Publicado em 15/12/2008


Conferência sobre mudanças climáticas fracassa por causa de países ricos

Brasil reforça discurso do imperialismo, de que todos são responsáveis

O plano nacional, divulgado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pelo ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, marca uma reviravolta na política de Estado para a Amazônia. Cobrado desde sempre nos fóruns internacionais, o Brasil até aqui não aceitava estipular metas para redução do desmatamento enquanto nações industrializadas não se comprometessem.

Na Conferência de Poznan, o Brasil tomou a iniciativa de mudar o discurso que vinha sendo feito em comum pelos países mais pobres. Contrariando a posição anterior, o governo Lula aceitou os argumentos dos países ricos, de que a culpa pelo aquecimento global é de todos, e que não se pode apenas cobrar reduções da poluição dos EUA e da Europa.

Segundo a comunidade científica em 2007, 20% das emissões mundiais de gases-estufa têm origem no desflorestamento. No Brasil, essas emissões representam 75% do total. Pelo texto, o governo se responsabiliza a reduzir em 40% o desmatamento médio anual no período 2006 a 2009 comparado a 1996-2005. Nos períodos seguintes (2010-2013 e 2014-2017), a meta passa para 30% em cada etapa. Com isso, o País evitaria a emissão de 4,8 bilhões de toneladas de gás carbônico (CO2) até 2017

Na prática, Lula concordou com o que Bush disse por 8 anos, e que representa a essência da hipocrisia e posição criminosa do imperialismo, de dividir sua responsabilidade com o resto do mundo. Nós sabemos que isso é uma farsa, pois os Estados Unidos são o maior poluidor individual do planeta, considerando-se apenas seu território. Além disso, são empresas americanas que poluem, em sua maioria, o ar na China, os rios na Índia e o mundo inteiro.

Nós repudiamos este discurso falsamente ecológico que, na verdade, encobre sua própria imobilidade em fazer qualquer coisa para resolver o problema. O Brasil, ao entrar nessa lógica, junto com China e Índia, está se rendendo e aceitando que os EUA e a Europa sigam poluindo todos os países, despejando milhões de toneladas de resíduos e produtos tóxicos na atmosfera, prejudicando a saúde e a vida de toda a população.

O governo Lula é cúmplice disso tudo, pois não se contrapõe aos planos apresentados pelos países imperialistas, em que sua redução de poluição é sempre ridícula. Ao mesmo tempo, se compromete a fazer a “sua parte”, devastando menos a Amazônia, como se isso fosse um mérito. Apresentadas na segunda-feira, em Brasília, dentro do Plano Nacional de Mudanças Climáticas, o governo Lula estipulou metas de reduzir 70% o desflorestamento.

Mas, até mesmo ambientalistas independentes foram quase unânimes na descrição das metas como “pouco ambiciosas”, pois seguem prevendo uma destruição de um território igual ao da Bélgica e da Holanda somados.

O capitalismo imperialista é o culpado

Os Estados Unidos, Japão e os países europeus desenvolvidos destruíram suas florestas, queimaram todo o carvão que tinham para se desenvolver e ficaram impunes. Hoje, exigem que os países pobres, que recém iniciam sua industrialização, parem de produzir, ou abram mão de seus recursos naturais porque o “esforço” deve ser de todos igualmente.

As emissões norte-americanas, provenientes principalmente da queima de combustíveis fósseis, estão cerca de 14% acima dos níveis de 1990, e os planos do governo Bush previam o aumento das emissões até 2025. Obama planeja cortar as emissões para 80% dos níveis de 1990 até 2050, o que não resolve a situação,e empurra a meta para 25 anos mais tarde.

China e EUA são os principais emissores dos gases estufa, à frente de Índia e Rússia. A emissão per capita norte-americana, entretanto, é quase cinco vezes maior que a da China. Além de que a poluição gerada na China e na Índia é causada por chaminés americanas, que geram lucro para empresas americanas.

A reunião, ao invés de combater a fonte da destruição ambiental, que é a poluição provocada pelos países centrais economicamente, definiu pela criação de um fundo de adaptação às mudanças climáticas, cujos recursos seriam usados para apoiar projetos de países vulneráveis que sofrem as conseqüências do aquecimento global. Ou seja, ao invés de acabar com a poluição desenfreada que praticam, os países imperialistas criam um fundo para pagar parte dos efeitos nocivos que vão seguir ocasionando. Além disso, os recursos são insignificantes: US$ 80 milhões ao ano atualmente e no máximo US$ 300 milhões em 2012, para financiar projetos em todo o Terceiro Mundo.

