China toma espaço do Brasil no mercado argentino
Um recente balanço feito pela consultora argentina Abeceb.com, especializada no comércio Brasil-Argentina, mostra uma queda de 45,7% das vendas brasileiras ao vizinho do Mercosul, durante a crise. Em contrapartida, a China teve uma queda de apenas 25,1%. Como resultado, o país asiático ultrapassou o Brasil nas relações comerciais em setores estratégicos.
Uma das principais conseqüências ocorreu no setor têxtil, por exemplo, em que o Brasil deixou de vender 40% a mais do que a China, para se tornar o 2º lugar das importações argentinas, 20% menor do que a China. No total da economia e das relações comerciais, a China saiu de uma posição de exportar para Argentina 6 vezes menos que o Brasil, para assumir a liderança em vários setores e encostar no Brasil no somatório dos negócios.
O comércio entre Brasil e Argentina sofreu uma retração de 39% no primeiro semestre, seguindo o mesmo rumo do PIB desses países, em queda livre. A China, por outro lado, segue crescendo, ainda que em um ritmo desacelerado se comparado ao período anterior à crise. O crescimento da China diante de um mundo em recessão, porém, merece uma observação.
Nova potência ou semicolônia?
A China, há mais de 30 anos, reintroduziu relações capitalistas de produção e uma estrutura que iniciou o abandono dos elementos estruturais da economia planificada, para funcionar segundo os interesses da burguesia imperialista, bem como defender os interesses dessa classe. A burocracia chinesa se converteu em uma burguesia nacional associada aos interesses das grandes multinacionais, que transformaram o país numa plataforma de exportação das fábricas norteamericanas e europeias, num grande esquema de “maquiladoras”, a la México.
A economia chinesa, portanto, funciona sob regras capitalistas (e não comunistas, como dizem os meios de comunicações burgueses). Assim, a China além de um Estado burguês, hoje é um Estado burguês bastante dependente dos países centrais, seus investimentos e empresas, num tipo de economia semicolonial e dominado pelas grandes multinacionais do imperialismo.
O México, por exemplo, obteve um forte crescimento do PIB após sua adesão ao NAFTA ( tratado de livre comércio com os EUA e Canadá), mas a população não teve retorno nenhum, pois este resultado era artificial. Quem puxava para cima os números da economia eram empresas americanas, com donos americanos e que exportavam seus lucros para suas matrizes, nos Estados Unidos. O México não ganha nem com impostos, pois estas empresas recebem isenções fiscais e fortunas em incentivos de todo tipo. É o mesmo que acontece na China.
Uma pequena parte de seu crescimento é revertido no fortalecimento de uma burguesia chinesa. Mas a maior parte deste crescimento vai para tapar o rombo da GM e outras empresas falidas, e para engordar o cofre dos burgueses que ainda estão com os lucros no azul.
A vantagem da China, em relação ao México, e ao Brasil, Argentina e qualquer outro país, é que, além de capitalista e semicolonial, a China possui um regime burguês ditatorial, com características inclusive semifascistas, de perseguição e terror sobre a organização dos trabalhadores. Esta política contra a população ajuda os grandes monopólios a escravizarem a mão de obra dos trabalhadores chineses, que enfrentam jornadas desumanas e não possuem nenhum direito trabalhista. É isso que explica o grande crescimento chinês, ao lado do enorme mercado interno resultante de um país bilionário em termos populacionais também.
No fim das contas, o que cresce na China são as filiais de empresas norteamericana, enquanto a população não vê a cor desse crescimento. A conclusão é uma só: a China não é a nova superpotência mundial, e sim uma grande semicolônia do mesmo imperialismo.
Economia brasileira perde de goleada da China. Proposta de “competição” é imitar piores exemplos!
Pelo lado brasileiro, a perda de espaço nas exportações a países como a Argentina para os chineses, mostra mais um aspecto da fragilidade da economia do Brasil. A verdade é que não há tecnologia, investimentos estatais e infraestrutura desenvolvida no Brasil para sequer tentar competir com os chineses.
Apesar dos discursos e promessas ilusórias do PAC, o governo Lula está cortando investimentos que foram anunciados e nem 10% do que é divulgado se transforma em obras. O resultado é que portos, rodovias e aeroportos seguem sucateados e incapazes de atender até mesmo a demanda atual da economia. O parque produtivo brasileiro consiste em ramos cujo valor dos produtos é baixo, priorizando produtos primários e matérias-primas. Collor, FHC e Lula são responsáveis por desindustrializar parte do país e transformar o Brasil numa economia superdependente das exportações de produtos agrícolas e minerais.
Por isso, as entidades empresariais querem igualar a China pelo lado “mais fácil”, ou seja, pela escravização dos trabalhadores. Essa é a estratégia quando se defende que sejam suprimidos os diretos trabalhistas como 13º, férias e FGTS. Por isso, se atacam os aposentados e fala-se tanto no tal “custo Brasil!”, que nada mais é que o “gasto” com os trabalhadores, que é alvo dos ataques da patronal e do governo neste momento.
A burguesia brasileira hoje é tão dependente e submissa à burguesia mundial, que é incapaz de tomar qualquer ação própria, levando a algum enfrentamento interburguês, como no passado foi possível, se resumindo a ser uma correia de transmissão das multinacionais. Na verdade, a burguesia brasileira deixou de ser proprietária de muito das forças produtivas no Brasil, se resumindo a uma posição de sócia menor ou de gerente dos negócios imperialistas.
Esta é uma das razões pelas quais nenhum setor político burguês no Brasil, incluindo Lula e o PT, pode sequer defender um nacionalismo-burguês coerente. As únicas hipóteses para o país são, ou a destruição do capitalismo, a independência e o desenvolvimento, que só podem ser obtidos por obra dos trabalhadores e de uma direção revolucionária; ou a submissão total e colonização ainda maior do país, que é o que, sob diferentes versões, apresentam todos os partidos eleitoreiros, de direita ou esquerda, no Brasil.
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