Publicado em 13/12/2008


Governo de Cuba aplaude novo presidente americano e busca estabelecer boas relações políticas e econômicas com EUA de Barack Obama

Mesmo antes do desfecho das eleições dos Estados Unidos, e da vitória der Barack Obama, o governo de Cuba já fazia movimentos no sentido de se aproximar com Washington. Segundo o Chanceler Pérez Roque, Cuba se disporia a um diálogo sem impor "nenhum tipo de condição, mas esclarecendo que não discutiremos nosso ordenamento interno, nossa Constituição e nossas leis, que são absoluta prerrogativa dos cubanos"'. Tirando o tom aparentemente firme, isto significa uma capitulação histórica do governo de Cuba, anunciando sua disposição de render-se.

Quando diz diálogo sem "nenhum tipo de condição", o governo Castro está dizendo que pode aceitar a permanência da base militar criminosa de Guantánamo, escandalosamente dentro do próprio território cubano, onde os americanos praticam livremente torturas contra prisioneiros. "Nenhum tipo de condição" quer dizer poder admitir a propriedade dos burgueses assassinos e ditadores aliados de Batista, deposto pela revolução de 1959. Está se abrindo a brecha para indenizações a serem pagas a estes criminosos e inimigos dos trabalhadores, ou a devolução de suas propriedades. Sem falar em todo o resto, já que tudo entra num diálogo "sem pré-condições".

Na verdade, dizer quer não aceitam intromissões na Constituição e nas leis, depois de não colocar condições nenhuma, é uma fraude retórica, vazia de conteúdo, e que só serve para jogar para a torcida. Nesta linha de falsas resistências, até mesmo o governo fantoche do Iraque ocupado simula ultimatos e resoluções de garantia de sua soberania contra os EUA. Fazem tudo isso no plano do discurso, mas, na prática, não tem coragem nem condições de enfrentar os EUA em nada concreto e real que estejam dispostos a fazer.

Fica claro o desespero de Cuba de, tendo saído de cena George W. Bush, com quem era impossível negociar, abrir-se ao novo presidente de qualquer forma, aceitando negociar tudo em troca do fim do embargo e de investimentos do capitalismo americano.

Com a eleição de Obama, o próprio Fidel, apagado do centro do governo, declarou satisfação com sua vitória e confiança na melhora das relações, se prontificando a negociar com Obama. O presidente eleito dos EUA, em resposta, mantém o tom de "abrir mercados, ótimo; mas queremos 'democratizar Cuca', ou seja, colocar um governo de confiança no poder".

Obama diz, nas entrelinhas, que vai seguir financiando e tramando para derrubar o governo cubano, não mais por ser de um Estado Operário, mas por ser um governo com respaldo popular, como na Venezuela, e, mesmo assim, o governo Castro segue insistindo em tentar chamar a atenção e conseguir a benção do imperialismo.

O governo de Cuba quer mais capitalismo

Depois do fim da URSS, em 1991, e de seus envios de dinheiro e produtos subsidiados a Cuba, o processo de restauração capitalista em Cuba se acelerou.

Hoje, nenhum dos pilares de um Estado Operário sobrevive na ilha. A planificação econômica (princípio e base da economia de tipo socialista) foi abandonada e substituída pela concorrência e produção capitalistas, com sua inevitável anarquia e submissão aos "mercados". O monopólio do comércio exterior acabou. E o reduzido controle que ainda havia por parte dos trabalhadores em qualquer esfera do poder foi aniquilado.

A transformação de Cuba foi qualitativa, e hoje o país é mais uma país capitalista, deixando de ser um Estado dos trabalhadores e sequer sendo independente. Parte importante de sua economia ainda é estatal, como em vários países igualmente capitalistas, mas estas propriedades estão sob um Estado de outro tipo agora: burguês, e controlado pelos interesses do imperialismo (europeu e americano, por meio de laranjas) e da burguesia nacional associada.

O resultado é bem visível: as conquistas sociais estão se perdendo. A excelência na saúde e educação de décadas inteiras ainda sustenta resultados melhores que o de países igualmente pobres, mas não é mais suficiente para esconder uma redução de investimentos, especialmente em pesquisas, que fazem com que haja uma obsolescência e precarização de equipamentos, hospitais e condições básicas de escolas e prestação de saúde. O esporte cubano está em decadência, a prostituição típica da "Cuba bordel" de Batista está de volta, e a pobreza é igualitariamente massiva.