Para completar o serviço, diante da tentativa de ampliar as fontes de dinheiro, os países desenvolvidos barraram a proposta. Hoje, na prática, são os países em desenvolvimento que financiam o fundo, pois ele é alimentado com 2% dos créditos gerados pelos projetos de MDL (Mecanismo de Desenvolvimento Limpo). Quer dizer, os ricos seguem destruindo a natureza livremente, com o compromisso vago de reduzir um pequeno percentual daqui há muitos anos. Diante dos efeitos desse crime, se cria um fundo sem verba para amenizar quase nada do desastre ambiental, e são os pobres quem pagam a conta.

Desde o protocolo de Kyoto não se obtém nenhum avanço na redução de emissões, e agora, com a capitulação de Brasil, China e Índia, a burguesia, multinacionais e grandes poluidores internacionais vão estar ainda mais despreocupados do que antes.

A próxima reunião, em Copenhague (Dinamarca) foi adiada em uma semana, mas não deve representar nenhuma nova esperança. A tendência é que, se algo mudar, será ainda mais no sentido de punir os países pobres, e dar permissão dos ricos fazerem o que querem.

Enquanto Estados unidos e Europa descumpriam mais uma vez seus prazos, já insuficientes, de redução de poluição, os países semi-coloniais se apressavam em tentar dar satisfação em seu esforço de provar que estão fazendo seu “dever de casa”. A China prestou contas e informou as ações realizadas internamente, como o corte de 335 milhões de toneladas de emissões de CO2 com o aumento da eficiência energética nos anos de 2006 e 2007. O Brasil trouxe seu plano de mudança climática, com meta de reduzir 70% do desmatamento até 2018. O México anunciou corte de 50% nas emissões até 2050. Índia e África do Sul (país que sediará a conferência posterior a Copenhague, em 2011) também mostraram seu comprometimento para evitar o aquecimento global acelerado.

Mas a contrapartida que esses países esperavam do grupo dos industrializados não existiu. Não houve avanço na área de transferência de tecnologia dos países ricos para os outros possam diminuir suas emissões, e também não houve anúncio de recursos para fundos que beneficiem os países menos desenvolvidos.

Que os ricos paguem pela destruição que fizeram

        Os revolucionários compreendem que a solução para o fim da agressão à natureza e ao meio-ambiente, incluindo o ser humano como parte dele, só pode acontecer com o fim do capitalismo. É necessário planificar a produção para que se evite o desperdício, se racionalize a produção e se possa ter um consumo saudável, adequado e disponível a todos. Para isso, e para que se utilize fontes limpas de energia, incentive a reciclagem, a educação ambiental e, principalmente, a pesquisa científica que pode combater a poluição atual, é preciso uma sociedade sem exploração, nem propriedade privada da produção. Somente no socialismo, os esforços vão poder se voltar ao bem estar da população, e não ao lucro, que hoje impede que se priorize a saúde e a qualidade de vida das pessoas.

        No entanto, simultaneamente com a luta por uma revolução social, e pelo fim das causas dos problemas ambientais, é fundamental cobrar das grandes emp´resas, latifundiários e países ricos a conta da crise ambiental. Tem-se que acabar com o uso privado da água dos rios, que são secos por arrozeiros, sojicultores e outros produtores. É imprescindível expulsar os pecuaristas e agressores da Amazônia, impedir qualquer nível de desmatamento e que se prendam e expropriem todos os responsáveis.

        Mas, mais do que qualquer iniciativa nacional, é determinante que, desde já, se exija e obrigue a que os países imperialistas paguem a conta do aumento de doenças respiratórias, das remoções habitacionais, da construção de planos de emergência contra inundações e reparos sobre seus efeitos. A fatura da crise deve sair do não pagamento das dívidas externas, do confisco do lucro das multinacionais e da expropriação dos bens e meios de produção dos capitalistas americanos e europeus ao redor do mundo.

        Defendemos o esforço coletivo de todos para impedir o desastre advindo pelo superaquecimento. Mas devemos ter claro de que a responsabilidadee principal, e a solução do problema, passam, necessariamente, pelo combate ao inimigo principal e que detyermina os outros: o combate ao imperialismo, como expressão do capitalismo em decadência e destruidor das forças produtivas, em especial da natureza e do ser humano.

 

 

 

 

 

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