Bolívia: à beira da guerra civil
Os recentes conflitos na Bolívia nem bem já estão provocando dezenas de mortes, e a radicalização política no país segue crescendo e assumindo proporções de guerra civil. A insatisfação com a realidade econômica e política faz com que a maioria da população exija mudanças no país. Estas mudanças não são feitas ou sequer apoiadas nem pela oposição nem pelo governo Evo Morales.
O resultado de anos de exploração absoluta dos trabalhadores bolivianos foi a explosão de inúmeros conflitos, greves gerais e manifestações violentas contra a presença do imperialismo, as multinacionais e os governos capachos que existiam na Bolívia. Foram as lutas decorrentes desta insatisfação que levaram os bolivianos a aumentarem seu grau de consciência, sua experiência política e avançarem em sua organização.
Desse processo, renasceu politicamente a COB (Central Operária Boliviana), se derrubaram 3 presidentes e foi eleito Evo Morales, com um forte discurso estatizante, socialista e em defesa dos trabalhadores. Evo Morales, ex-agricultor ligado ao plantio de coca (cocaleiro), sempre foi identificado como um representante do povo, especialmente os trabalhadores rurais mais pobres e os índios. Por isso, sua eleição representou, no terreno eleitoral, uma derrota distorcida do imperialismo. As massas trabalhadoras na Bolívia tinham a ilusão de que Evo seria o inimigo do imperialismo que elas combatiam nas ruas e através de revoltas como a da água e 2000 (Cochabamba) até a revolução de 2003. De conteúdo, porém, Evo foi a principal arma que restou ao imperialismo, às multinacionais e aos grandes empresários da própria Bolívia. A Burguesia dos Estados Unidos e Bolívia apoiaram Evo, no momento em que souberam que só ele podia evitar a revolução de seguir adiante e expropriar os exploradores no país.
O papel reacionário das Frentes Populares
O governo de Evo Morales faz parte do que se chamam de governos de Frente Popular. Esses governos são um dos muitos tipos de governos que existem dentro do capitalismo. São governos que mantêm a ordem burguesa, a propriedade dos meios de produção nas mãos de donos nacionais ou estrangeiros, não assumem o monopólio do comércio exterior, não planificam a economia: ou seja, são governos burgueses.
As Frentes Populares se caracterizam por serem governos burgueses atípicos. São diferentes porque, mesmo sendo a favor dos ricos e mantendo o capitalismo, os trabalhadores enxergam estes governos como se fossem seus, e a própria burguesia não os vê, geralmente, com bons olhos. As Frentes Populares são o que o revolucionário russo León Trótski chamava de “o último recurso da burguesia” junto com o fascismo. É isso que Evo significa, assim como Chávez, Correa e Lugo, presidentes da Venezuela, Equador e Paraguai, respectivamente.
Estes governos foram eleitos a partir de processos muito intensos de luta em seus países, e expressaram uma correlação de forças em que as massas ameaçavam cada vez mais as instituições, exigindo emprego, salário, saúde, etc.; e um momento onde a burguesia não tinha forças para responder com o fascismo e a repressão.
Historicamente, o primeiro governo de Frente Popular, com estas características gerais, foi o de Kerenski na Rússia, em 1917. Kerenski era o dirigente do Partido Menchevique, que se dizia socialista e até mesmo revolucionário. Os mencheviques eram maioria nos conselhos de trabalhadores (soviets) e estiveram juntos na queda do czar russo. Diante do fato de que os trabalhadores não tinham se contentado com um governo republicano, mas ainda assim burguês e explorador, os mencheviques assumiram o poder e, com o apoio e confiança das massas, mantiveram tudo como estava.
Neste momento, os bolcheviques de Lênin, mais Trotski, souberam entender que era preciso combater Kerenski e preparar sua derrubada a partir dos organismos dos próprios trabalhadores. Lênin convence o restante do partido (que até ali estava sendo pressionado a dar apoio crítico a Kerenski) a chamar os trabalhadores a não confiarem do governo. Com essa posição, passaram a ser, explicitamente, oposição ao governo de Frente Popular e preparar a revolução socialista através de sua derrubada.
Os golpistas de direita
Ainda analisando o governo Kerenski na Rússia, vamos encontrar o discurso permanente, na boca dos reformistas que se diziam revolucionários, de que “era preciso defender o governo Kerenski contra as tentativas de golpe da direita”. E estas tentativas não eram apenas ameaças vazias, como no caso atual de quem defende Lula gerando medo de que o DEM ou o PSDB vão voltar (o que representaria pouca coisa). No caso da Rússia, em 1917, a direita fascista russa, com apoio de todo o imperialismo realmente preparavam um golpe violentíssimo contra os trabalhadores como um todo, e não apenas contra Kerenski. Os generais Yudenich, Denikin, Kolchak e, o mais importante deles, Kornilov, conspiraram e instalaram uma guerra civil com a intenção de derrubar o governo democrático burguês (de tipo frente populista) de Kerenski.