        Enquanto isso, a burocracia privilegiada cubana, converteu-se, em bom número, em novos empresários e burgueses. O imperialismo europeu, e os dólares americanos, com testas-de-ferro canadenses e mexicanos, já são donos da indústria hoteleira e do ramo do turismo (o mais importante em Cuba), dos serviços de telefonia e comunicações. Só quem ainda está de foras são setores americanos que não podem, ou têm dificuldades de triangular seus negócios e tirar sua lasquinha de Cuba.

O governo cubano espera, nas palavras de seu representante oficial, Pérez Roque, que o próximo governo dos Estados Unidos "retifique a atual política, suspenda o bloqueio a Cuba, elimine as leis extraterritoriais, normalize as relações e aprove as propostas cubanas de cooperação na luta contra o tráfico de drogas e de pessoas". Ou seja, os EUA não devem mais ser combatidos em sua política e ataques. O plano não é mais resistir, enfrentar ops interesses de suas multinacionais nem nada do tipo.  

"Nós estamos prontos para isso. Cuba deseja manter relações normais com os Estados Unidos", afirmou o ministro, que ressaltou que "Cuba não é uma ameaça, é um pequeno país". Que vergonha! Cuba sempre teve o mesmo tamanho, mas seu povo demonstrou em 1959, em 1962 (quando derrotou o golpe da Bahia dos Porcos) e sempre que foi chamado a isso, que pode derrotar o imperialismo. Cuba pôde vencer estas lutas, assim como o também pequeno Vietnã, porque contou com o heroísmo da massa inteira de trabalhadores defendendo um Estado que era seu, além de contarem com a solidariedade e luta ativa da classe trabalhadora no mundo inteiro, inclusive dentro dos EUA.

Hoje, o governo capitalista de Cuba já não fala como Che Guevara, nem como Fidel Castro no auge dos conflitos com os EUA. Já não se fala em derrotar o imperialismo, em acabar com a exploração nem em luta de classes. Hoje, a missão do governo cubano é disputar, com isenções fiscais e mão de obra barata e bem educada nos anos anteriores, os investimentos de burgueses que queiram ir explorar e garantir seus lucros na ilha.

O chefe da diplomacia cubana disse ainda que se Washington "pôde normalizar suas relações com países com os quais sustentou guerras terríveis, como o Vietnã, ou que foram rivais políticos e ideológicos, por que não poderia fazer o mesmo com um pequeno país vizinho que não constitui uma ameaça?". O conteúdo da fala, e o tom pedindo piedade, suplicante, não deixam dúvidas: o governo de Cuba está rendido!

Maioria do imperialismo quer o fim do embargo

Segundo as associações empresariais dos Estados Unidos, reunidas para discutir as oportunidades de investir em Cuba, Barack Obama deveria atenuar rapidamente o embargo a Cuba, instituído há cinco décadas, e rever a política de Washington em relação à ilha.

"Apoiamos a completa remoção de todas as restrições comerciais e de viagem a Cuba. Reconhecemos que a mudança pode não vir toda de uma vez, mas precisa começar por algum lugar, e precisa começar logo", disse o grupo em carta a Obama.

Os empresários querem a total liberdade de investimentos e de viagens a Cuba (não de Cuba para os EUA, evidentemente) e também que maquinário agrícola e pesado, entre alguns outros produtos, sejam retirados do embargo. Alegam que seria para ajudar na reconstrução da infra-estrutura cubana depois dos furacões Gustav e Ike, mas é óbvio que estão de olho nos lucros com as vendas.

A carta foi assinada por entidades representativas de quase todos os setores agro-industriais, como Federação Americana da Agricultura, Mesa- Redonda Empresarial, Câmara de Comércio dos EUA, Federação Nacional do Varejo e Associação dos Fabricantes de Comestíveis.

"Estamos contentes que o senhor apóie a suspensão das restrições para remessas familiares de dinheiro, visitas e pacotes de apoio humanitário oriundos de cubano-americanos. São primeiros passos excelentes, mas pedimos ao senhor que também se comprometa com um exame abrangente da política dos EUA", disse a carta.

Em 1962, os EUA ampliaram um embargo de armas contra Cuba, para incluir outros produtos, depois que o governo comunista cubano confiscou bens de empresas norte-americanas na ilha. As restrições da Guerra Fria foram transformadas em lei pelo Congresso em 1992, sob o nome de Lei da Democracia Cubana. O embargo se mantém sólido em grande parte devido à influência dos exilados cubanos da Flórida, Estado eleitoralmente importante nas eleições presidenciais.

