Documentário mostra papel
criminoso de Bush e Estados Unidos
Na véspera da posse de Barak Obama na presidência dos Estados Unidos, aconteceu em São Paulo a pré-estréia do documentário "Novo século americano" do diretor italiano radicado nos Estados Unidos, Massimo Mazzucco, cujos direitos foram comprados pelo cineasta brasileiro Fernando Meirelles (Cidade de Deus, O jardineiro fiel e Ensaio sobre a cegueira), com lançamento mundial simultâneo no Brasil, na Itália, na Alemanha, na Jordânia, na Síria, na Bolívia, na Venezuela, entre outros países. Nos EUA o filme só poderá ser visto pela Internet.
O filme é um verdadeiro dossiê sobre a era Bush desde os ataques às Torres Gêmeas em 11/09/2001, passando pelas invasões do Afeganistão e do Iraque, mostrando o colossal complexo militar-industrial dos EUA e os interesses das grandes corporações petrolíferas nas guerras travadas pelo gigante do Norte.
Para situar o governo Bush, o documentário cobre todos os aspectos que sugerem que os ataques de 2001 não teriam sido perpetrados por seqüestradores muçulmanos, mas sim planejados e orquestrados pela própria administração americana. Essa tese, já divulgada em outras oportunidades, parte de uma investigação histórico-política sobre o partido dito "neoconservador", cujos princípios e credos têm raizes nos ensinamentos do filósofo político Leo Strauss, atuante no início dos anos 70. Tal filosofia, de acordo com o filme, dá suporte a tudo que aconteceu em decorrência do 11 de setembro. Seus principais membros no governo Bush foram o ex-vice-presidente Dick Cheney e o ex-secretário de Defesa, Donald Rumsfeld.
Para fundamentar tal teoria, o diretor Massimo Mazzucco lembra que, pela Constituição americana, os EUA só podem entrar em guerra com outro país se forem atacados. A partir daí, mostra que em todas as guerras de que participou, desde a guerra com a Espanha, no final do século XIX, que resultou na incorporação de Cuba à área de influência dos EUA, passando pelas Primeira e Segunda Guerras Mundiais, até a Guerra do Vietnã, os EUA forjaram ataques (ou não impediram propositalmente que acontecessem) dos inimigos a bases ou embarcações americanas para justificar sua entrada nos conflitos.
No caso do ataque japonês à base americana de Pearl Harbour, que provocou a entrada dos EUA na Segunda Guerrra Mundial, o filme mostra depoimento do almirante que comandava a frota americana dizendo que o governo americano tinha conhecimento prévio do ataque e não comunicou a ele. Já na declaração de guerra ao Vietnã do Norte, temos o depoimento do ex-secretário de Defesa americano Robert MacNamara dizendo que o suposto ataque a embarcações americanas por parte do Vietnã do Norte havia sido um "engano.
Dispondo de tais documentos, o diretor passa a "embasar" sua muito discutível teoria de que os ataques às Torres Gêmeas foram uma conspiração do grupo de "neocons" que cercava Bush, que, sem o conhecimento deste, prepararam as operações e colocaram a culpa em Bin Laden com o objetivo de desencadear a resposta armada dos EUA, e assim fazer valer as sua teorias de que o país deveria agir unilateralmente no mundo todo em defesa de seus interesses e de seus "valores". Esse realmente é o elo fraco do filme que, inclusive, o expõe a críticas fundamentadas prejudicando o conjunto da obra, em que serão desenvolvidas descrições pormenorizadas do complexo militar-industrial americano, suas ligações com os interesses das grandes empresas petrolíferas e sua decorrência: as guerras do Afeganistão e do Iraque.
No caso da invasão do Afeganistão, o filme mostra que esse país se tornou a rota de passagem obrigatória do gás natural extraído da região do Mar Cáspio para a China e o Japão. No Iraque, são os interesses das petrolíferas em suas grandes jazidas de petróleo os motivos da ocupação. Nesse momento, Massimo Mazzucco deixa de lado suas teorias conspiratórias sobre o grupo de neocons que cercava Bush, e vai direto ao ponto, mostrando que o vice-presidente Dick Cheney foi presidente da empresa encarregada de reconstrução do Iraque, a Halliburton, e que ela foi beneficiada por contratos muito generosos por parte do governo norte-americano.
