Candidato que não existe pode ganhar eleição na Alemanha:
A democracia burguesa desmoralizada!
Não é mais novidade dizer que a população está desacreditada nas eleições. Isso vale para o Brasil, que bateu recorde de votos nulos e abstenções na última votação, e vale para a maioria dos países do mundo, desde a vizinha Argentina até a Europa.
A burguesia tenta revitalizar suas instituições apresentando candidatos “inovadores”, que prometem mudanças e expressam ser diferentes, ao menos na aparência ou origem. É um festival de “primeira mulher governando na Alemanha; primeiro negro nos EUA; primeiro operário no Brasil; primeira homossexual na Islândia; primeiro indígena na Bolívia; etc.”.
Essas tentativas de mudar, sem mudar nada, são parte da explicação do crescimento das Frentes Populares mundo afora. São governos que contam com o respaldo popular, mas que governam igualmente para os ricos, como faziam antes os governos da direita tradicional. Essas artimanhas ideológicas da burguesia conseguem ganhar tempo, muitas vezes, no que se refere a conter a luta de classes. Mas não são capazes de enganar por muito tempo.
Não é por nada que personagens ridículos ou folclóricos muitas vezes viram campeões de voto, expressando o protesto e indignação populares com candidatos e partidos que são todos iguais. Foram os casos do rinoceronte Cacareco e do macaco Tião, candidatos muito bem votados em eleições brasileiras passadas, como forma de repúdio.
Versão europeia e humana do rinoceronte Cacareco
Cacareco, o rinoceronte, foi o candidato mais votado em 1958. Obteve 100 mil votos, mais que qualquer outro candidato ou partido! Dessa vez, um candidato fictício às eleições alemãs corre o mesmo risco.
Horst Schlämmer, figura criada pelo humorista Hape Kerkeling, está provocando confusão em uma campanha considerada morna, cujos dois principais candidatos, integrantes da atual coalizão de governo, não empolgam ninguém. O personagem inexistente na vida real ganharia 18% dos votos caso estivesse realmente concorrendo à vaga da chanceler Angela Merkel, segundo uma pesquisa de opinião. Com esse índice, poderia ir ao 2º turno.
Vestindo um empoeirado sobretudo cinza, com corte de cabelo e óculos ridículos e um bigodão, Horst Schlämmer descreve seu partido como "conversador, liberal, de esquerda e um pouco verde", num deboche total, mas com muito de verdade, aos atuais partidos, que falam sempre a mesma coisa. Ele promete, caso eleito, cirurgias plásticas gratuitas e bronzeamento artificial para todos, numa paródia das promessas mentirosas que os candidatos reais também fazem.
O candidato, imitando Obama, tem o slogan de "Yes, Weekend!" (sim, fim de semana), uma paródia do mote "Yes, we can!" (sim, nós podemos) da campanha eleitoral do presidente americano.
O fenômeno de abstenções recordes em todo o continente europeu nas recentes eleições para a União Europeia, e a desmoralização da política na democracia burguesa, fazem com que Horst Schlämmer seja o “político” mais popular do momento. Uma candidata à prefeitura de Grevenbroich, chegou a usar em sua campanha uma foto ao lado do candidato de mentirinha, como se fosse seu cabo eleitoral.
Os revolucionários não defendem transformar as eleições numa chacota. Nós acreditamos que é possível utilizar este espaço para apresentar o programa dos trabalhadores, desde que combatamos a própria democracia burguesa e o processo eleitoral, utilizando a tática da participação nas eleições burguesas para agitar as lutas operárias pelo socialismo e a revolução. No entanto, não podemos deixar de reconhecer e nos solidarizar com a população que não enxerga candidatos que a represente. Neste caso, sem dúvida, o voto nulo em Schlämmer é melhor que as saídas do Partido Democrata-Cristão ou da Social-Democracia.
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