Mas, com a eleição de Obama, a perspectiva de mudança melhorou, segundo Jake Colvin, vice-presidente de questões comerciais globais do Conselho Nacional de Comércio Exterior, cujos membros incluem Boeing, Caterpillar e Microsoft. "Há um crescente otimismo de que dar esse tipo de pequenos passos que o presidente eleito Obama prometeu, como aberturas diplomáticas e o relaxamento de restrições de viagem, poderiam levar a mudanças mais substanciais posteriormente. As empresas querem estar preparadas para esse momento", disse Colvin.

        Quando Boeing, Microsoft e todo o setor agrícola pressionam juntos, já sabemos o que deve acontecer. A burguesia imperialista não faz estes movimentos senão para salvar parte dos lucros que estão sumindo com a crise econômica. É urgente para muitas empresas americanas entrar neste mercado, hoje dominado só por europeus.

        Porém, se nos EUA, os negócios com Cuba ainda estão sendo distencionados, no resto do imperialismo, os lucros em Cuba já são uma realidade. O embargo não existe e, por conta disso, mesmo aliados políticos dos EUA votam a favor de Cuba na ONU.

A Assembléia Geral da ONU aprovou, pela 17ª vez consecutiva, mas com uma maioria ainda mais avassaladora, o fim do embargo econômico e comercial declarado há quase meio século pelos Estados Unidos contra Cuba. O pedido teve apoio quase unânime dos 192 países que integram a ONU, já que 185 países votaram a favor e apenas três contra (Estados Unidos, Israel e Palau). Houve duas abstenções (Ilhas Marshall e Micronésia) e dois países não votaram (El Salvador e Iraque).

Se, com todo o respeito, descartarmos as posições políticas e interesses comerciais de Palau, Ilhas Marshall, El Salvador e Micronésia, sobram apenas o Iraque ocupado pelos próprios EUA e o Estado terrorista e ilegítimo de Israel, um apêndice americano no Oriente Médio, para lhe apoiar.

Quer dizer, o imperialismo americano quer as pazes com Cuba, e o imperialismo europeu, que já está tomando conta da ilha, deseja o fim do embargo dos EUA para não ser retaliado no comércio com este país, o que ainda ameaça algumas de suas empresas que normalizaram negócios com Cuba.

Resta saber por quanto tempo a minoria da burguesia americana, via de regra a de origem cubana, que foi expropriada, vai ser capaz de atrasar este processo inevitável de incorporação de Cuba, sem restrições, ao cenário capitalista mundial.  

Pelo fim do embargo.
Por uma nova revolução socialista em Cuba

        Nós somos completamente a favor do fim do embargo desumano e criminosos dos EUA a Cuba.

        No entanto, entendemos que os cubanos mais pobres e a classe trabalhadora cubana como um todo, só poderão de fato ganhar com o fim do embargo se ele significar a retomada do controle econômico na mão dos trabalhadores. Sob uma economia capitalista, os dólares que virão a Cuba serão ganhos pelos ex-burocartas e novos burgueses de Cuba. A população vai ser empregada e explorada "a la China", sem direitos trabalhistas, ganhando uma miséria em pesos enquanto produzirá bilhões em dólares.

        Cuba não precisa do direito a receber turistas americanos querendo pagar prostitutas universitárias ou destruir com o país, mas sim de uma verdadeira soberania, desenvolvimento e investimentos. Para dar este salto, o exemplo pode ser encontrado na história de heroísmo do próprio país. É preciso estatizar a economia, os trabalhadores assumirem seu controle, planificarem a produção e expulsarem ou justiçarem todos os traidores dos interesses do país e do povo, a começar por um governo tirano e vendido aos EUA.

 

 

 

 

 

VOLTAR

 
 
Notícias Relacionadas

• A Grécia vive dias de tormenta: Em luta há 1 semana, trabalhadores e estudantes paralisam a Grécia com uma poderosa greve geral

• Trabalhadores tailandeses põem governo em xeque com mobilizações de massas, mas a falta de uma direção revolucionária limita a luta dos trabalhadores.

• Situação e oposição fazem acordo no Zimbábue para garantir governabilidade, mais exploração e mais opressão

•ZIMBÁBUE: GOVERNO DITADOR E OPOSIÇÃO DEMOCRÁTICA SELAM ACORDO PARA GOVERNAREM JUNTOS CONTRA OS TRABALHADORES

• Zimbábue: Abaixo o governo de Robert Mugabe! Por um governo dos trabalhadores!

• Zimbábue: Tensão, enfrentamentos e acusações. Depois de um mês das eleições ninguém sabe quem é o presidente. 

• Protestos massivos no Haiti derrubam o Primeiro ministro, mostrando a força do povo haitiano e de sua luta!