Crimes de guerra patrocinados pelo governo
Daí parte-se para as empresas de segurança que contratavam mercenários para lutar no Iraque. A Blackwater, principal exemplo dessa terceirização da ocupação do Iraque, citou insistentemente a afirmação de Rumsfeld [ex-secretário da Defesa de Bush e membro do grupo de neocons de que os contratados são parte da "F orça Total" como prova de que é uma parte legítima da "capacidade de combate" da nação. Ao invocar as palavras de Rumsfeld, a empresa declarou, de fato, as suas forças acima da lei, sem ser questionada pelo governo. Se é parte das forças "combatentes", a Blackwater goza da mesma imunidade que os militares têm perante as leis civis, mas sem serem limitados pelo sistema das cortes marciais a que os militares têm de se submeter.
Enquanto as primeiras pesquisas sobre a Blackwater centravam-se no complexo labirinto das subcontratações secretas, debaixo das quais essa empresa opera no Iraque, uma investigação mais profunda à companhia revela uma assustadora imagem de um exército privado com ligações políticas convertido na guarda pretoriana da administração Bush.
A Blackwater foi fundada em 1996 pelo cristão conservador e multimilionário ex-SEAL (Forças de elite da marinha norte-americana) Erik Prince, descendente de uma família rica de Michigan, cujas doações políticas ajudaram ao auge da direita religiosa e à revolução republicana de 1994. No momento de sua fundação, a empresa consistia essencialmente na fortuna privada de Prince e numa vasta propriedade de 5.000 acres [2.000 hectares], situada perto do Great Dismal Swamp en Moyock, Carolina do Norte. A sua visão foi "satisfazer antecipadamente a procura do governo por subcontratação de armamento e formação militar". Nos anos seguintes, Prince, a sua família e os seus aliados políticos encheram de dinheiro os cofres das campanhas republicanas, apoiando a tomada de controle do Congresso e a ascensão de George W. Bush à presidência.
Embora a Blackwater obtivesse alguns contratos durante a era Clinton, que era favorável à privatização destes serviços, foi no entanto com a "guerra contra o terrorismo" que chegou o momento de glória da empresa
O documentário passa então a mostrar as atrocidades cometidas pelos EUA no Iraque, desde as torturas na prisão de Abu Ghraib até o assassinato a sangue frio de civis iraquianos. O filme nos poupa de imagens mais chocantes de corpos de vítimas, mas, de maneira muito mais eficiente, desvela os mecanismos ocultos da lógica do genocídio no Iraque.
Bush apenas personifica a política de todo o imperialismo, incluindo Obama
De acordo com o cineasta Fernando Meirelles, presente na pré-estréia do filme, a sua estréia mundial foi programada para coincidir com a posse de Barak Obama. De fato, o documentário ao centrar toda a responsabilidade dos crimes de guerra cometidos pelos EUA num pequeno grupo de personalidades sinistras, dá a entender que uma vez desalojadas do poder essas pessoas poderia haver uma reconversão da política externa desse país no sentido de respeitar os princípios fundamentais de sua "democracia". Barak Obama seria então o elemento-chave dessa mudança.
O produtor do filme, na pré-estréia, encerrou os debates afirmando: "Obama vai sepultar a era Bush". Esse viés idealista, de que um homem com "boas intenções" pode reverter toda uma política criminosa de um país, contradiz a própria dinâmica do filme desde a apresentação do complexo industrial-militar até os interesses das grandes empresas petrolíferas, de prestação de serviços e de segurança que em última análise ditaram e continuarão ditando a política externa americana.
Conforme a própria descrição do filme, e opostamente aos que acreditam que mudando um indivíduo se pode mudar a política de todo um país, as origens da política truculenta, de ocupação de territórios e de agressão aos trabalhadores é o próprio caráter do governo norte-americano. O imperialismo só pode se manter se for baseado no poderio bélico e no controle econômico, político e militar sobre o restante dos países, e essa é a política de classe da burguesia dos EUA, independentemente da expressão individual que a represente. Já antes da posse, Obama deixava claro que vai manter tudo como recebeu de Bush, a começar pelo próprio ministro da Defesa do governo republicano, Robert Gates, que foi mantido em sua gestão.
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