Qual foi a política dos bolcheviques antes do golpe? A de prosseguir alertando os trabalhadores de que deveriam derrubar Kerenski e destruir o capitalismo, inclusive por que se preparava um golpe contra até mesmo o pouco que tinham (a República) e que Kerenski era incapaz de evitar que se perdesse inclusive esse mínimo que existia. Após a deflagração do golpe, os bolcheviques se mantiveram na oposição a Kerenski, e com a mesma estratégia. Diante do conflito armado, souberam lutar junto com Kerenski e os mencheviques contra Kornilov, mas nunca lhe deram qualquer apoio político, entraram no governo ou desistiram de tomar o poder com os trabalhadores. O resultado disso tudo é conhecido: Kornilov foi derrotado, mas Kerenski, alguns meses depois, também caiu, derrubado pela Revolução Socialista de 1917, dirigida pelos bolcheviques, que convenceram as massas de que era preciso tomarem o poder para evitarem outros Kornilovs.
Este exemplo deixa bem claro a opção que faz a burguesia, seja a imperialista, seja a nacional, nos países em que a luta de classes chega ao ponto de se transformar em guerra civil. Nestes casos, a luta de classes se transforma em guerra civil, ou, como disse Lênin, “a guerra civil oculta se transforma em guerra civil aberta”.
A burguesia pode apostar em Frentes Populares para evitar as revoluções, ou abortá-las. Porém, ou estas Frentes Populares conseguem derrotar e desmoralizar os trabalhadores, podendo seguir apoiada pelos banqueiros e empresários mais um tempo, ou sofrendo uma oposição “democrática” e pacífica, que mais cedo ou mais tarde, vai lhe suceder, ou a burguesia vai para o golpe.
Esta história se repetiu na Argélia, Venezuela (com o golpe de 2002 contra Chávez), contra Allende em 1973 no Chile, e está acontecendo novamente na Bolívia neste exato momento. A burguesia só tenta um golpe quando, por um lado ( o principal) percebe que os trabalhadores estão a ameaçando de uma maneira muito forte; e, por outro lado, quando entende que reuniu forças para isso.
Foi Evo Morales e a traição de seu partido, o MAS, quem impediram a revolução boliviana de 2003 de seguir adiante. Agora, é por causa deles, e de sua incapacidade e ausência de interesse em se enfrentar com o imperialismo, que os golpistas se rearticularam e podem ameaçar seu governo, de um modo que seria impossível há algum tempo.
Evo Morales, o MAS, a COB e os governistas, são os responsáveis por permitir a situação em que a Bolívia chegou: à beira de um golpe de direita! São o desemprego, a miséria e a exploração, que continuam na Bolívia, que alimentam o golpe da direita e que levam muitos trabalhadores a “lavarem as mãos” e não defenderem, nem militarmente, o governo Evo.
Evo Morales está à frente de uma Frente Popular Kerenskista! Nem a população o sustenta integralmente, pois não é capaz de atender suas reivindicações e necessidades; nem a burguesia está disposta a “agüentar” sua concessões aos trabalhadores e seu governo que é burguês, mas não consegue mais conter os trabalhadores como deveria, nesta lógica dos grandes empresários e banqueiros. Evo Morales é um governo “suspenso no ar” e a classe trabalhadora não pode contar nem mais um segundo com sua existência para resolver seus problemas.
Derrotar o golpe pró-imperialista. Combater Evo Morales
É preciso lutar, militarmente, junto com o governo Evo e todos os setores que queiram derrotar o golpe da direita, sediada no departamento de Santa Cruz, e demais estados vizinhos, na conhecida “meia Lua” boliviana, região mais rica, mais branca e mais distante politicamente do governo.
Mas esta luta comum, no terreno militar, só pode existir se existir o armamento da população. Todos os explorados, os mineiros, os agricultores, os trabalhadores urbanos, o povo pobre de El Alto (cidade na periferia de La Paz, que é o centro das lutas bolivianas) precisam ter acesso às armas de fogo, dinamites usadas nas pedreiras, veículos de guerra, etc., para que se possa esmagar o golpe.
Evo não faz isso porque sabe que, com armas na mão, não serão apenas os golpistas que serão combatidos, mas todos os latifundiários, os empresários que são seus aliados, as empresas multinacionais “amigas” como a exploradora Petrobrás brasileira (que paga salários de fome aos bolivianos para trazer os recursos naturais do país andino ao Brasil), etc.
Somente os trabalhadores armados podem derrotar o golpe semi-fascista que se inicia na Bolívia e impedir que novos golpes sejam gestados, desde a “meia Lua” até o próprio Brasil, Colômbia e Estados Unidos, em defesa dos interesses das multinacionais, donos de terras, bancos e empresas, na Bolívia.
É preciso construir comitês de defesa dos trabalhadores, milícias populares e conselhos dos trabalhadores. Estas formas de poder operário e popular, paralelas e opostas ao poder burguês oficial, devem ser estimuladas e desenvolvidas. E este duplo poder deve ser dirigido por um partido realmente revolucionário, que deve chamar as massas para derrotar o golpe, em combinação e simultaneamente com a necessidade de preparar a derrubada revolucionária e socialista do governo Evo Morales.
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