Golpistas, Zelaya e o imperialismo: todos brindam o desfecho da crise em Honduras.
Depois de meses de incertezas e discussões, finalmente, se chegou a um acordo sobre o destino político de Honduras. Mas os trabalhadores só têm a lamentar. O que se definiu foi o caminho que, desde o início, era defendido pela burguesia hondurenha e imperialista.
Após fugas e retornos de Zelaya ao país; de protestos por parte da população que resistia ao golpe; e da pressão internacional; a saída encontrada foi a da conciliação, para tentar favorecer os dois lados burgueses em conflito, e ignorando as necessidades dos trabalhadores.
Este desfecho foi levado a cabo pelo presidente eleito Porfírio Lobo, eleito numa eleição fraudulenta e ilegítima, por convocação do regime golpista, e sob um ambiente de questionamento gigantesco à democracia burguesa como um todo. Lobo é a continuidade de um ataque ditatorial, e o acordo com um presidente ilegítimo é a aceitação da ilegitimidade inicial: o golpe que depôs Zelaya.
Em dezembro de 2009, o recém "eleito" presidente defendeu a anistia para ambos os lados. Tanto para Zelaya (que só é culpado de ser covarde diante do golpe e cúmplice de seus interesses de classe), quanto para os golpistas (que assassinaram manifestantes, decretaram toque de recolher, etc.).
Segundo suas palavras, "Nós todos devemos perdoar. Nós defendemos enfaticamente a anistia a todos, idependentemente das diferenças ideológicas que possamos ter. Isto é o interesse do povo hondurenho". Em resumo, foi proposto um acordo que salva a pele dos golpistas, legaliza sua eleição fraudada e ainda se fica com a impressão de que aconteceu uma saída justa e equilibrada.
O "recuo" dos golpistas, já que não havia mais correlação de forças para se manterem no poder do país, foi muito pequeno, mas mesmo assim foi aceito por Zelaya, que cedeu milhares de vezes mais. Além de ser covarde, como demonstrou quando abandonou o país no momento crucial, quando começava a se lutar nas ruas contra o golpe; Zelaya age assim porque, apesar de suas disputas com o setor ditatorial, é tão burguês como eles, e acima de seus interesses específicos, deseja que a burguesia e seu sistema continuem de pé, em paz.
No fim das contas, o golpe foi legitimado, e o imperialismo pode seguir contando com um presidente que vai seguir sendo seu capacho. Quem sai perdendo é o povo hondurenho, que, com golpe ou com essa democracia de fachada, não decide sequer quem vai ser o presidente, muito menos os rumos do país.
Nós do Movimento Revolucionário, desde o primeiro momento deste golpe, dizíamos que este fenômeno ia na contracorrente da correlação de forças que existe na luta de classes a nível mundial. Por mais que os regimes militares sejam os que mais agradam à burguesia, não existem condições para se impor regimes deste tipo de modo duradouro, pois qualquer golpe, hoje em dia, é encarado com revolta e protesto por parte dos trabalhadores.
E foi exatamente isso que aconteceu em Honduras. Por isso, o imperialismo e diversos figurões da burguesia mundial se posicionaram retoricamente contra o golpe, e desde o começo se mobilizaram para encontrar uma saída "democrática" que lhes permitisse manter a dominação do país. É isto que agora está acontecendo, mudando a fachada sem mudar o conteúdo. O mais trsite é que, pela ausência de uma direção autônoma e combativa dos trabalhadores, este processo está sendo aceito sem muita contestação.
Faz falta uma direção revolucionária
Apesar de tudo se manter como antes, Honduras é um exemplo, em primeiro lugar, da disposição de ir à luta que está presente nos trabalhadores; e, em segundo lugar, do quanto é falso o discurso de organizações reformistas de que o inimigo maior é a direita, e de que, para não deixar ditaduras voltarem, é necessário eleger governos de Frente Popular.
Toda a aposta da burguesia é que vai neste sentido, e ela também compreende que deve impor a dominação sobre a classe trabalhadora através do diálogo e não somente através da armas. Este outro artifício, o das ditaduras, encontra um questionamento no mundo todo, sendo utilizado pelo imperialismo apenas quando se torna impossível dominar através da traição das lideranças e conchavos. Aí vai-se para ocupações e guerras, como acontece no Iraque e Afeganistão, por exemplo, mas também com seus resultados desastrosos.
Assim, fica a pergunta: seria possível ter um outro desfecho o processo que ocorreu em Honduras? Respondemos que poderia sim, pois a História já provou que os trabalhadores, quando se revoltam, são capazes de passar por cima de direções traidoras e pelegas, e tomar o poder. Mas isso não ocorre espontaneamente, e seria precisa construir uma nova direção, revolucionária, para que isso acontecesse.
A imensa maioria das organizações de esquerda, hoje em dia, abdicou da luta pela revolução e fazem exatamente este mesmo jogo que foi feito em Honduras. Brigam e esperneiam para, no final, comemorarem derrotas como esta, onde tudo segue igual. Zelaya, os golpistas e o imperialismo: todos juntos estão brindando o fato de terem impedido os trabalhadores de tomarem conta de tudo.
Para que mais processos como este não se tornem rotineiros e com um fim determinado antecipadamente, é necessário construir em cada lugar do mundo partidos revolucionários, de combate e para ação. Só assim, é possível se prevenir contra possíveis golpes militares, derrotar os que aconteçam, e combater a mentira da democracia burguesa.
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