tendo o controle do que o Paraguai faz com sua energia e ainda abre a brecha para o país explorar outros ramos da economia paraguaia.
Nós defendemos o direito do Paraguai fazer o que bem entender com sua energia, sem se submeter a qualquer país. E esse novo acordo prova que isso é impossível de se fazer através de Fernando Lugo. A única saída para os trabalhadores do Paraguai terem controle sobre suas riquezas é eles mesmos passando a ter o controle não só de Itaipu mas de todos os ramos da economia do país. Só com o aumento das ocupações de terra e dos protestos contra Lugo é possível impor ao Brasil um acordo que beneficie de fato o Paraguai.
Além disso, é necessário denunciar o papel do governo Lula, que serve como um braço do imperialismo na América Latina, já que toda essa riqueza arrecadada através de Itaipu, da exploração de gás e petróleo na Bolívia e etc, acaba sendo mandada direto aos EUA através da dívida externa, remessa de lucros, etc., e quem paga essa conta são os trabalhadores brasileiros e paraguaios.
Por isso esse novo acordo em relação a Itaipu deve ser encarado com rechaço dos trabalhadores paraguaios, que devem ter toda a solidariedade dos trabalhadores brasileiros. Esse acordo agrada os corruptos do governo Lugo e os empresários brasileiros, pois ambos cedem um pouquinho, mas mantêm o que interessa. Quem segue na pobreza são os trabalhadores paraguaios e quem segue pagando caro pela luz para subsidiar as empresas privadas é o povo pobre no Brasil.
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